June Almeida Descobriu os Coronavírus Há Décadas – Mas Não Recebeu o Devido Reconhecimento

A pioneira científica June Almeida está finalmente a ser reconhecida pelos avanços que fez há mais de meio século no campo da virologia.

Thursday, April 30, 2020,
Por Sydney Combs
Nesta fotografia, tirada em 1963, vemos a cientista June Almeida a operar um microscópio eletrónico no ...

Nesta fotografia, tirada em 1963, vemos a cientista June Almeida a operar um microscópio eletrónico no Instituto Oncológico de Ontário, em Toronto, no Canadá. Um ano depois, através de técnicas de microscopia desenvolvidas por si, June tornar-se-ia na primeira pessoa a ver um coronavírus.

Fotografia de NORMAN JAMES, TORONTO STAR/GETTY

Quando June Almeida olhou pelo microscópio eletrónico em 1964, viu um ponto redondo e cinzento coberto por raios minúsculos. June e os seus colegas observaram que os pinos formavam uma auréola em torno do vírus – muito parecida com a coroa do sol.

O que ela viu ficaria conhecido por coronavírus, e June teve um papel fundamental na sua identificação. Este feito foi ainda mais notável porque a cientista de 34 anos nunca concluiu os seus estudos.

Nascida com o nome de June Hart, viveu com a sua família num edifício de apartamentos em Glasgow, na Escócia, onde o seu pai trabalhava como motorista de autocarros. June era uma estudante brilhante, com ambições de frequentar a universidade, mas o dinheiro escasseava. Aos 16 anos, abandonou a escola e começou a trabalhar como técnica de laboratório na Enfermaria Real de Glasgow, onde usava microscópios para ajudar a analisar amostras de tecido.

Quatro coronavírus observados através de um microscópio eletrónico. Para os investigadores, os raios nas extremidades faziam lembrar uma auréola, algo que inspirou o nome corona, ou coroa em latim.

Fotografia de BSIP, UIG/Getty

Depois de mudar de emprego, para um trabalho semelhante, no Hospital de São Bartolomeu, em Londres, June conheceu o homem que viria a ser o seu marido, o artista venezuelano Enriques Almeida. Os dois emigraram para o Canadá e June conseguiu encontrar emprego a trabalhar com microscópios eletrónicos, no Instituto Oncológico de Ontário, em Toronto. E foi aí que desenvolveu novas técnicas de microscopia e publicou vários trabalhos a descrever estruturas de vírus nunca antes vistas.

Uma nova forma de olhar pelo microscópio
A técnica de microscopia desenvolvida por June era simples, mas revolucionária para o campo da virologia.

Quando se trabalha com partículas microscópicas, é difícil saber exatamente o que procurar. Os microscópios eletrónicos projetam um feixe de eletrões numa amostra e depois registam as interações das partículas com a superfície da amostra. Os eletrões têm comprimentos de onda muito mais curtos do que a luz, e isso mostra aos cientistas uma imagem com pormenores muito mais detalhados. O desafio passa por discernir se uma bolha minúscula é um vírus, uma célula ou outra coisa diferente.

Para resolver esta questão, June percebeu que podia usar anticorpos retirados de indivíduos previamente infetados para identificar um vírus. Os anticorpos são atraídos pelos seus homólogos antígenos – portanto, quando June introduzia pequenas partículas revestidas de anticorpos, estes reuniam-se em torno do vírus, revelando a sua presença. Esta técnica permitiu aos médicos utilizar a microscopia eletrónica como uma forma de diagnóstico de infeções virais em pacientes.

June acabaria por identificar diversos vírus, incluindo a rubéola, que pode provocar complicações durante a gravidez. Os cientistas já estudavam a rubéola há décadas, mas June foi a primeira pessoa a ver o vírus.

Descoberta dos coronavírus
À medida que as suas capacidades começaram a ser reconhecidas, June recebeu uma proposta para regressar a Londres, para trabalhar na Faculdade de Medicina do Hospital St. Thomas. Em 1964, foi contratada pelo Dr. David Tyrrell, que supervisionava as investigações na Unidade de Pesquisa de Constipações Comuns, em Salisbury, Wiltshire. A equipa de Tyrrel recolheu amostras de um vírus semelhante ao da gripe – rotulado B814 – de um estudante doente em Surrey. Mas a equipa tinha muita dificuldade em cultivar este vírus no laboratório. Como os métodos tradicionais falharam, os investigadores começaram a suspeitar que o B814 podia ser um novo tipo de vírus. (Existem mais vírus do que estrelas no universo, mas só alguns nos afetam. Porquê?)

Dada a escassez de soluções, Tyrrell enviou amostras para June analisar, na esperança de que as suas técnicas de microscopia conseguissem identificar o vírus. “Não tínhamos grandes expectativas, mas achámos que valia a pena tentar”, escreveu Tyrrell no seu livro Cold Wars: The Fight Against the Common Cold.

Apesar de June ter materiais limitados para trabalhar, as suas descobertas excederam todas as expectativas de Tyrrell. June Almeida não só encontrou e desenvolveu imagens nítidas do vírus, como também se lembrou de ter observado dois vírus semelhantes no início da sua carreira: um enquanto observava bronquite em galinhas, e outro enquanto estudava inflamações no fígado por hepatite em roedores. June escreveu um artigo sobre ambos, mas o seu trabalho foi rejeitado. Os revisores acharam que as imagens eram apenas fotografias de baixa qualidade de partículas do vírus influenza. Mas com a amostra de Tyrrell, June estava confiante de que estava perante um novo grupo de vírus.

Quando June Almeida, David Tyrrell e o supervisor de June se reuniram para debater as suas descobertas, questionaram-se sobre o nome que o novo grupo de vírus devia ter. Depois de examinarem as imagens, ficaram inspirados pela estrutura do vírus, que era semelhante a uma auréola, e decidiram usar a palavra corona, que em latim significa coroa. E assim nasceram os coronavírus.

Expandir a sua visão
June Almeida aposentou-se da virologia em 1985, mas permaneceu ativa e curiosa. Tornou-se instrutora de ioga, aprendeu a restaurar porcelana e desenvolveu um conhecimento vasto sobre antiguidades, algo que ela gostava de procurar com o seu segundo marido, Phillip Gardner, também ele virologista aposentado.

Antes de falecer em 2007, aos 77 anos, June Almeida regressou ao Hospital St. Thomas como consultora e ajudou a publicar algumas das primeiras imagens de alta qualidade do VIH, o vírus da SIDA.

Hugh Pennington, professor emérito de bacteriologia da Universidade de Aberdeen, trabalhou com June Almeida no Hospital St. Thomas e descreve June como sendo a sua mentora. “Ela é sem dúvida uma das melhores cientistas escocesas da sua geração, mas infelizmente nunca foi muito reconhecida”, disse Pennington em entrevista ao The Herald. “Mas, ironicamente, este surto de COVID-19 voltou a colocar o seu trabalho no centro das atenções.”

Atualmente, os investigadores continuam a utilizar as suas técnicas para identificar vírus com rapidez e precisão. Cinquenta e seis anos depois de ter visto um coronavírus pela primeira vez ao microscópio, o trabalho de June Almeida é agora mais relevante do que nunca.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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