Peste Negra: Descoberta Revela Outro Lado da Catástrofe

Uma descoberta arqueológica inesperada, feita numa antiga abadia, pode revelar como as populações rurais lidaram com os efeitos de uma epidemia mortal.quinta-feira, 5 de março de 2020

Por Jennifer Pinkowski

Na cidade de Londres, em 1348, as pessoas olhavam com terror para a Europa continental. A Peste Negra aproximava-se vinda do continente, semeando o pânico e a morte no seu rescaldo. De acordo com um relato feito em Itália: “A esposa fugiu do abraço do seu querido marido, o pai fugiu do abraço do seu filho, e o irmão do abraço do irmão. Os que enterram, carregam, veem ou tocam nos infetados morrem subitamente.”

Tal como acontece atualmente, com as autoridades de saúde a reagirem à disseminação de uma nova vertente de coronavírus, também a cidade medieval de Londres se preparou, há mais de 600 anos, para os impactos da peste. Os documentos históricos mostram que, mesmo antes da epidemia chegar, a cidade arrendou terrenos para improvisar cemitérios e cavou longas valas comuns.

Em meados do século XIV, a cerca de 180 quilómetros a norte de Londres, os habitantes rurais do interior, onde atualmente fica Lincolnshire, foram aparentemente apanhados de surpresa pelo impacto da bactéria Yersinia pestis. Mas, em vez de enterrarem os seus mortos no cemitério paroquial, como mandava a tradição, enterraram dezenas de pessoas ao mesmo tempo numa vala comum, nas terras da Abadia de Thornton, a pouco menos de 2 quilómetros do cemitério.

À medida que a praga começou a ceifar vidas pela zona rural de Inglaterra, as pessoas atingidas em Lincolnshire foram para o hospital da Abadia de Thornton, onde esperavam receber uma “boa morte” – os últimos ritos e um enterro em solo cristão consagrado, assegurando assim um lugar no além.

“Provavelmente foram ao hospital para morrer”, diz Hugh Willmott, arqueólogo da Universidade de Sheffield. “Era mais sobre o enterro do que para melhorar a saúde.”

Nos terrenos da antiga abadia, Willmott e os seus colegas encontraram evidências raras – e surpreendentes – da resposta dada pelos habitantes locais à praga de 1348: uma vala comum com os restos mortais de 48 pessoas que, aparentemente, foram enterradas com dias ou semanas de diferença.

Apesar de cerca de metade da população de Inglaterra ter morrido no final de 1349 (e perto de 200 milhões de mortos na Eurásia), existem surpreendentemente poucos sítios arqueológicos associados aos eventos medievais da peste.

As valas comuns encontradas em Inglaterra são poucas e, de acordo com Willmott, a descoberta feita na Abadia de Thornton também é notável por ser a única encontrada até agora num ambiente rural. Acredita-se que nas regiões rurais pouco povoadas e com muitos terrenos abertos, as pessoas enterravam os seus mortos em sepulturas individuais, e não em valas comuns. A Abadia de Thornton sugere outra realidade. “Claramente”, diz Willmott, “o sistema normalmente utilizado para lidar com os mortos alterou-se”.

Os investigadores documentaram a sua descoberta num artigo publicado na Antiquity.

Demografia de devastação
Em 2013, este grupo multidisciplinar de arqueólogos escavou um monte de areia e cascalho nos terrenos da antiga abadia, que foi encerrada em 1539 por Henrique VIII. A análise geofísica sugeria que tinham encontrado os restos de um edifício. Mas, em vez disso, encontraram corpos – mais de 40 corpos – cada um envolto individualmente, com os braços cruzados na cintura. Apesar de nenhum dos corpos se fazer acompanhar por bens, os arqueólogos conseguiram identificar a data da vala comum – é da época da peste – com base em dois centavos de prata e dois esqueletos datados por radiocarbono.

A devastação da praga reflete-se na demografia dos enterros, diz Willmott. Mais de metade dos indivíduos tinham menos de 17 anos – uma representação excessiva, mesmo para um período onde a mortalidade infantil era elevada.

“O que temos é um perfil de mortalidade catastrófico, onde basicamente todos estão nivelados por igual”, diz Willmott. “Temos uma espécie de linha plana na sociedade.”

O cemitério paroquial da região – que ainda hoje é usado – fica a pouco menos de 2 quilómetros da abadia, mas em meados do século XIV, na época da epidemia, podia estar sobrelotado com as vítimas locais. “Suspeito que estes corpos foram enterrados nos arredores da abadia quando o cemitério ficou cheio e, em vez de seguirem os requisitos normais dos enterros, onde embalavam os corpos em valas comuns no cemitério, usaram os terrenos dentro das paredes da abadia”, diz John Hatcher, historiador da Universidade de Cambridge que já escreveu três livros sobre a praga. John não participou neste estudo mais recente.

Os dentes de duas das crianças enterradas deram positivo para a Yersinia pestis, e o ADN da bactéria também foi recuperado de uma delas.

“A recuperação de ADN da peste na Abadia de Thornton Abbey é uma descoberta significativa, sobretudo porque é a primeira no norte de Inglaterra”, diz Don Walker, osteólogo no Museu de Arqueologia de Londres (MOLA), que em 2013 desenterrou uma vala comum da peste de 1348-49 na Charterhouse Square de Londres, durante o desenvolvimento de um projeto ferroviário. Walker acrescenta que “uma análise mais aprofundada ao ADN bacteriano pode contribuir significativamente para os trabalhos recentes que tentam desvendar a forma como a praga evoluiu e se propagou pela Europa, durante e depois da Peste Negra”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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