História

Canábis: Descoberta a Evidência Mais Antiga em Túmulos

Foram identificados vestígios potentes de cânhamo em artefactos de madeira, com 2500 anos, enterrados com pessoas que viviam ao longo da Rota da Seda na China.quinta-feira, 27 de junho de 2019

Por Michelle Z. Donahue
Túmulos com 2500 anos, no cemitério Jirzankal, no oeste da China, apresentam braseiros de madeira que queimavam plantas de canábis com níveis anormalmente altos do químico psicoativo THC.

A prova direta mais antiga do consumo humano de canábis enquanto droga foi descoberta num cemitério com 2500 anos, na Ásia Central, revela um estudo publicado no dia 12 de junho na revista Science Advances.

Embora as plantas e sementes da canábis tenham sido identificadas noutros sítios arqueológicos da mesma região e período de tempo – incluindo uma mortalha de canábis descoberta em 2016 – não se sabe ao certo em que contexto a versátil planta foi utilizada, se para fins psicoativos ou em rituais.

Uma equipa internacional de investigadores analisou os interiores e os conteúdos de 10 recipientes de madeira escavados de sepulturas, no cemitério Jirzankal, no planalto Pamir, onde atualmente fica a China ocidental. Os recipientes continham pequenas pedras que tinham sido expostas a altas temperaturas, e os arqueólogos identificaram-nas como braseiros para queimar incenso ou outras matérias vegetais.

Quando a análise dos braseiros revelou que 9 dos 10 recipientes continham canábis, os investigadores compararam a assinatura química das amostras com a de plantas de canábis descobertas a 1600 km a leste, no cemitério Jiayi, em túmulos datados do séc. VIII ao séc. VI A.C.

A equipa reparou que a canábis de Jirzankal tinha algo que o cânhamo de Jiayi não tinha: restos moleculares de tetra-hidrocanabinol, ou THC – o químico responsável pelos efeitos psicoativos da canábis. A variedade de canábis encontrada em Jiayi não contém THC, e teria sido usada principalmente como fonte de fibra para roupas e cordas, e em sementes oleaginosas ricas em nutrientes.

Os níveis de compostos psicotrópicos apresentados pela canábis de Jirzankal são os mais elevados alguma vez encontrados em qualquer sítio antigo, sugerindo que algumas variedades de canábis foram intencionalmente cultivadas para serem muito potentes, ou que foram usadas plantas selvagens conhecidas por produzirem o mesmo efeito.

A canábis é conhecida pela sua "plasticidade", ou pela capacidade de novas gerações de plantas expressarem características diferentes das gerações anteriores, dependendo da exposição a fatores ambientais como a luz solar, a temperatura e altitude. As variedades selvagens de canábis que crescem em altitudes mais elevadas, por exemplo, podem ter um teor mais elevado de THC.

Esquerda: Uma vista elevada de uma sepultura típica do cemitério Jirzankal. Direita: No lado esquerdo deste túmulo, escavado no cemitério Jirzankal, é visível um braseiro de madeira.

Apesar dos investigadores não conseguirem determinar a origem da canábis usada nos túmulos de Jirzankal, sugerem que a sua elevação, com mais de 3000 metros de altura, no planalto Pamir, pode ter colocado os habitantes da região em proximidade com variedades selvagens de canábis com níveis de THC mais elevados – ou que o cemitério pode ter sido localizado a essa altitude para facilitar o acesso a variedades desejáveis.

Robert Spengler, diretor de laboratórios de paleoetnobotânica no Instituto Max Planck, na Alemanha, e coautor do estudo, diz que o fluxo constante de pessoas que se deslocavam pelo planalto Pamir – uma intersecção importante que liga a Ásia Central e a China com o sudoeste asiático – resultou na hibridização de variedades locais de canábis com as de outras áreas. Embora a hibridização seja outro dos fatores conhecidos por aumentar os efeitos de THC em canábis psicoativas, a questão reside em saber se isto foi intencional, ou se aconteceu acidentalmente.

De acordo com Spengler, este novo estudo demonstra que há 2500 anos os humanos já poderiam estar a selecionar plantas pela sua produção química.

"É um exemplo maravilhoso do quão intimamente entrelaçados estamos com o mundo biótico à nossa volta, e que impomos pressões evolutivas nas plantas que nos rodeiam", diz.

A descoberta feita em Jirzankal também fornece a primeira evidência direta de que os humanos inalavam plantas de canábis em combustão, com o objetivo de usufruir dos seus efeitos psicoativos. Não foram encontradas evidências semelhantes de cachimbos ou de dispositivos idênticos na Ásia antes do contato com o Novo Mundo, na era moderna, mas a inalação de canábis a partir de uma fonte de calor é descrita no século V A.C. O historiador grego, Heródoto, descreveu nas suas Histórias como o povo cita, uma tribo nómada que vivia na estepe pôntica, se purificava com a inalação de canábis depois de enterrar os seus mortos: “Os citas pegavam nas sementes de cânhamo e, gatinhando sob as esteiras, espalhavam-nas sobre pedras incandescentes onde estas ardiam e expeliam vapores que nenhum banho de vapor grego conseguia superar. Os citas uivam de alegria nesse banho de vapor.”

Heródoto também refere que a planta de canábis “não só cresce por si mesma, como é semeada”, algo que, segundo a especialista Emily Baragwanath, da Universidade da Carolina do Norte, é geralmente interpretado como um sinal de que a planta era cultivada – dando credibilidade às ideias dos investigadores sobre a hibridização propositada da canábis.

"As pessoas têm duvidado das etnografias de Heródoto sobre os povos estrangeiros", acrescenta Emily, "mas à medida que a arqueologia se aproxima da verdade, as afinidades entre o mundo real e o que está descrito nas Histórias são cada vez maiores”.

Mark Merlin, historiador da canábis e etnobotânico na Universidade do Havai, em Manoa, diz que a enorme diversidade atual de canábis em todo o mundo é um testemunho de há quanto tempo as pessoas se envolvem com a planta e beneficiam dos seus usos. "É uma indicação real de há quanto tempo os humanos manipulam a canábis", diz Merlin.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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