Guerra Civil da Guatemala: Casos Arquivados Impossíveis de Identificar – Até Agora

Décadas depois de 45 mil pessoas terem desaparecido na Guatemala, um esqueleto anónimo foi finalmente identificado.sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Por Nina Strochlic
Fotografias Por Natalie Keyssar

Durante 14 anos, as ossadas de um esqueleto humano denominado 317-38-10 estiveram armazenadas numa caixa de papelão, dentro de um contentor de metal, no telhado de um edifício na Cidade da Guatemala, capital do país. Este número era um código que representava o local onde o esqueleto tinha sido descoberto: 317 era a designação de uma montanha de pinhais repleta de valas comuns, perto de uma cidade chamada San Juan Comalapa. Foi a 38ª vala comum escavada no país pelos arqueólogos, e o décimo corpo desenterrado.

Externamente, não havia nada de especial nos ossos. Tal como acontece com todos os esqueletos, muitas das características físicas que tornavam o seu dono único – cabelos, pele, olhos e outros tecidos macios – desapareceram, restando apenas os ossos e as informações básicas que estes contêm sobre um indivíduo: idade, sexo e causa de morte.

Esquerda: As viúvas e famílias dos desaparecidos costumam visitar o memorial em Comalapa na esperança de sentir uma ligação com os espíritos dos seus entes queridos. As rosas brancas, ou “saq ranxox” na língua Maia de Quiché, são fundamentais para comunicar com os espíritos. Direita: Antes do cume da montanha se transformar numa vala comum, era um local espiritual para as aldeias Maias da região. Os visitantes do memorial fazem pequenos altares e cerimónias Maias para homenagear os mortos.
Fotografia de NATALIE KEYSSAR, NATIONAL GEOGRAPHIC
Rosalina Tuyuc, uma ativista muito conhecida dos direitos humanos, ainda procura o pai e o marido – desapareceram na década de 1980. Nos anos que se seguiram, Rosalina criou a primeira associação de viúvas de guerra, conseguiu um lugar no parlamento e comprou um terreno em Comalapa para construir um memorial. "O lugar perfeito para os desaparecidos é onde foram exumados", diz Rosalina.
Fotografia de Natalie Keyssar, National Geographic

Mas o local onde o esqueleto foi encontrado ofereceu pistas adicionais. O local 317 tinha sido uma base militar durante a guerra civil que, de 1960 a 1996, devastou a Guatemala. Em 2003, quando os arqueólogos forenses cavaram poucos metros de terra, encontraram pilhas de ossos. De quem eram os ossos? Ninguém parecia saber – ou pelo menos ninguém disse nada.

Havia a possibilidade de os ossos pertencerem aos prisioneiros políticos levados pelos militares durante a guerra. As estimativas colocam o número total de prisioneiros em 45 mil. Alguns foram presos nas ruas em plena luz do dia, outros foram arrastados dos seus negócios e casas, enquanto que outros desapareceram em estradas escuras ou em postos de controlo militares sem testemunhas.

Não existiam evidências de los desaparecidos, os desaparecidos, como ficaram conhecidos, deixando as suas famílias sem paz e a nação sem encerrar um dos capítulos mais negros da sua história. Depois, quando os ossos começaram a ser desenterrados, os guatemaltecos aguardaram impacientemente para saber o que tinha acontecido aos seus conterrâneos.

Será que, por exemplo, o padre Conrado de la Cruz estava entre eles? Este padre foi um dos muitos clérigos presos por se manifestar contra as condições enfrentadas pela classe operária. Ou Alaíde Foppa, a aclamada poetisa que saiu com o seu motorista para ir às compras e nunca mais regressou? Ou Jorge Granados Hernández, padeiro e ativista sindical que, antes de desaparecer, disse à sua esposa: “Se um dia eu não regressar, ou se eles me raptarem ou acontecer algo, não me procures porque não me vais encontrar."

Um homem a ler um jornal sobre o massacre de 54 pessoas na região de Quiché, em 1982. Durante a guerra na Guatemala, que durou de 1960 a 1996, morreram mais de 200 mil pessoas e desapareceram cerca de 45 mil. Durante este período de confrontos, os militares queimaram casas e massacraram civis, ações que uma comissão das Nações Unidas denominou de genocídio contra as comunidades indígenas Maias.
Fotografia de Pierre Perrin, Gamma-Rapho/Getty

A informação revelada pelos ossos tem os seus limites. A forma de um crânio não guarda os últimos pensamentos do seu dono, e um fêmur não regista os seus passos finais. Tudo o que os cientistas conseguiram extrair inicialmente do esqueleto 317-38-10 fazia referência a homem adulto que tinha sofrido um violento impacto no maxilar, provavelmente feito com a coronha de uma arma, ou com uma pedra, deixando uma lesão distinta.

