Será que o Icónico Telégrafo do Titanic Vai Ser Finalmente Recuperado?

Nova decisão judicial marca a possibilidade de uma empresa privada poder resgatar a máquina que transmitiu os últimos pedidos de ajuda do naufrágio.

Friday, May 29, 2020,
Por Kristin Romey

Ao longo de três horas, na noite de 14 para 15 de abril de 1912, as mensagens transmitidas pelo operador de telégrafo a bordo do R.M.S. Titanic passaram de coisas simples (de um passageiro para um amigo em Nova Iorque: “Olá, rapaz. Jantar contigo hoje à noite em espírito.”) a pedidos mais urgentes (Titanic para R.M.S. Carpathia: “Colidimos com um icebergue.”), até que por fim veio a última mensagem (“Venham depressa. Sala das máquinas quase inundada.”).

Agora, uma juíza federal decidiu que a empresa privada que detém os direitos de resgate do Titanic pode tentar recuperar o telégrafo no interior dos destroços, um ato que o tribunal diz poder “contribuir para o legado deixado pela perda indelével do Titanic, daqueles que sobreviveram e dos que sacrificaram as suas vidas no naufrágio.”

A decisão, proferida no dia 18 de maio por Rebecca Beach Smith, do Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Este da Virgínia, altera uma decisão decretada no ano 2000 por um juiz anterior – decisão que proibia a empresa de resgate RMS Titanic Inc. (RMST) de cortar ou separar peças dos destroços. A remoção do telégrafo, localizado nos aposentos dos oficiais do navio, pode exigir cortes ou furos no casco e a remoção de equipamento nas paredes internas.

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Muitos arqueólogos e representantes de património cultural opuseram-se à remoção de artefactos do Titanic, o local de descanso final para mais de 1500 pessoas.

“Tal como um leão é melhor apreciado nas savanas de África do que num museu, também o aparelho de Marconi conta melhor a sua história e partilha melhor o seu valor onde está”, escreveu num processo judicial David Conlin, chefe do Centro de Recursos Submersos do Serviço Nacional de Parques dos EUA.

Voz do Titanic
O telégrafo a bordo do Titanic era um equipamento avançado para a sua época: um dispositivo de comunicação sem fios desenvolvido por Guglielmo Marconi, pioneiro neste campo. O dispositivo estava localizado na “Suite Marconi”, uma série de três salas no lado bombordo dos aposentos dos oficiais que incluía um beliche, a sala do operador de telégrafo e uma “Sala Silenciosa”, onde estava localizado o transmissor principal do telégrafo.

Guglielmo Marconi (1874–1937) foi pioneiro na comunicação sem fios, e o Titanic foi um dos vários transatlânticos enormes que usou a sua tecnologia de ponta. Nesta imagem vemos Marconi a trabalhar na sala do iate Electra.

Fotografia de Hulton-Deutsch Collection, CORBIS/Getty

A história dos eventos que ocorreram na Suite Marconi – incluindo os esforços heroicos do telegrafista chefe Jack Phillips para transmitir chamadas de emergência aos navios nas proximidades, enquanto as águas geladas do Atlântico lhe cobriam as pernas – ficou famosa pelos relatos do seu assistente, Harold Bride. Phillips foi ao fundo com o navio, mas Harold Bride foi resgatado e partilhou um relato angustiante daquela noite nas páginas do New York Times.

Dê um olhar mais atento aos destroços do Titanic.

O processo interposto pela RMST especula que, se o conjunto motor-gerador e o descarregador de disco do telégrafo forem recuperados da Sala Silenciosa, “é concebível que possa ser restaurado para ficar em condições operacionais e que, com novos componentes, o rádio do Titanic – a voz do Titanic – poderia novamente ser ouvido, agora e para sempre”.

Contenda jurídica
A decisão judicial é o desenvolvimento mais recente de uma disputa que se arrasta há vários anos sobre o destino do lendário naufrágio, que foi descoberto em 1985 por Robert Ballard, Explorador National Geographic. A entidade que eventualmente se tornou na RMST recebeu os direitos de resgate em 1994; e esses direitos foram renovados em 2011 sob um conjunto específico de termos e condições.

Entre 1993 e 2004, a empresa privada recuperou mais de 5 mil artefactos do campo de detritos em torno dos principais destroços do Titanic. Muitos dos itens estão em museus e exposições pelo mundo inteiro.

Como o Titanic está a 3.8 km de profundidade no Atlântico Norte, a recuperação de artefactos exige a utilização de um veículo operado remotamente (ROV) ligado a um navio de pesquisa.

De acordo com uma ação judicial de janeiro de 2020, a RMST planeava usar um ROV para entrar no Titanic através de uma claraboia existente sobre a Suite Marconi, ou através de um furo no casco. O ROV navegaria até à Sala Silenciosa, e um operador no navio manipularia os braços robóticos do veículo para separar os componentes do telégrafo dos destroços.

Os representantes da RMST argumentaram em tribunal que “as novas evidências” – a suposta deterioração acelerada dos destroços – eram suficientes para solicitar uma modificação da ordem judicial de 2000.

O processo de janeiro também informava que os principais componentes do telégrafo de Marconi visados pelo resgate eram o conjunto motor-gerador e o descarregador montado e aparafusado numa placa, no convés de aço, e dois quadros de distribuição e reguladores montados na parede. Ambos na Sala Silenciosa.

Porém, o processo também salientava que estes alvos prioritários “apresentam sérios desafios no seu regaste”. Os três “alvos secundários” – componentes mais pequenos e mais leves do telégrafo de Marconi, também foram identificados para resgate na Sala Silenciosa.

Mas, de acordo com outro processo judicial do início do mês de maio, a RMST prevê que, “com base nas informações atuais... a empresa não vai tentar recuperar o conjunto motor-gerador da Sala Silenciosa, porque está inacessível e seria demasiado arriscado”.

Na sentença de 18 de maio, a juíza Smith salientou que a decisão de 2000 não estava a ser anulada, mas sim alterada para este momento de “oportunidade única” de remoção de artefactos associados ao telégrafo de Marconi. Para além disso, qualquer tentativa de entrar no Titanic para retirar o telégrafo necessita de uma aprovação judicial para um plano de financiamento que visa garantir que a RMST tem dinheiro suficiente não só para recuperar os artefactos, mas também para os conservar e documentar.

A RMST está neste momento a planear uma expedição ao Titanic este verão para recuperar o telégrafo de Marconi.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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