Quem Descobriu Realmente a Antártida? Depende.

Em 1820, duas expedições rivais partiram à descoberta da Antártida – mas só uma chegou primeiro.quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Duzentos anos depois da descoberta da Antártida, o continente continua a ser venerado não só para fins de exploração científica, mas também por ser um local de aventuras e perigos gelados. Mas quem descobriu realmente o novo continente? Esta questão depende da forma como definimos “descobrir”. A descoberta pode ser atribuída a uma expedição russa – no dia 27 de janeiro de 1820 – ou a uma expedição britânica três dias mais tarde.

No início do século XIX, os exploradores estavam à procura de um enorme continente no sul, chamado Terra Australis Incognita, ou terra austral desconhecida. Acreditava-se que esta vasta massa de terra “equilibrava” a terra do Hemisfério Norte. Mas as primeiras tentativas para encontrar o continente fracassaram. Durante a sua segunda viagem, o comandante James Cook passou três anos a tentar encontrar o continente, de 1772 a 1775. A expedição levou Cook e os seus homens até ao Círculo Antártico, mas o comandante acabou por desistir.

Porém, Cook estava convencido de que existia ali qualquer coisa. “Acredito firmemente que existe um pedaço de terra perto do polo, e que é a fonte de grande parte do gelo que vemos espalhado por este vasto Oceano Antártico”, escreveu James Cook no final da expedição. “Mas o risco que corremos a explorar uma costa nestes mares desconhecidos e gelados é tão grande que eu posso ter a ousadia de afirmar que ninguém se aventurará tão longe quanto eu, e que as terras que se situam a sul nunca serão exploradas.” Mas James Cook desconhecia que, num determinado ponto da sua expedição, esteve a pouco mais de 120 km do continente.

A expedição de Cook estimulou outros exploradores, mas nenhum teve sucesso e a procura pela “terra austral desconhecida” foi considerada impossível. Mais tarde, graças às rivalidades internacionais e aos potenciais lucros oferecidos pela venda das peles de focas caçadas nas águas geladas da Antártida, o interesse pelo continente voltou a surgir. A competição global por território e pelo domínio económico colocou exploradores da Rússia, de Inglaterra e dos Estados Unidos de novo na senda da Antártida.

Em 1819, a Rússia enviou Fabian von Bellingshausen ainda mais para sul do que James Cook. E no dia 27 de janeiro de 1820, Fabian viu o gelo sólido do que provavelmente seria uma plataforma de gelo anexada à terra da Antártida, região agora conhecida por Terra da Rainha Maud. Mas Fabian não sabia que tinha companhia: três dias depois, Edward Bransfield, oficial da Marinha Britânica, avistou a ponta da Península Antártica.

O historiador David Day escreve que, apesar de Fabian von Bellingshausen ter sido tecnicamente o primeiro a avistar o continente desconhecido, a sua conquista foi ofuscada durante décadas por uma tradução incorreta do seu diário que levou os historiadores a supor que Fabian não tinha realmente visto terra. E os americanos não estavam muito atrás: John Davis, caçador de focas e explorador, foi a primeira pessoa a pisar terras antárticas em 1821.

A corrida para encontrar a Antártida deu origem a uma competição para localizar o Polo Sul – e também alimentou outra rivalidade. O explorador norueguês Roald Amundsen encontrou o polo no dia 14 de dezembro de 1911. E pouco mais de um mês depois, Robert Falcon Scott também o encontrou. Mas regressou com resultados catastróficos. Todo o grupo de Scott morreu, e a expedição ainda é considerada um fracasso. Mesmo assim, o historiador Edward J. Larson escreve que, quando o norueguês Amundsen conversou com a Royal Geographic Society, numa cerimónia de homenagem à sua conquista, os participantes aplaudiram os cães da expedição, mas não o explorador. A Antártida pode ser fria, mas a paixão que desperta no coração dos exploradores e daqueles que os defendem é verdadeiramente ardente.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler