Arqueologia Revela Segredos das Trincheiras da Primeira Guerra Mundial

A tecnologia laser e a fotografia aérea estão a ajudar a revelar as histórias ocultas da Grande Guerra.quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A Primeira Guerra Mundial foi o primeiro conflito industrializado da história, e a utilização de novas tecnologias como aviões, tanques blindados, metralhadoras, granadas e gás venenoso resultou numa devastação sem precedentes. Entre 1914 e 1918, morreram mais de 8 milhões de militares e mais de 6 milhões de civis. Mas as estatísticas que realmente surpreendem o arqueólogo Birger Stichelbaut são as que mostram o quão profundamente a paisagem ficou alterada em algumas regiões da Europa: por exemplo, na Bélgica, um trecho de 60 km ao longo de uma linha da frente de 675 km, foi atravessado por mais de 4830 km de trincheiras.

“São números avassaladores”, diz Stichelbaut.

Birger Stichelbaut, da Universidade de Ghent, na Bélgica, está entre um pequeno grupo de arqueólogos que, mais de um século depois, investiga as marcas físicas deixadas pela Grande Guerra. Embora este conflito tenha sido documentado através de milhares de relatos escritos em primeira mão, fotografias e rolos de filme – e sujeito a inúmeras avaliações pós-guerra – a arqueologia consegue acrescentar outra dimensão à nossa compreensão sobre um dos conflitos mais violentos da história moderna.

“Todas as pessoas que viveram a Primeira Guerra Mundial já faleceram”, diz Stichelbaut. “A paisagem é a última testemunha do que aconteceu.”

Visão aérea da guerra
Alguns dos piores conflitos da Primeira Guerra Mundial ocorreram ao longo da Frente Ocidental, na Flandres, na região de língua holandesa da Bélgica, onde as tropas aliadas e as forças alemãs lançaram ofensivas mortais a partir das suas respetivas trincheiras. Durante os 4 anos de batalha, a região transformou-se numa paisagem lunar, mas a reconstrução pós-guerra ocorreu rapidamente. Muitos dos vestígios da guerra foram deixados intactos, ou estão enterrados a poucos centímetros da superfície.

Para compreender como é que este cenário de guerra se desenvolveu e quais são os locais que permanecem, Stichelbaut e outros investigadores recorrem a métodos de arqueologia aérea. Durante a Primeira Guerra Mundial, a fotografia aérea era uma ferramenta nova que permitia vigiar as posições do inimigo, agora, milhares de imagens históricas fazem parte dos registos aéreos mais antigos da região. Estas imagens oferecem uma visão panorâmica – mais precisa do que os mapas da época feitos ao nível do chão – de como as valas e outras instalações militares foram construídas e alteradas ao longo do tempo.

Para complementar as imagens históricas, os arqueólogos contam com imagens aéreas modernas. As marcas das colheitas, captadas em fotografia durante os períodos de seca, conseguem revelar mapas impressionantes das redes de trincheiras seculares, onde bolsas de água se escondem sob as terras agrícolas da atualidade. Nos últimos 10 anos, os arqueólogos também usaram a tecnologia LiDAR, uma técnica que usa lasers para "ver" através da vegetação presente à superfície.

As pesquisas com a técnica LiDAR revelam o quanto da paisagem da Europa Ocidental está marcada por trincheiras serpenteantes, crateras de bombardeamentos e outras cicatrizes que podem não ser evidentes no terreno. Por exemplo, as imagens LiDAR de um trecho da Frente Ocidental, entre Kemmel e Wervik, na Flandres, revelam que 14% da terra, mais do que o esperado, ainda tem marcas visíveis da guerra – de acordo com Traces of War, um livro que Stichelbaut compilou para acompanhar uma exposição feita em 2018 no Museu Flanders Fields, em Ypres.

“Combinando as imagens aéreas históricas com as modernas ficamos com uma perspectiva diferente, vemos a totalidade da guerra, vemos padrões e sítios que, mesmo observando atualmente no terreno, não conseguimos perceber que são trincheiras", diz Stichelbaut.

Galochas e ursos de peluche
As imagens aéreas ajudam a identificar locais de escavações e, quando os arqueólogos fazem realmente as escavações, descobrem aspetos esquecidos do quotidiano dos soldados.

