História

A Arte da Caligrafia: Regresso ao Passado?

A arte da caligrafia está a fazer um regresso em força, mesmo num mundo altamente digital. Será que estamos a regressar ao passado?quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Por National Geographic
Um exemplo da caligrafia de Cai Xiang, um caligrafista chinês do século XI, no Museu Palácio Nacional, em Taiwan.

É difícil encontrar as origens exatas do fenómeno em que se tornou a arte da caligrafia, mas nos últimos anos tem crescido em popularidade, e há até alguns famosos apontados como embaixadores. Os kits de caligrafia já são um presente muito procurado e há até várias páginas de blogues e outras redes dedicadas a esta técnica.

Mas exatamente o que é este fenómeno, porque é tão popular e... onde se pode aprender?

O QUE É ESTA TENDÊNCIA?

A palavra caligrafia deriva do grego kalli- (bonito) + grafia (escrita), podendo dizer-se que significa “escrita bela”. As definições contemporâneas da palavra descrevem-na como "a arte de dar forma aos sinais de uma maneira expressiva, harmoniosa e habilidosa", considerando-se agora uma arte visual.

Na verdade, a caligrafia sempre foi uma arte, desde tempos idos, mas em vez de usada maioritariamente para decoração, era usada de forma prática por escribas. Hoje em dia, pode ser mais importante a expressão abstrata do que exatamente a legibilidade das letras, ao contrário do passado.

Mas temos de fazer uma distinção, entre caligrafia e lettering. O conceito central é o mesmo: desenhar letras. Contudo, a caligrafia assenta em regras tipográficas, enquanto o lettering pode ser improvisado ou uma mistura de técnicas – como usar dois tipos de caligrafia na mesma frase.

A popularidade da caligrafia atribui-se a variadíssimos fatores, além da componente estética e decorativa. Há quem aponte esta arte como uma forma de relaxamento, já que requer atenção, cuidado e paciência. Outros apontam-na como uma maneira mais acessível e menos rígida de expressar criatividade. Mas não falta quem sinta falta de retomar costumes “analógicos”, como “colocar a caneta no papel”, em detrimento das novas tecnologias.

DIA DA ESCRITA À MÃO

O Dia da Escrita à Mão, celebrado a 23 de janeiro, ou National Handwriting Day, em inglês, teve origem nos Estados Unidos da América, e foi estabelecido em 1977 pela Associação de Produtores de Instrumentos de Escrita (Writing Instrument Manufacturers Association). Os motivos por trás da criação deste dia eram, claramente, comerciais, nomeadamente a promoção do consumo de canetas, lápis e papel de escrever. A data escolhida, 23 de janeiro, não foi aleatória: é o dia de aniversário de John Hancock, que foi a primeira pessoa a assinar a Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Nos últimos anos, este dia tem sido usado para reavivar o costume de escrever à mão com pequenos gestos como enviar um postal, escrever uma nota (ou carta de amor) para alguém ou manter um diário – de forma completamente analógica. Assim, a 23 de janeiro, as pessoas são incentivadas a deixar os teclados por 24 horas, pegar em canetas e escrever.

Página do livro The Tale of Kieu, de Nguyen Du, publicado em 1820.

FACTOS CURIOSOS SOBRE A ESCRITA À MÃO

- Cada pessoa tem uma forma de escrever única, sendo possível identificar alguém pela forma de escrever analisando o peso e força que aplica na caneta, a forma como desenha as letras, e até pormenores como os pontos dos “i” ou dos “j”;

- A linguística forense é uma área da Linguística Aplicada que consiste na aplicação de métodos e conceitos científicos em contextos forenses, e inclui a análise de textos manuscritos ou perícia de escrita manual. Esta análise é chamada “grafotécnica”, ou em inglês referida como graphoscopy;

- Grafologia é o nome dado a uma pseudociência que relaciona a escrita com a personalidade. Isto é, segundo a grafologia, a forma como escrevemos pode revelar traços de personalidade como extroversão, timidez ou autoestima;

- Disgrafia é a dificuldade ou deficiência na escrita manual, seja em termos de caligrafia ou de coerência;

- Apesar de a nossa caligrafia sofrer alterações com o passar do tempo, é possível relacionar certas doenças como Alzheimer, Parkinson e outras demências com o declínio da caligrafia.

WORKSHOPS E CURSOS EM PORTUGAL

E já que está na moda, porque não experimentar a arte da caligrafia? Em Portugal a tendência já chegou, com vários workhops a acontecer regularmente, e não só por ocasião do Dia da Escrita à Mão.

A Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa disponibiliza um workshop de caligrafia de 43 horas, em data ainda a definir. Se gosta da caligrafia oriental, o Museu do Oriente traz um workshop de caligrafia japonesa, no dia 6 de fevereiro. Se prefere aprender ao seu ritmo, há imensos livros que se debruçam sobre esta arte, bem como o lettering, e até vídeos e tutoriais.

Como vai celebrar o Dia da Escrita à Mão?

 

Continuar a Ler