História

Conheça as Mulheres Difíceis que Escreveram as Suas Próprias Regras

Estas 29 mulheres não desejaram ser outra pessoa senão elas próprias, desde Jane Goodall a Frida Kahlo ou Billie Jean King.Monday, May 28

Por Simon Worrall
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“Se seguirmos todas as regras, perdemos a diversão” afirmou em tempos Katherine Hepburn. Por isso pedimos a Karen Karbo, autora de In Praise of Difficult Women, que nos falasse sobre algumas mulheres icónicas que a tenham inspirado, desde a aviadora Amelia Earhart à pivô dos blocos noticiosos Rachel Maddow e a exploradora da National Geographic Jane Goodall. O que as une é a determinação para confiar em si mesmas e a coragem para quebrar as regras.

Entrevistada a partir da sua casa em Portland, no estado de Oregon, Karbo explica por que  Jane Goodall foi uma das suas heroínas de infância, por que considera desafiantes as exigências associadas à condição feminina na sociedade americana e por que as mulheres são rotuladas de difíceis apenas por serem elas mesmas.

Ser "difícil" é, normalmente, um traço negativo do caráter de uma pessoa. Mas, no entanto, celebra-o como uma virtude. Explique-nos este paradoxo e de que forma ele se aplica às diversas mulheres que retrata.

Há aspas invisíveis que insinuam o caráter difícil destas mulheres que não surgem no título. Mulheres que são fortes, apaixonadas e determinadas não andam por aí a fazer alarde da sua personalidade: “Oh, vejam, eu tenho um feitio difícil”. “Estas mulheres limitam-se a viver as respetivas vidas. Ser difícil é uma apreciação que as pessoas gostam de lhes atirar à cara. Se uma mulher não se preocupar muito com o que as outras pessoas pensam, arrisca-se a ser chamada de difícil, porque não saber remeter-se ao seu lugar ou fazer aquilo que os outros esperam dela. Na maioria dos casos, uma mulher que ouse desafiar os cânones estabelecidos pode ser tida como difícil. Quando uma mulher é uma voz incómoda, pode ser chamada de difícil. Uma mulher que acredita que as suas próprias necessidades, objetivos e desejos são, no mínimo, tão importantes quanto os das pessoas em seu redor arrisca-se a ouvir que tem um feitio difícil. Uma das primeiras críticas que recebi dizia: “Essa fasquia está muito baixa”. E eu respondi “Obrigada por fazer valer o meu ponto de vista”, porque, na verdade, não é preciso muito para se ser considerada uma mulher difícil. Por isso, é que existem tantas [risos].

No livro, falo sobre 29 mulheres e cada uma revela, a meu ver, traços de carácter muito próprios. Essa foi a objetiva que usei quando escrevi aqueles ensaios. Se olhar para alguém como Rachel Maddow, ela é muito inteligente. Muitas vezes, uma mulher que não se inibe de mostrar que é inteligente pode ser considerada difícil. Fazem-se sempre observações do género “Ela é o quê? Uma sabichona?”.

A primeira mulher retratada no livro é J.K. Rowling, à qual me referi como um exemplo de mulher aguerrida. Ela é alguém que, tendo em conta a sua posição, podia descansar à sombra dos louros, continuando a explorar o filão de Harry Potter ou escrevendo livros de mistério para adultos. Mas ela não se inibe de usar o Twitter para expressar publicamente as suas opiniões e apelar às pessoas e ao poder instituído e, por isso, vê-se, muitas vezes, envolvida em situações que geram desconforto ou controvérsia. Mas essa é a sua natureza. Ela precisa de se fazer ouvir, independentemente das repercussões que isso possa ter.

Jane Goodall protagoniza um episódio especial Miss Goodall and The World of Chimpanzees, emitido, inicialmente, pela CBS, a 22 de dezembro de 1965. Goodall foi uma das oito pessoas, sem habilitação académica, autorizadas a fazer o doutoramento na Universidade de Cambridge, apenas com base na sua experiência no terreno sobre o estudo dos chimpanzés.

Uma das exploradoras mais célebres da National Geographic é Jane Goodall. Fale-nos sobre aquele momento-chave em que ela se manteve firme ante as críticas dos doutos senhores em Cambridge e a razão pela qual a autoconfiança é tão importante para uma mulher.

Jane Goodall foi a primeira dos meus ídolos. Os meus pais assinavam a revista da National Geographic e, antes mesmo de saber ler, eu gostava de folhear as páginas e ver as imagens de Jane Goodall em África, agachada nos calções caqui a falar com um chimpanzé. Mas é importante conhecer as suas origens. Ela foi uma das oito pessoas, sem habilitação académica, autorizadas a fazer um doutoramento na Universidade de Cambridge. Todo o seu conhecimento tinha sido adquirido no terreno.

Na sua coletânea de retratos, Outnumbered, a fotógrafa Clare Fieseler oferece um novo olhar sobre o trabalho das mulheres cientistas no terreno. As suas imagens desafiam aquelas ideias preconcebidas sobre a ciência no feminino e são a pedra de toque para as mulheres jovens que ambicionam seguir uma carreira na ciência.

