Crianças Ucranianas Treinam Para Combater

Nas regiões separatistas do leste da Ucrânia, jovens aprendem a defender-se – e a sua nação.

Friday, March 29, 2019,
Por Laurence Butet-Roch
Fotografias Por Diego Ibarra Sánchez
Yelena Shevel, 10 anos num acampamento de verão nos arredores de Kiev, na Ucrânia.
Yelena Shevel, que tem 10 anos e sonha ser veterinária, aprende a colocar uma máscara de gás durante um exercício no LIDER, um acampamento de verão nos arredores de Kiev, na Ucrânia. Ela acredita que "é importante defendermos a nossa pátria, porque se não fizermos isso, a Rússia irá capturar a Ucrânia e passaremos a fazer parte da Rússia", algo que ela teme "porque já não poderemos falar, ler e escrever ucraniano."
Fotografia de Diego Ibarra Sánchez

Para os mais jovens nas nações devastadas pela guerra, a educação sofre profundamente. As escolas são destruídas por bombardeamentos indiscriminados ou transformadas deliberadamente em postos militares. As crianças e os professores ficam em casa, com medo de pisar uma mina terrestre ou sucumbir no fogo cruzado de ambas partes em conflito. A escola, casa de sabedoria concebida como um refúgio seguro, transforma-se num alvo.

Durante quase uma década, o fotógrafo Diego Ibarra Sánchez examinou a forma como os conflitos interrompem, interferem e obstruem a aprendizagem. “A educação é supostamente o futuro, uma maneira de construir ou reconstruir uma nação”, diz Ibarra Sánchez. O que acontece quando as instituições académicas não conseguem desempenhar o seu papel?

Depois de explorar esta questão no Paquistão, na Síria, no Iraque, no Líbano e na Colômbia, Ibarra Sánchez virou a sua atenção para a região de Donbass, no leste da Ucrânia. Desde 2014, a luta entre os separatistas do Kremlin e as forças do governo pró-ucraniano exacerbou o sentimento nacionalista – e semeou o caos para os sistemas educativos e para os estudantes.

Quando os alunos perdem meses, ou até anos, de aulas, atrasam-se cada vez mais e colocam em risco o seu futuro, diz Ibarra Sánchez. Mas quando os alunos são instruídos em zonas de guerra, os seus currículos podem ser deturpados e os ensinamentos podem ser alterados para refletir as intenções da fação no poder.

Em Donbass, Ibarra Sánchez diz que as organizações patrióticas de jovens que documentou treinam ativamente as crianças, não só a sobreviver em combate e a manusear armas, mas também “a odiar o ‘outro’ e a defender-se do seu vizinho, matando-o se necessário, pelo seu país."

Nikita, 12 anos, no interior de uma escola bombardeada e abandonada em 2014, em Nikishino, na República Popular de Donetsk. "Eu estava muito assustado ao início, mas acabei por me habituar com o tempo. Eu venho aqui para brincar entre os destroços. Às vezes sinto-me sozinho. Quase todos os meus amigos abandonaram Nikishino”, diz.
Fotografia de Diego Ibarra Sánchez
Esquerda: Marina, 12 anos, mora em Zaitsevo, na República Popular de Donetsk, uma cidade dividida pela linha da frente. Marina frequenta a escola noutra aldeia porque a sua está a ser usada por grupos armados. Direita: Alunos numa escola em Svetlodarskaya, na Ucrânia. Esta zona, localizada na linha da frente, tem sido atacada várias vezes.
Fotografia de Diego Ibarra Sánchez

No LIDER, um acampamento de verão para crianças dos 6 aos 17 anos, nos arredores de Kiev, capital da Ucrânia, os jovens acordam e ouvem o hino nacional durante uma cerimónia de hasteamento da bandeira, antes de participarem em vários exercícios de treino militar. Aprendem a rastejar em trincheiras, a colocar máscaras de gás, a montar e a desmontar metralhadoras, a disparar e muito mais. E enquanto fazem isso, diz Ibarra Sánchez, ouvem retórica de sobrevivência e anti-Rússia.

