O Turismo Pode Salvar a ‘Cidade Moribunda’ de Itália?

Tal como acontece com muitas das zonas rurais de Itália, esta povoação de 90 por 150 metros estava em risco de desaparecer – até que a curiosidade do mundo a descobriu.

Thursday, February 20, 2020,
Por Sydney Combs
Fotografias Por Camilla Ferrari
A cidade italiana de Civita di Bagnoregio está a desaparecer. Todos os anos, 7 centímetros de ...
A cidade italiana de Civita di Bagnoregio está a desaparecer. Todos os anos, 7 centímetros de terra caem pela ravina abaixo e a sua população consiste agora em pouco mais de 7 habitantes. No entanto, em 2019, a cidade foi visitada por 1 milhão de turistas.

Ao longo da estrada, a cerca de 120 km a norte de Roma, os sinais informam os automobilistas de que se estão a aproximar de Civita di Bagnoregio, “A Cidade Moribunda”. Erguida num planalto em ruínas, desde que os humanos se estabeleceram na região há quase 4.000 anos, a cidade tem sido atormentada por deslizamentos de terras, sismos e pela erosão. Hoje, Civita está reduzida a uns meros 90 por 150 metros.

Na Idade Média, o planalto tinha três vezes mais o seu tamanho atual e abrigava mais de 3.000 pessoas, diz Luca Costantini, geólogo local. Mas o rio que corre pelo vale que rodeia Civita desintegrou gradualmente a cidade de baixo para cima. Depois de um sismo devastador em 1695, grande parte dos seus habitantes fugiu e a população de Civita nunca recuperou. Na década de 1920, viviam 600 pessoas na cidade. Hoje, tem apenas 7 habitantes e a sobrevivência de Civita é uma incógnita.

Jovens de Bagnoregio perto do Bar Belvedere, em Civita.

Porém, à medida que as notícias da perda iminente da cidade se espalharam, o número de pessoas que a queriam visitar também aumentou. Agora, Civita recebe cerca de 10 mil visitantes por dia, colocando em dúvida a sua morte anunciada. Com o fluxo de pessoas, de dinheiro e de interesse, alguns dos seus habitantes esperam que a cidade possa ser salva. E outras cidades italianas acompanham de perto o destino de Civita.

Para as pessoas que ficaram em Civita não existem mercearias, lojas de ferragens ou de conveniência. Para além de alguns restaurantes e lojas de souvenirs para turistas, os habitantes de Civita dependem de uma ponte estreita de 300 metros que os liga a Bagnoregio, a sua cidade irmã, para obter mantimentos. Com quase 3.600 pessoas e 72 km quadrados, os recursos de Bagnoregio sustentam a indústria de turismo e os residentes de Civita. “Às vezes, até para comprar um alfinete, é preciso regressar a Bagnoregio com um enorme desperdício de tempo e energia, mas essa é a beleza de Civita”, diz o site da cidade.

Um homem a empurrar um carrinho de mão na praça central de Civita, em frente à igreja de San Donato. Nos últimos cinco anos, a presença de turistas resultou na erosão de 30 centímetros de solo da praça.

De acordo com um relatório de 2016 da Legambiente, uma associação ambiental italiana, cerca de 2.500 cidades italianas enfrentam uma desertificação semelhante. À medida que os habitantes se mudam para outras regiões, a força social, cultural e económica de uma cidade entra em colapso, levando a que mais pessoas a abandonem, explica Cecilia Reynaud, professora de ciências políticas na Universidade Roma Tre, em Roma.

Este padrão é observado por Cecilia Reynaud por toda a Itália. Em 2018, mais de 1.3 milhões de pessoas migraram dentro do país, principalmente do sul rural para as regiões urbanas no norte e centro, à procura de trabalho e de oportunidades.

As mulheres que ficam para trás optam por ter menos filhos, ou não têm filhos. Em 2018, a taxa de natalidade em Itália era a mais baixa desde a formação do estado italiano moderno. Com o êxodo e a baixa taxa de natalidade, as vilas e cidades lutam para manter as suas populações.

Para lidar com esta perda, algumas cidades estão a testar incentivos financeiros para atrair habitantes. Antonio Tedeschi, vereador da região de Molise, a mais de 280 km a sudeste de Civita, propôs a utilização de fundos regionais para pagar às pessoas cerca de 725 euros por mês para se mudarem para a região. O problema: os candidatos devem viver na região durante um período de 5 anos e abrir um negócio. A iniciativa recebeu centenas de candidaturas do mundo inteiro. Os candidatos serão avaliados, em parte, pelos potenciais benefícios que podem trazer às localidades.

Civita di Bagnoregio, Itália, 2018. Os turistas chegam a Civita depois de uma caminhada íngreme por uma ponte pedonal.

“Quando um negócio abre numa localidade pequena, é importante porque é um sinal de que vai contra a corrente, é um sinal de possibilidade”, explica Tedeschi.

Atualmente, existem mais pousadas do que habitantes, e a taxa de desemprego em Bagnoregio é inferior a 1%. Em 2017, Civita tornou-se na primeira cidade italiana a cobrar aos turistas 5 euros por pessoa por cada visita. Em 2019, mais de 1 milhão de pessoas cruzaram a ponte para Civita.