Imagine o quão intimidante deve ter sido para ela estar perante aquelas sumidades da Universidade de Cambridge. O escárnio dos doutos senhores foi evidente quando Goodall insistiu em enumerar os nomes dos chimpanzés e manifestou a sua convicção de que eles não só tinham uma estrutura social própria, como também tinham personalidades próprias, uma observação que deve ter soado a ridículo naquele dia e naquela altura. Quando lho disseram, ela regressou aos dias de infância e disse: “Qualquer pessoa que tenha tido um cão como animal de estimação sabe que um animal tem uma personalidade”. Imagine a coragem que foi precisa para dizer isto. “Ouça, eu sei o que sei e não será toda a vossa grandeza, sabedoria e autoridade que irá demover-me da minha convicção.”

É autora da frase “Estamos cansadas, ou pelo menos eu estou, das exigências que pendem sobre as mulheres americanas”. Fale-nos sobre esse sentimento e diga-nos se ser uma mulher independente é hoje mais fácil ou difícil?

As mulheres de hoje sentem que têm de se superar a todo o momento. Lembro-me de uma amiga na faculdade que corria todos os dias cerca de dois quilómetros. Era como se se estivesse a preparar para os jogos olímpicos! Atualmente, se uma mulher correr uma distância idêntica, é quase como se não fizesse exercício algum. [risos] Nós temos de estar em forma, o que implica imenso tempo; temos um bebé e oito horas depois temos de estar perfeitas para pisar a passadeira vermelha; temos de ter uma excelente carreira e temos de estar atualizadas, depois de termos lido todos os bons livros e filmes que nos foram recomendados.

A internet não veio ajudar, porque podemos saltitar de site em site 24 horas por dia, sete dias por semana, sujeitando-nos ao confronto permanente com as nossas próprias limitações e falhas. [risos] Antigamente, eram as revistas de moda, mas essas só saíam uma vez por mês! Uma vez lida a revista, tínhamos três semanas de folga. Atualmente, o confronto ocorre em modo contínuo: 10 formas de melhorar a sua arte de jogar ténis, nove formas de melhorar a sua vida amorosa. Com tanto estímulo, sobra pouco espaço mental para pensar noutra coisa que não seja em nós mesmas. E ainda vamos acabar a pensar “Ó, céus, eu sou uma desgraça a jogar ténis e nem sequer tinha pensado nisso até ao momento! [risos] É de loucos!

Amelia Earhart é acarinhada pelo marido George Palmer Putnam à chegada ao aeroporto de Newark, em New Jersey, após um voo transcontinental a 22 de junho de 1931. Por altura docasamento, Earhard disse a Putnam que não iria ser a esposa tradicional.

Amelia Earhart disse em tempos que “as mulheres, tal como os homens, deviam tentar o impossível”. Ela também tinha uma visão pouco ortodoxa sobre o casamento, não tinha?

Earhart casou-se com George Putnam e eles formavam o casal perfeito, porque ele era um promotor inato. Putnam era o herdeiro da empresa GP Putnam Sons Publishing, que tinha dado a conhecer uma série de exploradores e aventureiros. Ele próprio era um deles. Apaixonar-se por Amelia foi o perfeito acaso, porque ela era a pessoa ideal para promover. Amelia era não só uma mulher corajosa, como também era fotogénica e educada. Sabia como vestir-se e tinha muita energia e um interesse genuíno em falar com as pessoas.

No dia do seu casamento, Amelia entregou a Putnam uma carta, na qual dizia: “Eu não vou deixar de fazer o que estou a fazer para assumir o papel da esposa tradicional”. Amelia deixava também implícito nas entrelinhas: “Farei por ser-te fiel, mas, ainda assim, não tenhas grandes expetativas nesse campo”. [risos] Eu fiz questão de falar sobre Amelia, porque queria incluir mulheres que fossem introvertidas. Quando pensamos em mulheres difíceis, tendemos a pensar em personalidades extrovertidas e obstinadas. Mas existem muitas mulheres como Jane Goodall e Amelia Earhart, que faziam, exatamente, aquilo que queriam, mas sempre com absoluta discrição.

Martha Gellhorn, a escritora e jornalista, é mais conhecida por ser a companheira de Hemingway. Mas ela era muito mais do que isso, não era?

Sim, era. Martha é conhecida por ter sido a terceira mulher de Hemingway. Imagino que desse voltas no túmulo, se soubesse disto, porque Martha era uma escritora e uma jornalista intrépida por direito próprio. Na verdade, ela acabou por pôr termo ao casamento com Heminghway, a única mulher que o deixou, porque não suportava a vida insular que levavam. Ela queria estar nos lugares onde se construía o futuro do mundo ou se desconstruía, conforme o caso.

A jornalista Martha Gellhorn e Ernest Hemingway viajam juntos pouco tempo depois de se casarem, em 1940. Gellhorn foi uma escritora aclamada e uma repórter de guerra por direito próprio.