Os ossos foram levados para um laboratório forense na capital e, depois de um teste inicial de ADN não ter obtido correspondência no banco de dados genético do laboratório, o esqueleto foi encaixotado, rotulado com o referido código numérico e armazenado entre os outros esqueletos anónimos. E lá ficaram durante 14 anos.

Numa manhã de junho do ano passado, uma carrinha de caixa aberta levou as 172 caixas de esqueletos não identificados de regresso ao cume da montanha. A ciência não conseguiu identificar as suas identidades, mas pelo menos seriam enterrados com alguma dignidade. Cada esqueleto foi cuidadosamente retirado da carrinha, selado num jazigo de betão e rotulado com o respetivo número – sem nome.

Jorge Luis Romero de Paz, investigador forense, entrevista Maria Brito, uma viúva que esperava que os ossos desenterrados em Nebaj pertencessem ao seu marido desaparecido. Romero de Paz ouviu o testemunho de Maria e recolheu uma amostra de ADN sua e da sua filha, Teresa, para adicionar ao banco de dados da Fundação de Antropologia Forense da Guatemala. Este ADN é analisado para verificar se corresponde aos milhares de perfis forenses recolhidos pelos investigadores.
Fotografia de Natalie Keyssar, National Geographic

Nas proximidades, um memorial pintado com tigres, aranhas e outros guias espirituais Maias alerta os seus visitantes para o mal que ali aconteceu. A montanha é visitada semanalmente por mulheres que procuram os seus entes queridos. No cume da montanha, fazem pequenos altares, espalham rosas brancas e ficam à escuta. Apesar de os ossos não conseguirem falar, as mulheres acreditam que os seus espíritos conseguem. E se os espíritos conseguissem falar, o que diriam sobre o esqueleto 317-38-10?

Um desaparecimento
Francisco Curruchich tinha 12 anos quando conheceu Maria Juana Colaj Son, na altura com 10 anos, na pequena cidade de Agua Caliente, na década de 1950. Casaram-se na adolescência e todos os anos faziam pequenas migrações até às vilas agrícolas ao longo da costa do Pacífico da Guatemala à procura de trabalho. Francisco cortava café e apanhava algodão, e Maria fazia tortilhas para os trabalhadores almoçarem nos campos.

O trabalho árduo não desgastou Francisco, em vez disso, fez dele um homem mais focado. Francisco prestou atenção às condições precárias com que ele e as outras etnias Maias trabalhavam, e questionou se poderia permitir que os seus filhos tivessem a mesma vida. Na casa dos 20 anos, aprendeu a ler e a escrever, e entrou para a faculdade de medicina. Quando se formou, já com 30 anos, era um promotor comunitário de saúde certificado. E rapidamente começou a reivindicar alterações para as aldeias rurais da Guatemala: uma educação melhor, água potável, saneamento básico, estradas e não só.

Eram tempos perigosos para expressar opiniões políticas. Anos antes, em 1954, um golpe tinha derrubado o presidente. Um novo regime, apoiado pelos EUA, tinha assumido o poder. Nas zonas rurais começaram a surgir rebeliões de guerrilha. Em resposta, as Forças Armadas da Guatemala – financiadas e treinadas pelos EUA – lançaram uma campanha contra a insurgência. Ao longo da década de 1970, esquadrões da morte atacaram ativistas, alegadamente rotulados de insurgentes, e levaram-nos de suas casas. Por vezes, os seus corpos apareciam com ferimentos de balas ou com sinais de tortura, ou limitavam-se a desaparecer.

Depois, na década de 1980, as forças de segurança governamentais começaram uma extensa repressão pelas zonas rurais, incluindo a “Operação Sofia”, uma campanha para queimar terrenos “e exterminar elementos subversivos”. Queimaram aldeias, dizimaram comunidades indígenas Maias inteiras e inundaram o país com valas comuns. Com o medo de desaparecerem a meio da noite, muitas famílias fugiram para as montanhas ou para o exílio. Mais tarde, uma comissão das Nações Unidas viria a descrever estas ações como "atos de genocídio".

Certo dia, um grupo de homens mascarados apareceu na casa de Francisco, mas ele não estava em casa. A sua filha de 13 anos, Domitila, abriu a porta. "Onde é que ele está? Queremos beber o sangue dele”, disseram os homens. A família fez as malas e partiu.

