2020 Não é 1968: Para Compreender os Protestos da Atualidade, Precisamos de Olhar Para o Passado

Os conflitos de 2020 não são apenas uma repetição dos problemas do passado; são um novo desenvolvimento na luta pela igualdade.

Wednesday, June 17, 2020,
Por Thomas J. Sugrue
No dia 4 de junho de 2020, em oposição à brutalidade policial e à morte de ...

No dia 4 de junho de 2020, em oposição à brutalidade policial e à morte de George Floyd, manifestantes reuniram-se nas ruas de Nova Iorque.

Fotografia de AMIR HAMJA

O ativista do movimento Poder Negro dos anos 1960, anteriormente conhecido por H. Rap Brown, disse uma vez que “a violência é tão americana quanto a tarte de cereja”.

Nas últimas três semanas, mais de mil manifestações – a maioria pacíficas, apesar de muitas terem acabado em violência – varreram os Estados Unidos. Os protestos foram provocados pela indignação em relação à morte de George Floyd, ato que ficou registado em vídeo. Nas imagens vemos um polícia de Minneapolis a pressionar o joelho contra o pescoço de Floyd durante quase nove minutos, enquanto este estava algemado e deitado de barriga para baixo. Floyd foi um dos cerca de 1000 americanos mortos anualmente pelas forças da autoridade, um número desproporcional para quem, como ele, era afro-americano.

Perscrutando o passado, os observadores procuram comparações entre os protestos da atualidade e o caos de 1968. Mas as raízes dos eventos de 2020 são muito mais profundas do que os últimos 100 anos de história americana, que foram pontuados por distúrbios raciais, massacres e confrontos entre a polícia e afro-americanos. No século XX, a partir de 1919, assistimos a três grandes vagas de revolta por todo o país, movimentos que revelam não só o nascimento e crescimento da luta pela igualdade racial, mas também o que mudou e o que permanece na mesma.

Esquerda: Em julho de 1967, o espancamento de um taxista negro às mãos de polícias brancos incitou um motim que durou seis dias em Newark, Nova Jersey, levando ao destacamento da Guarda Nacional.
Direita: Mais de 50 anos depois, manifestantes saem às ruas de Nova Iorque com os punhos erguidos, com cartazes e telemóveis para se expressarem contra a morte de George Floyd, evento que teve alguns contornos semelhantes.

Fotografia de MEL FINKELSTEIN, NY DAILY NEWS ARCHIVE/GETTY IMAGES (ESQUERDA) E KICK JAMES (DIREITA)

Verão Vermelho
A primeira vaga surgiu no início do século XX, culminando no chamado Verão Vermelho de 1919, quando o país ainda estava a recuperar da Primeira Guerra Mundial, e quando estava amargamente dividido por tensões raciais, diferenças de género e pelo fervor anti-imigração – e devastado por uma epidemia mortal de gripe. Naquele ano, registaram-se dezenas de confrontos raciais violentos em pelo menos 25 cidades, incluindo cidades mais pequenas como Elaine, no Arkansas, e Bisbee, no Arizona, e em grandes cidades como Omaha, Nebraska, Chicago, Illinois e Washington D.C. Nesta primeira vaga, centenas de milhares de afro-americanos estavam a deslocar-se para norte, naquela que viria a ser conhecida pela Grande Migração. Muitos iam à procura dos empregos criados pelo dinheiro esbanjado em tempos de guerra, mas também fugiam da violência e da opressão da antiga Confederação.

Em 1921, com a cumplicidade da polícia local, vários grupos de homens brancos incendiaram Tulsa, o distrito comercial negro de Oklahoma, conhecido por Black Wall Street, matando cerca de 300 pessoas e deixando quase toda a população negra da cidade sem teto. Em muitos destes massacres e tumultos, a polícia fechou os olhos à violência gerada pelos brancos e, em vez disso, prendeu os afro-americanos por se defenderem.

A tensão entre veteranos brancos e afro-americanos da Primeira Guerra Mundial foi uma das razões subjacentes ao Verão Vermelho de 1919. Em Chicago, a milícia estadual foi convocada para policiar os motins.

Fotografia de Chicago Tribune, Getty Images

Esquerda: O Motim Racial de Chicago de 1919 foi um dos mais devastadores do Verão Vermelho. Prolongando-se ao longo de 13 dias, ceifou a vida a 38 pessoas e feriu 537. Nesta imagem, um grupo armado de homens brancos persegue um homem afro-americano.
Direita: Durante o motim, os homens brancos incendiaram dezenas de lares afro-americanos, deixando mais de mil pessoas sem abrigo.

