Descobertas as Mais Antigas Pinturas Rupestres do Mundo — E Foram Feitas por Neandertais

A descoberta sugere que os neandertais e os seres humanos modernos tinham as mesmas capacidades cognitivas.

Publicado 9/03/2018, 14:02 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET

Muito antes de Picasso, onde é hoje a atual Espanha, os artistas primitivos já produziam as suas próprias criações, misturando pigmentos, fazendo contas a partir de conchas e pintando murais nas paredes de grutas. O fator surpresa? Estes artistas inovadores eram, possivelmente, homens de Neandertal.

Com cerca de 65 000 anos, estas pinturas rupestres e contas de conchas são as primeiras obras de arte datadas da época dos homens de Neandertal, e incluem as mais antigas gravuras rupestres jamais descobertas. Em dois novos artigos, publicados no passado mês de fevereiro nas revistas científicas ScienceScience Advances, os investigadores expõem a teoria que estas obras de arte antecederão a chegada do Homo sapiens moderno à Europa, o que significa que terão sido criadas por outra espécie de hominídeo.

Os investigadores descobriram, em três grutas localizadas em diferentes pontos de Espanha, mais de uma dúzia de exemplos de pinturas rupestres com mais de 65 000 anos. Na Cueva de los Aviones, uma gruta no sudeste espanhol, os investigadores descobriram ainda contas de conchas perfuradas e pigmentos com, pelo menos, 115 000 anos.

“As descobertas dos Aviones constituem os ornamentos pessoais mais antigos conhecidos em todo o mundo”, diz o coautor do estudo, João Zilhão, arqueólogo da Universidade de Barcelona. “Antecedem 20 a 40 milhares de anos qualquer outro dos objetos minimamente parecidos descobertos no continente africano. E foram feitos por neandertais. Que mais é preciso dizer?”

Os autores defendem que, não obstante a sua reputação de brutos na cultura popular, os neandertais equiparavam-se cognitivamente ao Homo sapiens. Se os resultados se confirmarem, esta descoberta implica que a inteligência subjacente à arte simbólica poderá ter tido origem no ancestral comum do Homo sapiens e dos neandertais, há cerca de 500 000 anos.

“Os neandertais parecem ter tido uma competência cultural que era partilhada pelos seres humanos modernos”, diz John Hawks, paleoantropólogo da Universidade do Wisconsin-Madison, que não participou no estudo. “Eles não eram uns brutos imbecis, eram nitidamente humanos.”

Trogloditas nunca mais

Em 1856, os trabalhadores de uma pedreira de calcário no vale de Neander, na Alemanha, descobriram um conjunto de ossos que, à primeira vista, parecia pertencer a um ser humano deformado. Os cientistas da época rapidamente concluíram que a figura de sobrolho proeminente e peito robusto pertencia a uma espécie distinta de hominídeo: o Homo neanderthalensis.

Na época, os neandertais foram considerados mais músculo que inteligência, havendo, inclusivamente, um cientista a sugerir que eles fossem classificados como Homo stupidus. Contudo, desde a década de 50 do século passado, os investigadores têm vindo a descartar o estereótipo de trogloditas. Os neandertais enterravam os seus mortos com reverência, fabricavam ferramentas de pedra e usavam plantas medicinais.

Os dados genéticos mostram também que os neandertais e os seres humanos modernos se reproduziram entre si: cerca de 2% do ADN europeu e asiático moderno teve a sua origem nos neandertais.

Ainda assim, alguns investigadores mostraram-se relutantes em afirmar que os neandertais tinham a capacidade de produzir arte simbólica. As evidências da época indicavam que a arte primitiva europeia só se teria desenvolvido com a chegada de uma grande vaga de Homo sapiens modernos ao continente, há cerca 40 000 ou 50 000 anos.

Havia outros estudos que complicavam esta narrativa. Em França, os cientistas encontraram joias feitas pelos neandertais há cerca de 43 000 anos. Numa gruta em Espanha, foi descoberto carvão igualmente antigo, a par de pinturas rupestres. Mas nenhum destes locais precedia significativamente a chegada do H. sapiens, o que poderia indicar que os neandertais se teriam limitado a copiar os seus novos e mais cultos vizinhos.

“Se pegássemos em 100 arqueólogos representativos e lhes perguntássemos se os neandertais faziam pinturas rupestres, 90% diriam que não”, diz Alistair Pike, coautor do estudo e arqueólogo da Universidade de Southampton.