Pouco tempo depois, foram viver para uma pequena cidade chamada Chimaltenango. Um dos filhos de Francisco e Maria, na altura com 18 anos, tinha desaparecido. A família soube que o filho tinha sido raptado pela polícia, mas nunca descobriram porquê, e ele nunca mais regressou. Francisco culpou-se pelo sucedido e começou a beber. Às vezes, ia para a porta do quartel da polícia e gritava: "Sou eu que vocês querem! Matem-me!” E também foi ao gabinete do governador e exigiu a libertação do filho.

Tudo isto obrigou a família a esconder-se novamente nas montanhas, mas Francisco já se tinha afastado. “Ele usou o álcool para aliviar a dor e a culpa de ter perdido o filho”, diz Domitila. "Bebeu para esquecer." Em julho de 1983, a última vez que Francisco foi visto pela família, prometeu que ia ficar sóbrio. Mas três dias depois, ouviram um boato: homens armados tinham levado Francisco da praça central da cidade. Tinha desaparecido.

Desenterrar os desaparecidos
Desde então, passaram 35 anos sem vestígios de Francisco Curruchich. Enquanto isso, um acordo de paz estabelecido em 1996 colocou finalmente um fim à guerra de quase quatro décadas, uma guerra que ceifou a vida a mais de 200 mil pessoas e que fez desaparecer cerca de 45 mil. Atualmente, no centro da Cidade da Guatemala, os rostos dos desaparecidos aparecem estampados em cartazes com as palavras: Dónde están? Ou onde estão?

Um ano depois da guerra terminar, e para responder a esta questão melindrosa, foi criada oficialmente a Fundação de Antropologia Forense da Guatemala (FAFG), financiada por governos estrangeiros e por fundações privadas. Hoje, a FAFG tem 83 funcionários e apresenta-se como o maior laboratório privado forense da América Latina, especializado na extração de perfis genéticos de ossadas. Através das exumações, análises forenses e campanhas de recolha de ADN, os cientistas do laboratório identificaram gradualmente quase 3.500 dos desaparecidos da Guatemala. As ossadas de outras 1.500 pessoas estão armazenadas há vários anos nas instalações da FAFG na Cidade da Guatemala – ossos que não apresentam uma correspondência genética com as famílias presentes no banco de dados, ou que estão demasiado degradados para as análises.

Esquerda: Mais de 20 anos depois da guerra ter terminado, a FAFG continua a exumar valas comuns na Guatemala. No início de 2019, na cidade de Nebaj, quando trabalhadores da construção civil encontraram um esqueleto, os cientistas da FAFG analisaram os ossos. Direita: Este foi o 1874º túmulo desenterrado pela FAFG. As provas recolhidas em sítios como este têm sido usadas em mais de uma dezena de julgamentos de crimes de guerra. Nesta imagem, o arqueólogo Willi Guerra recolhe ossos em Nebaj. Estes ossos, depois de analisados, revelaram ser pré-hispânicos.
Fotografia de NATALIE KEYSSAR, NATIONAL GEOGRAPHIC

Passaram quase 60 anos desde o início da guerra, e os que procuram os desaparecidos estão a envelhecer. Muitos faleceram sem respostas. O laboratório está a trabalhar contra o tempo para resolver estes casos arquivados, antes que seja tarde demais para oferecer uma resposta às famílias.

O diretor da FAFG, Fredy Peccerelli, trabalha no centro histórico da capital. Nascido na Guatemala durante a guerra, Fredy tinha nove anos quando a sua família foi obrigada a fugir para Nova Iorque. Fredy Peccerelli, agora com 48 anos, careca e de óculos, fala um inglês muito apressado com sotaque de Brooklyn. Nas paredes do seu escritório podemos ver títulos honorários da Universidade Queen’s e da Universidade do Norte da Colúmbia Britânica. Na sua secretária vemos um chocolate que lhe foi oferecido por um criminoso de guerra sérvio-bósnio. Depois de ter ajudado a exumar túmulos em Srebrenica, naquele que foi um dos campos de extermínio mais infames da Guerra dos Balcãs, Peccerelli testemunhou perante o tribunal de Haia. Durante uma das sessões, um dos réus pegou numa caixa com um chocolate e disse: “Tome lá, para não ficar tão azedo.” Fredy Peccerelli ainda estremece quando conta este episódio. “O chocolate serve para me lembrar de como 8 mil homens perderam a vida em Srebrenica”, diz Fredy.