Fotografia de JUN FUJITA, CHICAGO HISTORY MUSEUM/GETTY IMAGES (ESQUERDA) E BETTMANN ARCHIVE, GETTY IMAGES (DIREITA)

Nas décadas de 1920 e 1930, para responder a estas táticas brutais, os afro-americanos investiram a sua energia na criação de organizações dos direitos civis. A Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor (NAACP), fundada em 1909, alargou a sua campanha nacional pela justiça racial e criou uma das organizações com mais membros no país, com 500 mil participantes em 1945. Milhões de afro-americanos – no norte urbano e no sul rural – congregaram em organizações que promoviam o orgulho racial e a autodeterminação, com destaque para a Associação Universal para o Progresso dos Negros, liderada por Marcus Garvey. Fortalecidos pelo direito ao voto (um direito sonegado aos negros através da supressão de eleitores em grande parte do sul), os afro-americanos nas cidades do norte começaram a exercer a sua influência eleitoral.

Lutar contra o racismo no estrangeiro... e em casa
A segunda vaga de protestos e violência racial aconteceu durante os anos perturbadores da Depressão e da Segunda Guerra Mundial. Em 1941, quando o líder dos direitos civis e trabalhista A. Philip Randolph ameaçou fazer uma marcha em Washington, para exigir que o governo federal criasse empregos em tempos de guerra para os afro-americanos, o presidente Franklin Roosevelt sucumbiu à pressão e assinou uma ordem que deu origem ao Comité de Práticas Justas de Emprego. A hipocrisia do racismo, num país que estava a travar uma guerra mundial pela democracia, alimentou a revolta entre muitos afro-americanos e desencadeou um dos períodos mais intensos de todos os tempos de organização política negra e oposição branca.

Durante a guerra, numa segunda vaga da Grande Migração, centenas de milhares de trabalhadores negros mudaram-se para norte e oeste, encontrando empregos em fábricas de aeronaves e estaleiros. Os jornais direcionados para as comunidades afro-americanas, liderados pelo Pittsburgh Courier, divulgaram a discriminação racial e a violência, e lançaram a campanha Duplo V – pela vitória contra o fascismo no estrangeiro e contra a supremacia branca nos EUA.

Em agosto de 1944, os manifestantes marcharam em apoio à decisão da companhia de transportes de Filadélfia que, depois dos funcionários brancos terem entrado em greve, permitiu aos homens negros conduzir elétricos. Muitos dos manifestantes apelaram às experiências vividas pelos afro-americanos na Segunda Guerra Mundial: “Nós conduzimos tanques. Porque é que não podemos conduzir elétricos?”

Fotografia de John W. Mosley Photograph Collection, Temple University Libraries

Esquerda: No dia 21 de junho de 1943, uma multidão de brancos revoltou-se e provocou distúrbios. Durante 24 horas, Detroit, no Michigan, assistiu a um dos piores motins raciais da segunda vaga, resultando na morte de 25 negros (17 dos quais foram mortos pela polícia) e 9 brancos.
Direita: Durante os motins de Detroit, um homem branco atacou um homem negro que estava sob custódia policial.

Fotografia de AP

Em 1943, no Alabama e em Detroit, os brancos, receosos com o crescimento da militância negra e da concorrência pelos empregos e habitação, assolaram bairros afro-americanos e atacaram trabalhadores negros, uma repetição do que acontecera no Verão Vermelho de 1919. Naquele ano, registaram-se mais de 240 distúrbios raciais nos Estados Unidos. Os afro-americanos não eram os únicos alvos; nesse mesmo ano, em Los Angeles, multidões de homens brancos, revoltados contra uma nova ameaça racial, atacaram jovens mexicano-americanos. Em todas estas cidades a polícia tomou o partido dos manifestantes brancos.

Durante e após a Segunda Guerra Mundial os afro-americanos protestaram ativamente – tanto de forma pacífica como violenta – contra o racismo e a brutalidade policial. O bairro de Harlem, na cidade de Nova Iorque, era um centro de ativismo pelos direitos civis. Em agosto de 1943, depois de um polícia branco ter disparado contra o soldado Robert Bandy, afro-americano que estava de licença, multidões de negros indignados com a brutalidade policial partiram as vitrines de lojas e entraram em confronto com a polícia. Durante a guerra, em Birmingham, no Alabama, os afro-americanos resistiram ao tratamento de segunda classe com que lidavam nos autocarros da cidade e entraram em confronto com os motoristas, passageiros e polícias brancos. Em 1943 e 1944, os ativistas dos direitos civis de Chicago organizaram protestos nos restaurantes que se recusavam a servir clientes negros. Entre os tempos de guerra e meados da década de 1960, estes protestos transformaram-se num movimento nacional.

