História

Naufrágio ‘Congelado no Tempo’ no Ártico Surpreende Arqueólogos

Investigadores fazem descobertas impressionantes no interior do H.M.S. Terror, um de dois navios perdidos durante a malfadada expedição de Franklin.sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Por Roff Smith
Para investigar os conveses inferiores do “H.M.S. Terror”, um arqueólogo da Parks Canada insere um drone submersível numa claraboia.

O naufrágio do H.M.S. Terror, um de dois navios há muito perdidos da expedição de Sir John Franklin, feita em 1845 para encontrar a Passagem do Noroeste, está surpreendentemente bem preservado, dizem os arqueólogos da Parks Canada, que usaram pequenos submersíveis operados remotamente (ROV) para perscrutar o interior do navio histórico.

"O navio está incrivelmente intacto", diz Ryan Harris, arqueólogo-chefe do projeto. “Olhamos para o barco e é difícil acreditar que estamos perante um naufrágio com 170 anos. É o tipo de coisa que não se vê com muita regularidade."

Descoberto em 2016 nas águas geladas da Ilha do Rei Guilherme, no extremo norte do Canadá, o naufrágio nunca tinha sido completamente estudado. No início do mês de agosto, aproveitando o mar excecionalmente calmo e a boa visibilidade subaquática, uma equipa da Parks Canada realizou uma série de 7 mergulhos ao lendário naufrágio. Trabalhando em contrarrelógio na água gelada, os mergulhadores inseriram os pequenos ROV nas aberturas da escotilha principal e nas claraboias das cabines da tripulação, no refeitório dos oficiais e na cabine do comandante.

“Conseguimos explorar 20 cabines e compartimentos, indo de sala em sala”, diz Harris. “As portas estavam sinistramente abertas.”

A equipa ficou surpreendida e maravilhada com o que encontrou: pratos e copos ainda nas prateleiras, camas e mesas arrumadas, instrumentos científicos nos respetivos estojos – e indícios de que jornais, mapas e talvez até fotografias antigas podem estar preservados debaixo dos sedimentos que cobrem grande parte do interior da embarcação.

"Aquelas camadas de sedimentos, juntamente com a água fria e a escuridão, criam um ambiente anaeróbico quase perfeito, ideal para preservar os elementos orgânicos mais delicados, como têxteis e papéis", diz Harris. “Existe uma probabilidade muito grande de encontrarmos roupas ou documentos, e alguns deles ainda podem ser legíveis. As cartas náuticas no cacifo de mapas do capitão, por exemplo, podem ter sobrevivido."

Em 1845, quando a expedição de Franklin partiu da Grã-Bretanha, o “H.M.S. Terror” e o “Erebus” eram navios de última geração.

A única área por baixo do convés que a equipa não conseguiu ter acesso foi o dormitório do capitão. Aparentemente, a última pessoa a sair fechou a porta. "Curiosamente, era a única porta fechada no navio", diz Harris. "Adorava saber o que está lá dentro".

E também existe a possibilidade de existirem fotografias da expedição à espera de serem descobertas. Sabe-se que a expedição tinha um aparelho de daguerreótipo e, assumindo que foi utilizado, as suas placas ainda podem estar a bordo. "E se as encontrarmos, também é possível revelá-las", diz Harris. "É algo que já foi feito noutros naufrágios. As técnicas existem.”

Esquerda: No refeitório dos oficiais, as garrafas de vidro permanecem intactas. O navio parece ter assentado suavemente no fundo do mar. Direita: As loiças ainda estão nas prateleiras, como se estivessem prontas para a refeição seguinte. Grande parte do interior do navio está coberto de lodo, que sela o oxigénio e ajuda a preservar os artefactos escondidos nos sedimentos.

Grande mistério
O destino da expedição de Franklin tem sido um dos grandes mistérios da história.

Sabe-se que, em maio de 1845, Sir John Franklin zarpou com uma tripulação de 133 homens – tinha ordens para descobrir a Passagem do Noroeste, um objetivo que seduzia os exploradores há séculos.

Naquela época, tal como acontece atualmente, a geopolítica era uma força motriz na exploração do Ártico, com a Marinha Real Britânica a querer garantir um atalho para o Pacífico antes dos russos, que tinham as suas próprias aspirações marítimas. Com esse propósito em mente, não pouparam esforços nem dinheiro.

A malfadada expedição foi liderada pelo herói naval britânico e explorador do Ártico, Sir John Franklin.

Franklin tinha ao seu comando dois navios de última geração, o Erebus e o Terror, ambos equipados com cascos robustos revestidos de ferro e motores a vapor, para além dos equipamentos científicos de topo, da comida e dos mantimentos suficientes para 3 anos no Ártico. Foi uma das expedições mais bem equipadas e preparadas de todos os tempos a zarpar das costas da Grã-Bretanha.

Após duas breves paragens, nas Ilhas Órcades da Escócia e na Gronelândia, os dois navios partiram em direção ao Ártico, no Canadá, na esperança de seguir o seu labirinto de estreitos, baías e ilhas e, eventualmente, chegar ao Oceano Pacífico. Os últimos europeus a ver os navios foram as tripulações de dois navios baleeiros que encontraram o Erebus e o Terror em finais de julho de 1845, na travessia entre a Gronelândia e a remota ilha Baffin do Canadá. Depois, nunca mais se ouviu falar das embarcações.

Com o passar dos anos, sem notícias da expedição, foram enviados grupos de busca e salvamento. Ao longo do tempo, com a descoberta de esqueletos e equipamento descartado – para além das evidências perturbadoras de canibalismo – ficou claro que a expedição enfrentara um desastre. Mas como, e porquê, permaneceu sempre um enigma.

Uma breve mensagem, encontrada debaixo de um monte de pedras, revela um pouco da história. Datada de abril de 1848 e assinada por Francis Crozier – comandante do Terror, que na altura já tinha assumido o comando da expedição – a nota dizia que os navios estavam presos no gelo há um ano e meio, e que 24 membros da tripulação já tinham morrido – incluindo Franklin – e que Crozier e os outros sobreviventes planeavam caminhar por terra até um posto avançado de comércio de peles, a centenas de quilómetros de distância, em terras canadianas. Nenhum dos homens completou esse objetivo.

As razões que fizeram com que uma expedição tão bem equipada pudesse correr tão mal continuam sem resposta. Mas, nos últimos anos, as duas maiores peças do puzzle – os próprios navios – foram encontradas: o Erebus, em 2014, a 10 metros de profundidade, ao largo da Ilha do Rei Guilherme, e o Terror, dois anos depois, encontrado numa baía a cerca de 72 km de distância, a 24 metros de profundidade e maioritariamente ileso.

Porque razão os navios acabaram tão afastados um do outro, qual se afundou primeiro, e como e quando é que isso aconteceu são questões que os arqueólogos tentam responder.

“Não existe uma razão aparente para o afundamento do Terror”, diz Ryan. “Não foi esmagado pelo gelo, e não existem ruturas no casco. Mesmo assim, parece que se afundou subitamente, e assentou levemente no fundo do mar. O que aconteceu?”

Descortinar as respostas para estas questões não é uma tarefa fácil, mesmo com um vasto espólio de artefactos. Existem planos para recuperar ambos os navios, mas é um processo moroso que pode demorar vários anos.

“Fazer mergulhos naquela região é muito complicado”, diz Ryan. “A água é extremamente gelada, não podemos ficar muito tempo lá em baixo, e a época de mergulho é curta – algumas semanas, se tivermos sorte, ou alguns dias, se tivermos azar.”

Ainda assim, esta época de trabalho no Terror já ofereceu algumas pistas que podem ajudar os investigadores a desenvolver uma cronologia do que aconteceu.

"Nós reparámos que a hélice do navio ainda está no lugar", diz Ryan. "Sabemos que o barco tinha um mecanismo para tirar a hélice da água durante o inverno, para não ser danificada pelo gelo. Portanto, o facto de a hélice estar na sua posição normal sugere que a embarcação pode ter afundado na primavera ou no verão. O mesmo acontece com o facto de nenhuma das claraboias estar selada com tábuas, algo que a tripulação faria para se proteger dos nevões de inverno.”

Não existem dúvidas de que há mais respostas à espera de serem descobertas naqueles sedimentos, diz Ryan. “De uma maneira ou de outra, estou confiante de que chegaremos ao fundo da questão.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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