E também na sua secretária está um santuário envidraçado com o chapéu e o cachimbo do seu mentor, o pioneiro americano em antropologia forense, Clyde Snow. Em 1991, uma ativista Maia chamada Rosalina Tuyuc, fundadora da primeira associação nacional de viúvas de guerra da Guatemala, ouviu falar de Clyde Snow. Na altura, Clyde chefiava investigações forenses sobre os dissidentes políticos desaparecidos durante a chamada "Guerra Suja", na Argentina, nas décadas de 1970 e 1980. Rosalina convidou Clyde para visitar a Guatemala.

Os novos equipamentos possibilitaram aos cientistas da FAFG, como Andrea Carcamo, extrair mais marcadores genéticos de cada fragmento ósseo. Agora, o laboratório está a reanalisar as ossadas que anteriormente não eram passíveis de identificação. E já existem novas correspondências entre os desaparecidos e os respetivos familiares para os quais existem perfis no banco de dados.
Fotografia de Natalie Keyssar, National Geographic

Clyde Snow, na casa dos 60 anos, chegou à Guatemala em 1991. E ficou chocado com o que encontrou – a magnitude da carnificina era avassaladora e ultrapassava tudo o que ele tinha investigado. Na Guatemala, Clyde disse a um jornalista: “As pessoas eram exterminadas como se fossem uma espécie de praga agrícola particularmente nociva.”

Financiado por grupos dos direitos humanos, começou a identificar zonas de túmulos e a treinar equipas de jovens guatemaltecos em ciências forenses – preparando as bases para o laboratório e, pensou Clyde, levar as coisas a julgamento. Em 1994, Peccerelli estava no último ano de antropologia quando ouviu Clyde Snow a falar numa conferência. Impulsionado pela sua curiosidade profissional e pela ligação pessoal à Guatemala, Peccerelli viajou de Brooklyn para a Cidade da Guatemala, para integrar a equipa de Snow.

Sob a orientação de Snow, Peccerelli juntou-se ao trabalho de exumação das valas comuns de todo o país, fazendo escavações em bases militares dos tempos de guerra e em cemitérios clandestinos. Um dos locais era uma antiga fábrica de secagem de cardamomo, onde mais de 400 pessoas foram assassinadas. Durante esta escavação, os antropólogos dormiram em tendas dentro da fábrica. “Os habitantes vieram ter comigo e apontaram para o canto onde eu tinha a minha tenda. “Está a ver aquela viga? Eles atiravam as crianças contra a viga'', lembra Peccerelli. “Eu tinha pesadelos todas as noites, sonhava que tinha rios de sangue debaixo de mim.”

Peccerelli pretendia ficar apenas um ano na Guatemala, mas depois de cinco anos a trabalhar na região, assumiu a liderança do laboratório. Duas décadas depois, ainda está lá. A sua persistência é alimentada, em parte, por mulheres como Rosalina Tuyuc, a quem chama de guia espiritual. Muito antes de o primeiro túmulo ter sido desenterrado no topo da montanha de Comalapa, Rosalina já tinha sonhado com o seu pai desaparecido, e no sonho ele dizia que estava enterrado lá. Rosalina Tuyuc pediu exumações em Comalapa, e depois comprou lá um terreno e chefiou os esforços para erguer um memorial. "É como se a terra os tivesse engolido", disse Rosalina durante uma visita ao local. Estava uma tarde ventosa e ela agachou-se junto ao chão para ouvir os espíritos. "É este o nível de impunidade neste país."

Justiça para quem?
Apesar de a guerra ter terminado em 1996, o perigo ainda não desapareceu por completo. Na última década, assistimos a 33 condenações por crimes de guerra, muitas das quais suportadas pelas provas encontradas pela FAFG, incluindo um caso de genocídio sem precedentes contra o ex-presidente Efraín Ríos Montt, o homem que governou durante os anos mais sangrentos da guerra. A maior exumação feita pelo laboratório, com 558 corpos encontrados numa base militar conhecida por Creompaz, resultou na prisão de 14 oficiais militares de guerra que agora aguardam julgamento.

O debate sobre a chamada "justiça de transição" – que procura abordar os abusos dos direitos humanos muito tempo depois de os crimes terem sido cometidos – é um tópico controverso na América Latina. Depois dos seus próprios conflitos internos, países como El Salvador, Argentina e Peru aprovaram amnistias para os alegados criminosos, com o objetivo de acelerar os acordos de paz e continuar com a reconstrução. Décadas depois, algumas destas leis estão a ser revogadas, expondo potencialmente os acusados de crimes de guerra a julgamento.