Com o dinheiro do turismo, os geólogos de Civita podem concentrar-se em tentar descobrir uma forma de conservar a terra, em vez de responderem apenas aos deslizamentos de terras. “Civita é muito pequena e temos de levar em consideração a presença de 500 ou 600 pessoas nesta área”, diz Costantini, que trabalha no Museu Geológico de Civita di Bagnoregio. O museu, uma das poucas organizações localizadas em Civita, educa os turistas e habitantes locais sobre o passado geológico e cultural da cidade, enquanto trabalha para garantir o seu futuro. Os registos dos deslizamentos de terras de Civita datam do século XV, o que faz da cidade um local muito rico para os geólogos.

Tony Costa Heywood, um dos 7 habitantes que restam em Civita, atravessa a ponte pedonal todas as quartas-feiras de manhã, até à cidade irmã de Civita, Bagnoregio, para ir às compras. Heywood e a sua falecida esposa, Astra Zarina, eram arquitetos americanos que se mudaram para Civita na década de 1960 e fundaram o Instituto de Civita para promover o design, a arquitetura e a administração ambiental.

Mas o museu está agora a abordar uma nova questão: consegue Civita sobreviver a um milhão de turistas anualmente? Em apenas 5 anos, os visitantes que caminharam pela praça central não pavimentada de Civita corroeram 30 centímetros de solo, diz Costantini. Antes deste fluxo de pessoas, a praça manteve a sua estabilidade durante mil anos.

Enquanto os geólogos tentam descobrir uma forma de turismo sustentável para a terra, o presidente da câmara de Civita está a tentar descobrir o mesmo para os seus habitantes.

Felice Rocchi, habitante de Civita, espera por turistas no seu museu improvisado. A sala está cheia de fotografias históricas da cidade, incluindo um antigo moinho e ferramentas agrícolas que foram passadas de geração em geração.

O turismo transformou Civita num museu a céu aberto. Quando a fotógrafa Camilla Ferrari visitou a cidade pela primeira vez como turista, ficou surpreendida quando viu outro turista a fotografar um habitante local a podar uma árvore.

Alguns dos habitantes acolheram de braços abertos este tipo de atenção. Felice Rocchi cresceu como agricultor no vale, mas as ferramentas da sua família, passadas de geração em geração, estão agora guardadas na cave. Hoje, Rocchi usa estas relíquias para ilustrar o passado da cidade aos turistas no seu museu improvisado. O custo de entrada: 1 euro.

Rocchi consegue narrar o passado, mas a atualidade de Civita continua a evoluir. A época de cultivo já não determina o sucesso da cidade, e o número de pessoas em Civita muda diariamente. As tradições ajudam a cidade a manter a sensação de identidade – sobretudo a procissão anual de Sexta-Feira Santa na primavera.

“A procissão de Sexta-Feira Santa é uma das iniciativas mais importantes da minha cidade e é certamente a mais antiga”, diz Giordano Fioco, um pedreiro de Bagnoregio, que agora é presidente do comité organizador da procissão – uma função anteriormente desempenhada pelo seu pai. “Todas as pessoas de Bagnoregio participam neste evento desde tenra idade e é por isso que todos nós crescemos com o espírito adequado para continuarmos com a nossa tradição.”

Esquerda: Uma estátua de Maria e Jesus iluminada pela luz de uma janela, na igreja de San Donato, em Civita, durante a missa de Sexta-Feira Santa do ano passado. Direita: Uma voluntária remenda um buraco no pano vermelho que cobre o caixão de madeira que é usado para transportar a estátua de Cristo do século XV até Bagnoregio, durante a procissão de Sexta-Feira Santa.

Giordano Fioco, juntamente com mais de 300 habitantes de Civita e Bagnoregio, preparam-se para o evento durante meses. As costureiras e artesãos locais trabalham para criar trajes com rigor histórico, e quadros religiosos enormes são exibidos na procissão. Os grupos fraternos ajudam a organizar o desfile, e muitos dos participantes são jovens. Giordano Fioco tem apenas 33 anos.

Na Sexta-Feira Santa, turistas e habitantes de Civita e Bagnoregio reúnem-se para assistirem à procissão que leva a estátua de Cristo do século XV de Civita para Bagnoregio e vice-versa. O folclore desta tradição tem mais de 400 anos. Muitos acreditam que se a estátua não regressar a Civita até à meia-noite, a cidade pode ser castigada com um terramoto – uma catástrofe que pode finalmente acabar com a cidade.

Há dois anos, quando a procissão foi cancelada devido às fortes chuvadas, a comunidade ficou destroçada. Não se trata apenas de um evento religioso. A procissão é uma herança que liga Civita à sua cidade irmã, explica Fioco. Durante a procissão, Civita fica com a mesma vida que tinha há centenas de anos.

Civita está a tentar ser designada património mundial da UNESCO, um empreendimento que visa reconhecer formalmente a paisagem e a resiliência da cidade contra a natureza. A cidade apresentou recentemente um dossier com 250 páginas à UNESCO, na esperança de que a designação solidifique o papel de Civita como um ponto de importância histórica e cultural. A equipa da UNESCO de Civita também está a desenvolver planos para criar atrações turísticas nas cidades vizinhas. Se for bem-sucedida, a recuperação de Civita pode oferecer um roteiro para as outras cidades, evitando a desertificação através do turismo.

Da sua varanda, Rocchi observa o vale em torno de Civita. Rocchi conhece todos os recantos, rochas e riachos que rodeiam a cidade. “Você já reparou como as montanhas hoje estão azuis lá ao fundo? Vi poucas vezes as montanhas assim”, diz Rocchi.

“É importante salvar estas cidades pequenas porque, quando o fazemos, preservamos as tradições, preservamos a história”, diz Tedeschi. “Estas cidades mais pequenas são o berço da cultura.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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