História

Fósseis em Portugal? O Menino do Lapedo Faz 20 Anos

O mais importante fóssil humano em Portugal faz vinte anos. Qual é a história que o Menino do Lapedo nos conta, quase 30 000 anos depois, sobre as nossas origens?quarta-feira, 23 de maio de 2018

Por National Geographic
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A descoberta do Menino do Lapedo foi completamente aleatória. Em dezembro de 1998, há 20 anos, dois técnicos da Sociedade Torrejana de Espeleologia não faziam ideia do que os esperava debaixo da terra, em Leiria.

QUEM FOI ESTE MENINO DO LAPEDO?

No Vale do Lapedo, em Leiria, dois técnicos investigavam pinturas supostamente pré-históricas, descobertas por um estudante da zona.

A descoberta foi genuína: numa gruta a norte do vale estavam pinturas da Idade do Cobre (3 a 4 anos a.C.). Do outro lado do vale viram outra pequena gruta, que foram inspecionar. Repararam em vestígios arqueológicos: carvão, ferramentas de pedra e restos de animais, como dentes de cavalo fossilizados.

Mais adiante, viram uma toca, e de lá tiraram o que pareciam ser pequenos ossos humanos manchados de ocre. Os técnicos perceberam que teriam encontrado algo importante e contactaram o Instituto de Paleontologia e Arqueologia.

ESQUELETO HUMANO COM 29 000 ANOS

O arqueólogo João Zilhão foi chamado ao Vale do Lapedo. A 6 de dezembro, Zilhão e duas colegas arqueólogas, Cidália Duarte e Cristina Araújo, tiveram a certeza: os ossos encontrados no Lagar Velho pertenciam a um humano, mais precisamente uma criança.

As ferramentas de pedra encontradas pareciam datar de há cerca de 20 000 anos atrás, e o ocre em que o corpo foi envolto consistia num traço de um ritual fúnebre típico de há 25 000 anos.

Os cientistas concluíram que, provavelmente, a descoberta teria entre 25 a 30 mil anos, tendo vivido durante o paleolítico.

Foi iniciada uma escavação a 12 de dezembro, que continuou até 7 de janeiro de 1999. O resultado foi um esqueleto humano muito bem preservado, porém com o crânio esmagado.

O crânio da criança do Lapedo foi destruído acidentalmente por uma escavação resultante de terraplanagem. No entanto, grande parte dos fragmentos foram recuperados, e o resto do esqueleto estava praticamente intacto – uma vitória para história dos fósseis em Portugal.

Esqueleto do Menino do Lapedo antes de ser retirado da sepultura.

RITUAIS ANTIGOS

O esqueleto fossilizado estava depositado num leito de cinzas com ossos de veado e de coelho, adornos feitos com conchas e vestígios de uma mortalha feita com pele curtida.

Estes achados permitiram concluir que a criança do Lapedo teria sido embrulhada numa pele de veado que fora pintada com ocre – este era um ritual comum nos tempos pré-históricos, semelhante ao atual uso de caixões.

Ao redor do corpo, teriam sido colocados os ossos de veado como sendo uma oferenda ao morto – comportamento bastante provável das civilizações da época.

No peito do esqueleto fóssil foram ainda encontradas conchas perfuradas e dentes de veado, que sugerem fazer parte de um colar ou diadema.

Não se pode saber ao certo o significado destas oferendas, mas a datação por carbono-14 dos elementos, revelou que eram efetivamente contemporâneos.

DATAÇÃO POR RADIOCARBONO

Foi feita a datação por radiocarbono a fragmentos do fémur, a uma costela, aos ossos do coelho, ossos de veado e carvões queimados.

A datação por carbono-14 consiste em medir a quantidade deste elemento encontrado em matéria orgânica morta. O carbono-14 entra na atmosfera onde se vai combinar com oxigénio, formando dióxido de carbono. Absorvido pelas plantas, acaba ingerido por animais. O elemento abunda nos organismos vivos.

Este isótopo radiativo do carbono desintegra-se a uma velocidade conhecida, pelo que (de forma simplificada) quanto menos carbono-14 for encontrado, mais antigo é o fóssil.

A análise aos ossos deu resultados errados, porque os ossos humanos são porosos e é difícil fazer o teste. Mas os restantes elementos todos apontavam para que o sepultamento tivesse acontecido entre 24 500 e 25 000 anos atrás.

Além disso, testes à dentição levavam a crer que a criança tivesse entre quatro a cinco anos, na altura da morte. Verificou-se ainda que a criança era do sexo masculino. O Menino de Lapedo era, então, a primeira criança a ser sepultada na Península Ibérica. Isto não só foi relevante para a história dos fósseis em Portugal, como para a do Mundo.

UMA CRIANÇA MESTIÇA

Os cientistas portugueses, entendendo a potencial importância da descoberta, convidaram o colega americano Erik Trinkaus a vir estudar o esqueleto do Menino do Lapedo.

Erik Trinkaus é um especialista em Neandertais e na anatomia do humano moderno. O cientista de Washington comunicou notícias chocantes: o fóssil do Lapedo parecia ser de um menino, mas tinha características de Neandertal – ossos robustos e pernas curtas – e de humano moderno – um queixo proeminente e maior dentição.

O esqueleto parecia ser, concluía o paleontólogo americano, um mosaico de Neandertal com traços caraterísticos dos primeiros homens modernos. Mas que implicações teria esta conclusão?

A IMENSA CONTROVÉRSIA

Dizer que a receção da descoberta deste fóssil em Portugal foi complicada, é um imenso eufemismo.

Acredita-se que o homem do Neandertal tenha desaparecido da Europa Central há 35 até 37 mil anos, e da Península Ibérica há cerca de 29 ou 30 mil anos. Ou seja, no mínimo, 3 mil anos separavam o Menino do Lapedo e os últimos Neandertais.

As conclusões a que os cientistas chegaram são de que as características “estranhas” da criança não podem dever-se a adaptações ao clima, e que o mosaico não pode ter resultado de um cruzamento de um homem ou mulher Neandertal com um homem ou mulher moderno.

MORRERAM OS NEANDERTAIS “SOLTEIROS”?

O que estava a sugerir-se é que o Menino do Lapedo podia tratar-se de um “híbrido”, uma miscigenação extensiva, à escala populacional, entre o homem do Neandertal e os primeiros homens modernos.

Ou seja, é aceite, sim, que os Neandertais desapareceram completamente, e que as populações europeias atuais descendem de antepassados africanos. O que pode vir a mostrar-se é que o desaparecimento dos Neandertais, e dos seus traços, se deu por absorção - implicando uma “mistura” com os primeiros homens modernos - e não por extinção, como se pensava.

Apesar de muita controvérsia e muito ceticismo, este ano assinalam-se 20 anos da descoberta do fóssil em Portugal. Além disso, a vida do Menino do Lapedo, um dos maiores mistérios da arqueologia, teve já uma representação em curta-metragem, pelo realizador Diogo Vilhena.

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