Na Guatemala, esta questão ainda é amplamente debatida: é melhor esquecer e seguir em frente, ou reabrir as feridas do passado em nome da justiça? Os esforços para investigar e processar os crimes de guerra enfrentam protestos de membros das forças armadas dos tempos de guerra, muitos dos quais ainda exercem poderes na Guatemala. O partido do presidente Jimmy Morales, um comediante de televisão que se tornou político de direita, foi fundado por oficiais militares aposentados, alguns dos quais serviram nas regiões mais sangrentas durante a guerra. No início de 2019, Morales retirou-se da Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala, uma comissão apoiada pelas Nações Unidas, alegando que era "uma ameaça à paz na Guatemala". Mas as organizações não governamentais, como a International Crisis Group, referiram que a primeira tentativa de Morales para acabar com esta comissão, feita dois anos antes, aconteceu pouco tempo depois de ter acusado o seu irmão e filho de fraude, e também quando foi investigado pela utilização indevida de fundos durante a campanha.

Entretanto, a Guatemala continua a lutar contra uma violência generalizada. Em 2018, o país registou uma média de 74 homicídios por semana. Neste contexto, investigar crimes de guerra que podem envolver figuras poderosas é um processo perigoso. Pouco depois de Peccerelli ter começado a escavar ossadas, começou a receber ameaças de morte. Agora, tem uma escolta policial permanente, e o laboratório foi reforçado com portas e vidros à prova de bala. E Peccerelli enviou os seus dois filhos para os EUA.

Embora ainda existam muitas sepulturas à espera de exumação, e caixas cheias de esqueletos anónimos por identificar, o futuro do laboratório parece incerto. Em 2019, uma dezena de membros do congresso da Guatemala fizeram uma proposta de lei para conceder amnistia a quem tivesse cometido crimes durante a guerra. Tanto os tribunais internacionais como os nacionais ordenaram a retirada da proposta, mas os seus defensores continuam a exercer pressão para que seja levada a votação. Caso seja aprovada, os mais de 30 oficiais militares atualmente detidos podem ser libertados.

A proposta também visa bloquear todas as investigações sobre a guerra, incluindo a segunda maior exumação do laboratório – Comalapa. O Gabinete dos Direitos Humanos do governo compila provas desde 2011 para apresentar a um juiz e solicitar uma acusação contra os responsáveis pelos corpos desenterrados em Comalapa.

Montanha de fantasmas
Durante vários anos, Maria Juana perscrutou cemitérios e sepulturas à procura de pistas sobre o destino do seu marido, Francisco Curruchich. Eventualmente, Maria acabou no cume tranquilo da montanha de Comalapa. Depois da guerra, os agricultores das redondezas contaram histórias sobre buracos recém-escavados na encosta perto dos seus campos de milho. Em 2003, quando um juiz ordenou a exumação do local, um agricultor levou os arqueólogos da FAFG até várias sepulturas. A primeira tinha cinco esqueletos com lesões provocadas por facas e machetes. Na segunda, os esqueletos tinham sido desmembrados. E quanto mais sepulturas escavavam; mais ossos surgiam com marcas de lesões horríveis. Na 16ª, todos os esqueletos tinham sido decapitados.

Os arqueólogos forenses fizeram as escavações perante o olhar de Maria Juana e de muitas outras mulheres que procuravam os seus maridos, pais, filhos e irmãos. O vento soprava entre as árvores e ocasionalmente ouviam-se os ecos de um vulcão ativo à distância. As mulheres espreitavam para todos os buracos recém-escavados, e muitas vezes também ajudavam a cavar. Passado quase um ano de escavações, os arqueólogos descobriram 53 sepulturas com os restos mortais de 220 pessoas. Mas quem eram estas pessoas?

Esquerda: Há mais de uma década, Tuyuc comprou um terreno em Comalapa para construir um memorial dedicado às vítimas. No ano passado, a FAFG construiu outro memorial ali perto – tem os corpos encontrados nas valas comuns da região. Direita: A filha de Tuyuc, Rosa, abraça a mãe durante uma visita ao memorial. Tuyuc acredita que o seu pai pode ter sido assassinado em Comalapa.
Fotografia de NATALIE KEYSSAR, NATIONAL GEOGRAPHIC

Durante os últimos 16 anos, a FAFG tentou identificar estas pessoas. E desde que montou o seu laboratório de ADN em 2008, cerca de 800 pessoas foram identificadas pela comparação de ADN. Mas os esqueletos de Comalapa continuavam anónimos: 172 não tinham correspondência no banco de dados, que contém as amostras de ADN das três filhas adultas de Francisco. E para cerca de 30 esqueletos, não foi possível discernir o ADN.