Durante o tempo que passou no LIDER, o fotógrafo pediu aos jovens que respondessem três perguntas, escrevendo e desenhando num caderno: a razão pela qual estão no acampamento, porque é que querem proteger o seu país e quais são os seus sonhos? As respostas refletem um conflito de influências: a doutrinação feita no campo, a sua compreensão das realidades da guerra e também da sua juventude, e o desejo de uma infância normal.

Esquerda: Mykhailo Deinikov, 8 anos, “soldado” no campo LIDER, escreve: “Eu gosto do horário, da disciplina militar, dos exercícios militares e dos exercícios matinais. Eu acredito que é importante defender a pátria porque ela pode ser facilmente capturada pelo inimigo, e nós podemos ser feitos reféns ou mortos. Eu quero ser investigador de peixes. Eu não quero ser um soldado porque é assustador. Eu sonho que não vão existir mais guerras no mundo”. Direita: Yelena Shevel, 10 anos, “soldado” no LIDER, escreve: “No campo LIDER eu gosto da piscina e do campo de tiro, porque gosto de nadar e de disparar. Todos na minha família sabem disparar: a minha mãe, o meu pai, a minha avó, etc. Acho que é importante defendermos a nossa pátria, porque se não fizermos isso, a Rússia irá capturar a Ucrânia e passaremos a fazer parte da Rússia. Isso é mau porque já não poderemos falar, ler e escrever ucraniano. Quando eu crescer, quero ser veterinária. Eu adoro animais. Eu tinha um hamster, uma tartaruga, cinco ratos e quatro papagaios. Agora tenho duas chinchilas e um gato.
Fotografia de Diego Ibarra Sánchez

No seu caderno, Yelena Shevel, com 10 anos, escreveu que gosta tanto da piscina como do campo de tiro. Mykhailo Deinikov, com 8 anos, escreveu que "é importante defendermos a nossa pátria porque pode ser facilmente capturada pelo inimigo, e podemos ser feitos reféns ou mortos". No entanto, ele também escreveu sobre o seu sonho, quer ser investigador de peixes: “Eu não quero ser um soldado porque é assustador. Eu sonho que não vão existir mais guerras no mundo.”

Do outro lado do conflito, as academias militares estão a encorajar os cadetes a juntar-se às forças armadas separatistas, apoiadas pelo Kremlin. Desde o início da guerra, em 2014, o Liceu Militar Beregovoj, na República Popular de Donetsk – o autoproclamado estado separatista, no leste da Ucrânia – formou mais de 300 estudantes. E também aí, diz Ibarra Sánchez, existe um esforço implacável na demonização do inimigo: “Ter um inimigo é uma forma poderosa de reforçar a ideia de uma nação unida, com um objetivo comum”.

Esquerda: Denis, 13 anos, membro do clube militar patriótico DND Mospino, em Khartsyzsk, Donetsk, pratica tiro com uma espingarda, orientado por Sergey, que lhe ensina sobre disciplina, como usar armas de pequeno porte, montar e desmontar uma AK, disparar e lutar com facas. Direita: Jovens cadetes no Liceu Militar Beregovoj, em Donetsk. Além do currículo escolar básico, os alunos aprendem outras atividades, destinadas a prepará-los para o serviço militar ou público.
Fotografia de Diego Ibarra Sánchez
Um jovem cadete faz continência ao seu superior, no Liceu Militar Beregovoj, em Donetsk. Desde que a guerra começou em Donbass, em 2014, mais de 300 alunos receberam diplomas da República Popular de Donetsk, o programa apoiado pelo governo, estabelecido em solo ucraniano e financiado pela Rússia.
Fotografia de Diego Ibarra Sánchez

De acordo com as estimativas da ONU, desde 2014 perderam-se mais de 10 mil vidas no leste da Ucrânia. Para Ibarra Sánchez, o conflito – e o modo como os jovens estão a ser recrutados para o mesmo – não tem realmente que ver com patriotismo. "O amor pela pátria é quando o nosso coração está em paz", diz. "Quando estamos a tentar impor as nossas ideias a outras pessoas, quando pensamos que somos superiores aos outros, que a nossa bandeira, a nossa história, a nossa política e os nossos valores são melhores – a partir daí é que começa a ficar perigoso."

 

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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