Os tumultuosos anos 60
Entre 1963 e 1968, alimentada pelo crescimento do movimento dos direitos civis, uma terceira e enorme vaga de revoltas urbanas varreu o país. Os protestos surgiram das raízes com várias décadas de organizações contra a segregação racial e discriminação no emprego, na habitação, nos transportes e comércio – tanto no norte como no sul.

Em 1963, Martin Luther King Jr. e a Conferência da Liderança Cristã do Sul marcharam em Birmingham, no Alabama, exigindo o fim da segregação nas lojas, nos restaurantes, nas casas de banho e bebedouros públicos. Numa demonstração violenta de força, Eugene “Bull” Connor, comissário de segurança pública de Birmingham, ordenou aos polícias e bombeiros que usassem os cães de guarda e as mangueiras de incêndio contra os manifestantes pacíficos, muitos deles em idade escolar. Para retaliar contra esta brutalidade, os negros revoltados invadiram o distrito comercial da cidade alegando autodefesa. Muitas vezes, quando as manifestações pacíficas não atingiam os objetivos desejados e as forças da lei recorriam à violência para reprimir a dissidência, os manifestantes adotavam táticas mais disruptivas.

No dia 28 de março de 1968, as baionetas apontadas e a presença de tanques ameaçavam os manifestantes durante a Greve dos Trabalhadores do Saneamento de Memphis. No dia 3 de abril, Martin Luther King Jr. iria viajar para o Tennessee, para demonstrar o seu apoio à greve. Martin Luther King seria assassinado no dia seguinte.

Fotografia de Bettmann Archives, Getty Images

Esquerda: Em julho de 1967, durante os Motins Raciais de Newark, os empresários afro-americanos, como o dono desta loja, apelaram à solidariedade racial para proteger os seus negócios.
Direita: Os protestos pacíficos, como este em Birmingham, no Alabama, foram recebidos com respostas violentas por parte da polícia. Em 1963, foram disparados canhões de água contra jovens afro-americanos durante um protesto contra a segregação, protesto organizado pelo Reverendo Dr. Martin Luther King Jr. e pelo Reverendo Fred Shuttlesworth.

Fotografia de HARRY BENSON, EXPRESS, GETTY IMAGES (ESQUERDA) E FRANK ROCKSTROH, MICHAEL OCHS ARCHIVES/GETTY IMAGES (DIREITA)

Este padrão seria repetido centenas de vezes nos anos que se seguiram, incentivado pelo crescente movimento do Poder Negro, que exigia orgulho negro, autodefesa contra ataques racistas e autodeterminação. As cidades de Filadélfia, Harlem e Rochester foram incendiadas em 1964; Los Angeles em 1965; e Chicago e outras cidades em 1966, culminando no “Longo Verão Quente” de julho de 1967, quando 163 cidades eclodiram em motins violentos contra a brutalidade policial e contra a indiferença para com o sofrimento dos negros.

Os afro-americanos incendiaram e pilharam lojas e enfrentaram represálias violentas por parte das forças policiais – que na sua maioria eram compostas por brancos. Em Newark, Nova Jersey, morreram 34 pessoas, 23 às mãos da polícia. Em Detroit, morreram 43 pessoas, a maioria baleada por cerca de 17 mil polícias, pela Guarda Nacional e pelo exército que foi enviado para acabar com a rebelião. Em abril de 1968, a tristeza e revolta pelo assassinato de Martin Luther King Jr. transformaram-se em motins que deixaram mais de 100 cidades em chamas.

Os únicos brancos nas ruas, e em número considerável, eram os polícias que alimentavam as chamas do descontentamento ao espancarem e dispararem contra os manifestantes. Muitos americanos brancos – incluindo os candidatos à presidência Richard M. Nixon e George Wallace – louvaram a polícia. Os que simpatizavam com a causa dos negros incluíam membros proeminentes da bipartidária Comissão Kerner, criada pelo presidente Lyndon B. Johnson para investigar as causas dos motins da década de 1960. Os seus 11 membros, incluindo o único senador negro dos EUA, Edward Brooke (R-Mass), e o diretor executivo da NAACP, Roy Wilkins, publicaram um best-seller onde concluíam que, para muitos dos negros, “a polícia tinha passado a simbolizar o poder branco, o racismo branco, e a repressão branca”.