Martha era extraordinariamente corajosa. Ela fez tudo o que pôde para estar na linha da frente da Segunda Guerra Mundial, ora embarcando às escondidas num navio, ora voando sob falso pretexto ou fingindo ser enfermeira. Ao longo da sua vida, Martha manifestou especial preocupação pelas situações de injustiça no mundo, sobretudo a injustiça económica. Ela era uma mulher inteligente, muito difícil e também glamorosa! Era loura, com umas pernas esguias e usava aquelas magníficas roupas de caça.

À semelhança da pintora mexicana, Frida Kahlo, algumas das mulheres que celebra no seu livro revelam uma atitude liberal relativamente ao género e à sexualidade. Este comportamento faz parte daquilo que se pode considerar uma personalidade difícil ou, pelo menos, diferente?

As mulheres têm tendência para querer agradar a todas as pessoas, mas isso implica não explorar certos aspetos da sua personalidade. É como uma pessoa que habita numa casa grande e vai fechando os quartos vazios, até se limitar a viver na cozinha e no quarto em frente. As mulheres difíceis mantêm todas as portas abertas. Elas são tão intrinsecamente humanas, que, seguindo a linha da metáfora usada, ficam felizes por atravessar cada porta e explorar cada um dos quartos.

Creio que não terá a ver especificamente com o facto de se ser difícil, mas, geralmente, as mulheres difíceis tendem a explorar todas as diferentes facetas das suas personalidades.  Elas afirmam-se por inteiro tal como são. Por isso, ser de género fluído, como se diz hoje em dia, ou ter uma determinada orientação sexual, da qual não se está disposta a abdicar, faz, muitas vezes, parte da personalidade das mulheres tidas difíceis.

A artista Frida Kahlo posa junto a uma das suas pinturas, sob o título Me Twice, a 24 de outubro de 1939. Tal como outras mulheres tidas difíceis, Kahlo era de género fluido, recusando sentir-se limitada em qualquer área da sua vida, afirma a autora Karen Karbo.

Billie Jean King foi, recentemente, homenageada no filme Battle of The Sexes. Mas a partida de ténis que disputou contra Bobby Riggs foi uma pequena parte do seu contributo para a emancipação das mulheres, não foi?

A guerra de sexos foi, obviamente, o fenómeno mais mediático, mas houve uma série de manobras de bastidores muito interessantes, quando Billie Jean cortou relações com a Federação Americana de Ténis e criou o circuito feminino, em protesto contra a discrepância salarial entre homens e mulheres, cujas remunerações não só não eram aumentadas, como até, por vezes, eram objeto de redução.

Quando Billie Jean pisou os campos de ténis pela primeira vez nos anos 70, o ténis feminino era considerado uma espécie de atração menor, paralela ao ténis masculino. As primeiras tenistas usavam saias diminutas, eram bonitas e o suor refletia-se-lhes na pele. Era tudo fantástico, mas ninguém as levava a sério. Mas, desde o início que Billie Jean revelava um espírito muito competitivo. Hoje, não nos causa estranheza a postura competitiva das irmãs Williams, quando dão tudo por tudo a cada batida de bola, enquanto resmungam e soltam gemidos. Mas nem sempre foi assim. Billie Jean foi a primeira mulher em competição com uma atitude competitiva, que mostrou o que significava ser, verdadeiramente, uma atleta profissional.

Ela também se tornou numa referência para a comunidade LGBT, certo?

Sim, embora tenha crescido na zona conservadora do sul da Califórnia, com claras inclinações homofóbicas. Ela própria reconheceu, publicamente, a sua homofobia, até ao momento em que aceitou a sua sexualidade. A situação era muito confusa para ela. Quando a sua companheira Marilyn Barnett revelou publicamente que Billie Jean era lésbica, as pessoas em seu redor aconselhavam-na a “negar, negar, negar!”, mas ela não foi capaz. Billie Jean tinha de ser honesta e foi extremamente difícil para ela. A relação com os pais complicou-se. O livro não é apenas uma homenagem às mulheres tidas difíceis, mas também a afirmação subtil de uma atitude perante a vida. “Pode ser-se uma mulher difícil e atravessar momentos duros ao longo do percurso, mas vai sobreviver.”

Se pudesse jantar com uma destas mulheres, quem escolheria e porquê?

Essa pergunta não é fácil! Deixe-me pensar. [risos] Sabe, uma das mulheres sobre a qual não se fala muito é Vita Sackville-West. Acho que gostaria de jantar com ela. West foi uma escritora e poeta, que casou com o também escritor Harold Nicholson. Ela era, igualmente, a amante de Virginia Woolf. Hoje em dia, fala-se muito sobre a fluidez de género, sem suscitar grande surpresa, como se se soubesse o que isso é realmente. Mas ela foi uma das primeiras pessoas que se debateu sobre as questões de género. West viveu durante muitos anos e teve dois filhos, um dos quais escreveu uma deliciosa biografia sobre o seu casamento com Harold Nicholson. West ergueu inclusive um jardim de renome internacional no Castelo de Sissinghurst. Por isso, eu iria adorar, com toda a certeza, ouvir os seus conselhos de jardinagem. [risos]

Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza.