2 Milhões de Pessoas Queriam Tomar de Assalto a Area 51. Porquê?

A história da base militar secreta revela o seu apelo duradouro e o que pode estar escondido no seu interior. Spoiler: não são extraterrestres.quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Por Sydney Combs
Fotografias Por Jennifer Emerling
Dois humanos com um passageiro clandestino dirigem-se para Roswell, no Novo México, lugar famoso pelo suposto ...
Dois humanos com um passageiro clandestino dirigem-se para Roswell, no Novo México, lugar famoso pelo suposto acidente com uma nave extraterrestre em 1947. Alguns teóricos da conspiração acreditam que os destroços do acidente de Roswell foram levados para a Area 51, uma base militar secreta perto de Rachel, no Nevada, para serem estudados. Em setembro, mais de 2 milhões de pessoas estavam inscritas para invadir a Area 51.
Fotografia de JENNIFER EMERLING

Em julho e agosto, mais de 2 milhões de pessoas inscreveram-se para convergir até à Area 51, a base aérea perto de Rachel, no Nevada, na esperança de encontrar extraterrestres. Apesar de o organizador ter dito que o evento “Storm Area 51" era uma farsa, as autoridades da cidade estimavam que naquele fim de semana podiam aparecer entre 30.000 a 40.000 pessoas.

Todos os anos, a mitologia em torno da Area 51 atrai turistas de todo o mundo. As pessoas vêm até aqui para tentar ver as naves e a base misteriosa que as esconde no seu interior. Algumas das lendas da Area 51, que são desacreditadas há vários anos, são baseadas em factos reais – isto se conhecermos a história da base.

Base secreta no deserto
A cerca de 190 km a noroeste de Las Vegas, algures entre os marcadores das milhas 29 e 30 da "Autoestrada Extraterrestre" do Nevada (State Highway 375), encontramos uma estrada de terra que não está assinalada. Embora do asfalto não se consiga vislumbrar nenhum edifício, o trilho leva-nos até ao Lago Groom, ou Aeroporto de Homey – denominação que aparece nos mapas de aviação civil. Mas quem conhece a região sabe que este caminho vai dar a uma base militar que tem muitos nomes não oficiais, sendo que Area 51 é apenas um deles.

Antes da Segunda Guerra Mundial, a área perto do Lago Groom era usada na extração mineira de prata e chumbo. Quando a guerra começou, os militares assumiram o controlo da área e começaram a fazer testes: sobretudo testes nucleares e de armamento.

Durante a Guerra Fria, quando a CIA começou a desenvolver aviões de espionagem para reconhecimento, o então diretor da agência, Richard Bissell Jr., percebeu que era necessária uma zona privada para construir e testar os protótipos. Em 1955, Richard e o projetista de aeronaves da Lockheed, Kelly Johnson, escolheram um aeródromo isolado, no Lago Groom, para servir de base. A Comissão de Energia Atómica adicionou a base ao Sítio de Testes do Nevada e denominou o local de Area 51.

Num período de 8 meses, os engenheiros desenvolveram o avião U-2, que podia subir a uma altitude de 21.000 metros – muito mais alto do que qualquer outro avião na época. Isto permitia aos pilotos voar para além do alcance dos radares soviéticos, dos mísseis e dos aviões inimigos.

Em 1960, depois de um U-2 ter sido abatido por um míssil antiaéreo soviético, a CIA começou a desenvolver na Area 51 a geração seguinte de aviões de espionagem: o A-12, com um revestimento de titânio. O A-12, quase indetetável pelos radares, conseguia atravessar os Estados Unidos continentais em 70 minutos, a mais de 5.100 km por hora. O avião também estava equipado com câmaras que conseguiam fotografar objetos com apenas 30 centímetros de comprimento, a uma altitude de 27.000 metros.

Com tantos aviões de alta tecnologia a sair da Area 51 – incluindo mais de 2.850 decolagens do A-12 – começaram a aparecer relatórios sobre objetos voadores não identificados na área. "O revestimento de titânio do avião, que voava à mesma velocidade que uma bala, refletia os raios solares de uma maneira que podia deixar qualquer pessoa a pensar que se tratava de um OVNI", de acordo com fontes que falaram com a jornalista Annie Jacobsen para o seu livro sobre a Area 51.

A Area 51 ficou eternamente associada aos extraterrestres em 1989, depois de um homem que afirmava ter trabalhado na base, Robert Lazar, ter dado uma entrevista a uma estação de Las Vegas. Robert Lazar ainda afirma que a Area 51 tinha e estudava naves extraterrestres e que o seu trabalho era recriar a tecnologia para fins militares. No entanto, as credenciais de Lazar foram imediatamente desacreditadas: de acordo com os registos escolares, Lazar nunca estudou no Instituto de Tecnologia do Massachusetts, ou no Instituto de Tecnologia da Califórnia, como alegava.

Os engenheiros da Area 51 estavam a estudar e a recriar aeronaves de alta tecnologia – mas eram aeronaves adquiridas a outros países, não do espaço. Ainda assim, a noção de que a Area 51 tem naves extraterrestres ainda persiste.

A verdade está algures
O governo norte-americano reconheceu formalmente pela primeira vez a existência da Area 51 em 2013, quando a CIA desclassificou documentos sobre o desenvolvimento dos U-2 e A-12. Antigamente, os habitantes locais sabiam que havia algo de estranho a acontecer no deserto, mas os detalhes eram escassos e difíceis de validar.

A Area 51 continua a ser uma base ativa que desenvolve tecnologia militar de ponta. Até 1970, os historiadores sabiam que tipos de aviões é que estavam aqui a ser desenvolvidos, mas depois dessa data, o mistério é ultrassecreto. Precisamos de esperar mais algumas décadas, até que os trabalhos que se fazem atualmente na base sejam desclassificados e disponibilizados ao público.

Mas o lugar continua a ser um pilar da mitologia extraterrestre nos EUA. A entrevista feita recentemente a Bob Lazar inspirou o evento "Storm Area 51", que agora se transformou num festival que celebra todo o tipo de coisas fora do normal. Mas mesmo sem este evento, a Area 51 atrai crentes e céticos que visitam todos os museus, restaurantes, motéis, desfiles e festivais com a temática alienígena.

A fotógrafa Jennifer Emerling acompanha a cultura OVNI no oeste americano. Veja mais fotografias do seu projeto no website Welcome, Earthlings e no Instagram.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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