Mudar o rosto dos protestos
Nas décadas que se seguiram a 1968, os surtos de protestos e conflitos foram geograficamente mais isolados, mas as suas causas e revolta eram um prenúncio para os eventos de 2020. Em 1992, Los Angeles assistiu a protestos e motins violentos após a absolvição dos polícias brancos que foram captados em vídeo a espancar brutalmente o motorista negro Rodney King. Vinte anos depois, a morte de mais afro-americanos às mãos da polícia provocou a indignação pública, protestos e também ataques a negócios geridos por brancos. Ativistas de todo o país uniram-se livremente ao movimento Black Lives Matter, fundado em 2013 por Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi em resposta à absolvição de um homem da Flórida que disparou fatalmente contra um desarmado Trayvon Martin, um estudante negro de 17 anos de idade. Martin estava a visitar familiares num condomínio fechado. O movimento Black Lives Matter usa as manifestações, as redes sociais e a publicidade para colocar a nu a violência policial contra os afro-americanos.

Desde o dia 25 de maio de 2020, dia da morte de George Floyd, os protestos começaram em Minneapolis, onde Floyd morreu, passaram pelos 50 estados norte-americanos e alastraram-se pelo mundo inteiro. Nesta imagem vemos Kingmil Miceus, um dos manifestantes presentes em Nyack, na cidade de Nova Iorque.

Fotografia de AL J THOMPSON

Nalguns aspetos, os protestos de 2020 fazem lembrar os de 1919, 1943 e 1968, ou seja, originam de ódios ferventes que foram semeados durante muito tempo por uma história de violência inflamada por homens brancos. E também pela brutalidade policial que ceifa anualmente centenas de vidas de negros, incluindo a vida de Floyd, de Breonna Taylor e Ahmaud Arbery, três das vítimas mais recentes. De acordo com os relatórios preliminares, muitos dos protestos de 2020 foram pacíficos, e só uma pequena fração é que eclodiu em violência.

Mas agora, mais do que nunca, as manifestações são visivelmente inter-raciais – afro-americanos, asiáticos, latino-americanos e rostos brancos, cobertos por máscaras para impedir a propagação de COVID-19, aparecem nos centros das cidades, enchem pontes, estradas e reúnem-se em frente à Casa Branca. Isto sugere uma nova fase de oposição que une grupos que nunca tiveram muito em comum durante grande parte da história americana. Nas manifestações que resultam em conflitos, as pessoas que vemos agredidas com gás lacrimogéneo, ou que são baleadas com balas de borracha, são de todas as raças e estatutos sociais.

Esquerda: Em Minneapolis, pouco depois da morte de Floyd, a polícia disparou gás lacrimogéneo contra os manifestantes que estavam junto à 3ª Esquadra de Polícia da cidade. Tal como aconteceu com os protestos do passado, a violência e as pilhagens surgiram em algumas das manifestações de 2020.
Direita: Na cidade de Nova Iorque a fúria foi direcionada para as grandes cadeias de lojas e para os bairros mais ricos da cidade, uma alteração em relação aos tumultos das décadas passadas.

Fotografia de STEPHEN MATUREN, GETTY IMAGES (ESQUERDA) E AMIR HAMJA (DIREITA)

Em 2020, a geografia da violência e das pilhagens também parece diferente. Os confrontos do passado aconteciam maioritariamente em bairros negros; hoje, começam e propagam-se pelas zonas mais ricas e pelos centros comerciais  suburbanos. Os saqueadores têm agora como alvo as grandes cadeias de lojas nos bairros mais ricos, como Rodeo Drive em Beverly Hills, Soho em Nova Iorque e Buckhead em Atlanta. Ainda não é possível compreender na totalidade o significado de manifestantes que tanto pintam grafítis que dizem “As Vidas dos Negros Importam” e “Comam os Ricos”, mas com níveis avassaladores de desemprego e com uma injustiça racial persistente, podemos estar perante algo que tem tanto de antigo como de novo.

No passado, os protestos tinham muitas vezes pessoas de raças diferentes em lados opostos. No dia 1 de junho de 2020, manifestantes de todas as raças, com máscaras como forma de precaução contra a COVID-19, reuniram-se na cidade de Nova Iorque.

Fotografia de Amir Hamja

A solidariedade entre os manifestantes da atualidade transcende as divisões raciais sangrentas do passado e pode ser um trampolim para reformas mais amplas. A morte de George Floyd provocou um movimento global, com estátuas de proprietários de escravos a serem demolidas desde Bristol, em Inglaterra, a Richmond, nos EUA; os manifestantes ajoelharam-se em Seattle, no Rio de Janeiro e em Roma; e as autoridades norte-americanas estão a debater se devem alterar ou reconstruir as suas forças policiais de raiz.

Resta saber se as manifestações de 2020 conseguem resolver as questões de longa data de injustiça racial que foram repetidamente invocadas nas ruas dos Estados Unidos, mas quando todas as raças marcham juntas, em vez de se confrontarem, o arco da história pode estar novamente a inclinar-se em direção à justiça.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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