Parecia que tinham chegado ao fim da linha, a terra tinha realmente engolido as respostas. Os ossos de Comalapa foram colocados em sacos de papel, embalados em caixas de papelão e armazenados em contentores de metal. E juntaram-se a outros 1.500 restos mortais por identificar – cujo ADN tinha sido contaminado ou degradado pelo solo, animais, insetos ou raízes de plantas.

Finalmente, em 2018, o laboratório decidiu devolver os ossos não identificados a Comalapa. Fizeram um memorial, projetado por arquitetos, com vários jazigos funerários e uma parede baixa e curva com os nomes das 6.066 pessoas que foram dadas como desaparecidas ao laboratório. O chão foi consagrado com uma cerimónia Maia que durou a noite inteira, e os esqueletos anónimos foram sepultados por cima de onde foram encontrados.

Desvendar casos arquivados
Em finais de 2018, alguns meses depois dos ossos terem sido colocados no memorial de Comalapa, o laboratório adquiriu novos equipamentos. Estes equipamentos aumentavam as probabilidades de encontrar material genético nos ossos outrora ilegíveis. E como os cientistas retiveram pequenas amostras dos casos arquivados, podiam fazer novos testes.

Um geneticista do laboratório analisou o esqueleto 317-38-10 com um novo kit de testes mais sensível. Os resultados foram colocados num computador e, durante dois dias, um programa comparou os marcadores genéticos com as milhares de amostras de ADN recolhidas dos familiares. Quando a comparação terminou, o caso 317-38-10 tinha um nome.

Um dos investigadores forenses do laboratório foi de carro até Patzicia, uma cidade que fica a 30 minutos de Comalapa. Depois, caminhou por um beco estreito até uma porta de metal que dava para o pátio de Maria Juana. E finalmente disse que tinham encontrado Francisco.

As notícias espalharam-se pelos seus nove filhos e dezenas de netos. Durante vários anos, a família acreditou que, por algum milagre, o pai podia estar a definhar numa prisão algures, ou a viver fora do país. Agora, estas possibilidades tinham finalmente desaparecido. Naquele dia, quando ia do trabalho para casa, a sua filha Domitila recebeu uma mensagem do irmão: "Tenho notícias do pai." Domitila passou a viagem no autocarro a chorar, e quando chegou a casa perguntou: "Ele apareceu?"

Em dezembro de 2018, Danny Guzman, o arqueólogo forense que chefiou a escavação em Comalapa para a FAFG, acompanhou a família Curruchich até ao túmulo 38. Eles queriam saber quais tinham sido as causas de morte. Guzman descreveu o trauma no maxilar de Francisco, mas disse que a causa exata da morte era desconhecida. No topo da montanha, Domitila, agora com 52 anos, com cabelos negros e um rosto corado, começou aos gritos.

Um último adeus
Entre os ossos desconhecidos de Comalapa, Francisco Curruchich foi a primeira pessoa identificada, e a família teve de decidir se queria deixar os ossos no memorial no cume da montanha, ou enterrá-los noutro lugar.

Em 2019, numa tarde fria de fevereiro, a família Curruchich reuniu-se toda na pequena cozinha de Maria Juana, para discutir o assunto com um representante da FAFG. Maria Juana observou silenciosamente do canto, enquanto os seus filhos debatiam se deviam levar o pai para casa, ou se devia ficar em Comalapa. Maria queria que fossem os filhos a decidir. Dado que o terreno já estava designado como memorial, e a estrada até ao memorial era a mesma que o pai percorria para chegar à faculdade de medicina, facilmente chegaram a um consenso.

"Podemos ir lá visitá-lo", disse Domitila. Ela queria muito apresentá-lo aos seus filhos. Um deles, dentista, estava na cozinha a explicar o que era o ADN aos seus tios. Outro dos filhos disse que ia adicionar estas novas informações a uma árvore genealógica criada por ele online. “O meu pai estava a lutar pela educação e foi silenciado por isso”, disse Domitila.

Duas semanas depois, a família regressou a Comalapa para devolver os ossos ao jazigo. Depois, trocaram a placa com o número 317-38-10 por uma que diz: Francisco Curruchich.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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