História

Como é Que a Mulher Que Descobriu o Tratamento Para a Lepra Quase se Perdeu Para a História

Alice Ball, filha de pioneiros do daguerreótipo, utilizou a sua paixão pela química para desenvolver uma injeção que foi utilizada durante 20 anos. Sexta-feira, 9 Março

Por Carisa D. Brewster

Em 1916, Harry T. Hollman, cirurgião-assistente no Hospital de Kalihi no Havai, tinha um problema para resolver.

Kalihi estava entre um punhado de instalações no Havai que tratavam pacientes com a doença de Hansen, também conhecida como lepra, uma doença que pode variar em intensidade desde lesões cutâneas quase impercetíveis até desfigurações assustadoras.

A bactéria que provoca o problema de pele foi identificada em 1876 e, no início do séc. XX, os tratamentos tinham evoluído ligeiramente graças ao óleo de hidnocarpo, uma substância proveniente das sementes de uma árvore perene tropical. Quando o óleo era aplicado ou administrado por via oral, os pacientes com a doença de Hansen registavam algumas melhorias mas os resultados era inconsistentes. Também existiam alguns efeitos secundários desconfortáveis, como náuseas e abcessos sob a pele.

Um tratamento ideal seria uma solução feita a partir dos componentes ativos do óleo que pudesse ser injetada sem efeitos secundários. Então, Hollman procurou a ajuda de um professor de Química no Colégio do Havai (atualmente Universidade do Havai) cujo trabalho o tinha deixado bastante impressionado.

Alice Augusta Ball iria em breve deixar a sua marca na história da Medicina, culminando num tratamento para a lepra que continuou a ser utilizado durante mais de duas décadas.

“A descoberta de Ball foi bastante benéfica para aliviar a dor que os pacientes sentiam”, afirma James P. Harnisch, médico na Hansen’s Disease Clinic no Harborview Medical Center em Seattle, Washington, especialista em doenças infeciosas e dermatologia. "E para uma mulher negra conseguir este feito na altura em questão e com avanços na área naquela época, é notável em si mesmo."

Nascida Para Ser Química

Ball nasceu a 24 de julho de 1892 em Seattle, Washington, a terceira de quatro filhos. Vários dos seus familiares foram fotógrafos, incluindo o seu avô, J.P. Ball, Sr., um dos primeiros afro-americanos nos EUA a aprender a arte do daguerreótipo, a primeira forma de fotografia com êxito. É fácil imaginar uma jovem Alice a observar o processo complexo do daguerreótipo durante a sua infância e a desenvolver um interesse pela química.

Em 1902, na esperança de tentar melhorar a saúde fraca do seu avô com um clima melhor, a família mudou-se para Honolulu, Havai. No entanto, o seu avô morreu apenas dois anos mais tarde e a família regressou a Seattle, onde Ball se licenciou em Química Farmacêutica e Farmácia pela Universidade de Washington.

Para a sua pós-graduação, Ball decidiu regressar ao Havai, onde se tornou simultaneamente na primeira mulher e na primeira afro-americana a fazer um mestrado em Química no Colégio do Havai. O tema da sua tese torna claro porque é que Hollman procurou especificamente a sua ajuda: "identificar os componentes ativos de outra planta, a raiz de kava".

Quase Perdida

Segundo todos diziam, Ball trabalhou arduamente, equilibrando o ensino durante o dia e o problema do hidnocarpo durante qualquer minuto de tempo livre que tinha. Em menos de um ano, descobriu uma forma de criar uma solução hidrossolúvel dos compostos ativos do óleo que pudesse ser injetada de forma segura, com o mínimo de efeitos secundários.

Infelizmente, Ball não teve oportunidade de publicar as suas descobertas. Pouco tempo após a sua descoberta, ficou doente. No outono de 1916, regressou a casa a Seattle, onde morreu a 31 de dezembro de 1916, aos 24 anos de idade. Um artigo no jornal Honolulu Pacific Commercial Advertiser de 1917 afirmava: “Durante uma aula em setembro de 1916, a Sra. Ball sofreu uma intoxicação por cloro”. Na altura, os exaustores não eram obrigatórios nos laboratórios.

Após a sua morte, o presidente do colégio, Arthur L. Dean, continuou o seu trabalho e em breve as injeções de hidnocarpo tinham muita procura e eram requisitadas pelo mundo inteiro para tratar a doença de Hansen. As injeções tornaram-se na forma mais fiável para ajudar a manter a doença controlada até ao aparecimento de novos medicamentos nos anos 40.

No entanto, Dean nunca reconheceu Ball pela descoberta inicial. O seu nome poderia ter-se perdido totalmente para a história não fosse uma breve menção numa publicação médica de 1922, na qual Hollmann evidencia que Ball criou a solução de hidnocarpo, denominando-a como o “Método Ball.”

No entanto, nos últimos 20 anos, Ball recebeu o seu reconhecimento há muito devido. Em 2000, a Universidade do Havai colocou uma placa de homenagem a Ball sob a sua única árvore de hidnocarpo e a vice-governadora Mazie Hirono declarou o dia 29 de fevereiro como Dia Alice Ball. Em 2007, o conselho de reitores da universidade agraciou postumamente Alice Ball com a sua Medalha de Distinção. E só no ano passado, Wermager criou a Bolsa Alice Augusta Ball para a Universidade do Havai,  para estudantes com mestrado em Química, Bioquímica, Biologia ou Microbiologia que "demonstrem as características exibidas por Ball nos seus estudos e investigação".

Do Tratamento À Prevenção

Atualmente, a doença de Hansen é totalmente curável com uma terapia com vários medicamentos, para além de outros medicamentos para evitar complicações.

Mas o público ainda tem uma ideia errada sobre a doença de Hansen, afirma Harnisch. Tanto ele como a sua equipa em Harborview ajudam os pacientes a ultrapassar esta noção errada.

"Algumas pessoas ainda têm esta imagem bíblica da doença de Hansen e o estigma associado à mesma. Pensam que as pessoas têm de ser levadas ou isoladas", afirma Harnisch. "Por isso, aconselhamo-las a não se preocuparem, não há problema em tocar nas pessoas, ter filhos, beijar. Cerca de 95% da população mundial é resistente à bactéria, por isso é necessário um contacto muito próximo durante um longo período de tempo para contrair a doença."

Em última análise, prevenir a doença de Hansen implica uma vacina.

"Já se fizeram várias tentativas para criar uma vacina ao longo dos anos e falharam. Presentemente, existe uma vacina nos ensaios da fase 1 no Brasil, a cargo de uma empresa biotecnológica e os resultados são promissores", afirma Harnisch.

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