 

Detalhe da imagem de uma escada vermelha, pintada na parede de uma gruta em Espanha.
Fotografia de C.D Standish, A.W.G. Pike e D.L. Hoffmann

É Elementar

Para provar que os neandertais eram artistas, os investigadores teriam de encontrar arte na Europa com muito mais do que 50 000 anos. Pike e Zilhão começaram a trocar ideias sobre como o conseguir em 2003, quando, fortuitamente, conheceram Dirk Hoffmann, um investigador do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva, especializado na datação de minerais.

O trabalho de Hoffmann baseia-se no facto de que o urânio elementar radioativo é solúvel em água, mas o tório elementar não. Quando a água se infiltra no solo e chega a uma gruta, o urânio nela contido fica aprisionado em placas minerais, que se depositam sobre a rocha, e decai radioactivamente a um ritmo previsível, originando o tório. Uma vez que os cientistas sabem que nenhum outro tório penetrou nas placas minerais, a medição das quantidades relativas de urânio e tório dá uma estimativa das suas idades, e, consequentemente, da idade das pinturas que adornam a rocha.

Para fazer esta medição, Hoffmann só precisa de um pedaço de rocha do tamanho de um grão de arroz. Mas conseguir estas amostras não é tarefa fácil, sendo necessário usar escopros a meros milímetros de distância de obras de arte de valor incalculável.

“Um passo em falso, e removemos alguns pigmentos da parede, que ali se encontravam há milhares de anos”, diz Hoffmann, o autor principal de ambos os estudos. “Há esta sensação avassaladora da primeira vez que entramos na gruta.”

Nas três grutas com pinturas, os investigadores determinaram que algumas das placas minerais que cobriam as pinturas tinham, pelo menos, 64 800 anos, o que significa que a gravura em si terá, no mínimo, essa idade, se não for mais antiga. Todavia, as placas sobre as conchas e os pigmentos encontrados na Cueva de Los Aviones tinham, pelos menos, 115 000 anos — mais do que o dobro da idade que Zilhão tinha estimado quando examinou os mesmos artefactos num estudo de 2010.

Analisadas em conjunto, estas descobertas “mostram que este comportamento dos neandertais não está confinado a um único período... não foi apenas um grupo de hominídeos muito inteligentes que fez isto e depois despareceu”, afirma Pike. “Para além de que é também perfeitamente comparável àquilo que os humanos estavam a fazer em África.”

O contorno de uma mão, numa outra parede de uma outra gruta em Espanha, foi datado de há, pelo menos, 66 000 anos, o que indica que, muito provavelmente, terá sido feito por um neandertal.
Fotografia de H. Collado

Primos direitos

À luz do talento idêntico destas duas linhagens para a arte, os investigadores começaram inclusivamente a questionar se os neandertais seriam realmente uma espécie distinta, ou se, em vez disso, seriam um subgrupo europeu isolado de seres humanos modernos.

“A conclusão terá de ser que os neandertais eram cognitivamente indistintos [do Homo sapiens], e que a dicotomia neandertal contra sapiens é, portanto, inválida”, defende Zilhão. “Os neandertais eram também Homo sapiens.”

Contudo, outros especialistas há que recomendam cautela. Definir a arte primitiva é um desafio — e avaliar a sofisticação de um artista primitivo é uma tarefa ainda mais delicada, adverte Margaret Conkey, professora emérita na Universidade da Califórnia em Berkeley, e uma das maiores especialistas mundiais em arte rupestre pré-histórica. Para ser ainda mais convincente, continua, os trabalhos futuros deverão estabelecer uma ligação explícita entre a datação e as imagens e a presença dos neandertais, cujos restos mortais foram descobertos noutros sistemas de grutas espanhóis.

“Bastará uma data para indicar a presença de neandertais?” questiona a professora emérita. “Não tenho qualquer problema em assumir que os neandertais tivessem a capacidade de usar materiais como ocre ou carvão para criar marcas ou mesmo imagens, mas é o desafio arqueológico habitual: confirmar os resultados com várias linhas de provas convergentes.”

Pike, por seu lado, fica deleitado com a multiplicidade de rumos que as investigações futuras poderão tomar: “Isto é apenas a ponta do icebergue. Podemos continuar a fazer isto para o resto da vida.”

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