“Não existem muitas fotografias tiradas nas trincheiras”, diz Stichelbaut. “Portanto, a arqueologia oferece-nos um retrato de como era realmente a vida nas trincheiras.”

A arqueologia feita nos sítios da Primeira Guerra Mundial ajudou os estudiosos a compreender como é que os soldados improvisavam na construção de trincheiras para lidar com condições adversas.

"Podemos ler todos os manuais da Primeira Guerra Mundial sobre como cavar uma trincheira, mas só através da arqueologia é que conseguimos ver a realidade da guerra de trincheiras no terreno", acrescenta Stichelbaut.

O solo alagado da região ajuda a preservar materiais orgânicos, como madeira e têxteis – um benefício para os arqueólogos da atualidade. Mas há mais de 100 anos, os soldados estavam numa batalha constante contra a água e lama. Muitas das trincheiras foram cavadas por engano abaixo do lençol freático. À medida que as estações mudavam e a chuva caía, as condições para os soldados tornavam-se miseráveis, mesmo quando não estavam debaixo de fogo. O pé de trincheira, provocado pelo frio, humidade e falta de higiene, ceifou 75.000 soldados britânicos.

Um soldado britânico que passou algum tempo na rede de túneis conhecida por "Esconderijo Hades", por baixo da cidade de Wieltje, perto de Ypres, escreveu: “Depois de descermos mais de 30 degraus escorregadios, chegávamos ao fundo do abrigo e ficávamos de pé num rio preto e viscoso, onde avançávamos lentamente e desaparecíamos na escuridão”.

“Fosse o que fosse, tresandava”, relatou o soldado em Traces of War.

Em Wieltje, os arqueólogos encontraram mais galochas de borracha do que botas militares comuns. E as escavações feitas noutras redes de trincheiras na Bélgica mostram que os soldados usavam palha, entulho, telhas e portas, na tentativa de impedir que os seus pés se afundassem na lama.

Estes detalhes subtis ajudam a criar uma imagem mais detalhada da experiência vivida pelos soldados. Para Stichelbaut, algumas das descobertas mais comoventes prendem-se com a arte nas trincheiras: gravuras, balas cortadas e marteladas em crucifixos e outros objetos que mostram como é que as tropas passavam o seu tempo de ansiedade entre as batalhas.

Uma das descobertas que mais impressionou o arqueólogo Simon Verdegem foi uma mochila alemã que tinha um urso de peluche no interior, encontrada perto da vila belga de Langemark durante a construção de um gasoduto.

"Encontramos muitos artefactos que contam histórias pessoais de soldados que, de outra forma, nunca seriam conhecidas, e que conferem alguma dignidade e humanidade aos soldados", diz o arqueólogo.

Verdegem é especialista na Primeira Guerra Mundial na empresa de arqueologia comercial belga Ruben Willaert. Recentemente, teve a possibilidade de observar o interior de um enorme sistema de trincheiras em Wijtschate, uma cidade ao longo da região da Batalha de Messines, durante um projeto de arqueologia chamado Dig Hill 80.

Este projeto de escavação, iniciado em 2018 e que ainda está a ser documentado, revelou trincheiras enterradas e restos de casas rurais abandonadas durante a guerra. Verdegem diz que ficou surpreendido por ver que a maioria dos restos arqueológicos descobertos em Wijtschate datam de uma batalha pouco conhecida, que aconteceu em 1914, em vez de uma enorme batalha de 1917, quando as tropas aliadas lançaram um ataque surpresa a Wijtschate para retomar uma fortaleza alemã.

Em Wijtschate, a equipa do Dig Hill 80 também descobriu restos mortais de mais de 130 soldados de várias nacionalidades. A arqueologia da Primeira Guerra Mundial diferencia-se de certa forma da arqueologia de períodos anteriores, na medida em que as famílias ainda sentem os impactos das descobertas feitas nas trincheiras.

"Existem gerações inteiras em vários países que ainda se interrogam sobre o que aconteceu aos seus antepassados durante a guerra", diz Verdegem. "De vez em quando, conseguimos dar uma resposta, e isso tem algo de especial."

Infelizmente, estas respostas são difíceis de obter. Verdegem estima ter escavado pessoalmente os restos mortais de mais de 200 soldados, mas só três foram identificados.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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