ADN dos Cananeus da Bíblia Vive nos Árabes e Judeus da Atualidade

Um novo estudo sobre ADN antigo traça a herança surpreendente deste povo misterioso da Idade do Bronze.

Wednesday, June 3, 2020,
Por Andrew Lawler
Tel Megiddo foi uma importante cidade-estado cananeia durante a Idade do Bronze, entre 3500 a.C. e ...

Tel Megiddo foi uma importante cidade-estado cananeia durante a Idade do Bronze, entre 3500 a.C. e 1200 a.C. As análises de ADN revelam que a população desta cidade incluía migrantes das montanhas distantes do Cáucaso.

Fotografia de Megiddo Expedition

Este povo era conhecido por viver “numa terra onde fluía leite e mel”, até que foi conquistado pelos antigos israelitas e desapareceu da história. Mas um relatório científico, publicado no dia 28 de maio, revela que a herança genética dos cananeus sobrevive em muitos dos judeus e árabes da atualidade.

O estudo, publicado na Cell, também demonstra que os migrantes das montanhas distantes do Cáucaso se misturaram com a população indígena para forjar a singular cultura cananeia que dominou a região entre o Egito e a Mesopotâmia durante a Idade do Bronze, entre 3500 a.C. até 1200 a.C.

A equipa do estudo extraiu ADN antigo de ossos de 73 indivíduos que foram enterrados ao longo de 1.500 anos em cinco locais cananeus espalhados por Israel e pela Jordânia. A equipa também levou em consideração os dados de mais 20 indivíduos de quatro sítios previamente conhecidos.

“Os indivíduos de todos os sítios têm semelhanças genéticas enormes”, diz Liran Carmel, um dos coautores do trabalho e evolucionista molecular da Universidade Hebraica de Jerusalém. Portanto, apesar de os cananeus terem vivido em cidades-estado longínquas e de nunca se terem juntado a um império, partilhavam genes e uma cultura em comum.

Os investigadores também compararam este ADN antigo com o de populações modernas e descobriram que a maioria dos grupos árabes e judeus da região deve mais de metade do seu ADN aos cananeus e a outros povos que viveram no Próximo Oriente Antigo – uma região que abrange grande parte do moderno Levante, o Cáucaso e o Irão.

Um arqueólogo desenterra o crânio de um habitante de Sídon, um porto cananeu outrora próspero na costa do Líbano. Este indivíduo viveu por volta de 1800 a.C.

Fotografia de Mahmoud Zayat, AFP/Getty

O estudo – um esforço conjunto entre o laboratório de Carmel, o antigo laboratório de ADN da Universidade de Harvard chefiado pelo geneticista David Reich e por outros grupos – foi de longe o maior do seu género feito na região. Estas descobertas são as mais recentes de uma série de avanços na nossa compreensão sobre um povo misterioso que deixou para trás poucos registos escritos.

Marc Haber, geneticista do Instituto Sanger do Wellcome Trust, em Hinxton, no Reino Unido, coliderou um estudo feito em 2017 sobre cinco indivíduos cananeus na cidade costeira de Sídon. Os resultados revelaram que os libaneses da atualidade devem mais de 90% da sua ascendência genética aos cananeus.

“Ladrões e cananeus”
Há cerca de 4.500 anos, enquanto os egípcios construíam pirâmides e os mesopotâmicos construíam zigurates, os cananeus começaram a desenvolver vilas e cidades entre estas enormes potências. Este povo aparece pela primeira vez no registo histórico por volta de 1800 a.C., quando o rei da cidade-estado de Mari, onde hoje fica o leste da Síria, se queixou de “ladrões e cananeus”.

A correspondência diplomática, escrita cinco séculos depois, menciona vários reis cananeus que muitas vezes lutaram para se manterem independentes do Egito. “A terra de Canaã é a sua terra e os reis dessa terra são os seus servos”, reconheceu um monarca babilónico numa carta enviada ao faraó egípcio Aquenáton.

Os textos bíblicos, escritos muitos séculos depois, insistem que Javé prometeu a terra de Canaã aos israelitas, depois de escaparem do Egito. As escrituras judaicas dizem que os recém-chegados eventualmente triunfaram, mas as evidências arqueológicas não mostram uma destruição generalizada das populações cananeias. Em vez disso, este povo parece ter sido gradualmente dominado por invasores posteriores, como os filisteus, os gregos e os romanos.

Esta tigela vermelha e preta de cerâmica, que data de cerca de 2500 a.C., foi encontrada nas montanhas do Cáucaso, bem como em locais cananeus, muito longe a sudoeste.

Fotografia de David Wengrow

Os cananeus falavam uma língua semita e também se pensava que descendiam de populações anteriores que se estabeleceram na região milhares de anos antes. Mas os arqueólogos ficaram intrigados com as peças vermelhas e pretas de cerâmica descobertas em locais cananeus, que se assemelham muito à cerâmica encontrada nas montanhas do Cáucaso, a cerca de 1.200 km a noroeste. Os historiadores também observaram que muitos dos nomes cananeus derivam da língua hurrita, um idioma não-semita originário do Cáucaso.

Não se sabia se isto se devia ao comércio de longa distância ou a uma migração. Mas o novo estudo demonstra que um número significativo de pessoas, e não apenas mercadorias, se movimentou durante a primeira era de cidades e impérios da humanidade. Os genes dos indivíduos cananeus provaram ser uma mistura entre pessoas neolíticas locais e migrantes do Cáucaso, que começaram a aparecer na região por volta do início da Idade do Bronze.

Carmel acrescenta que a migração não parece ter sido apenas um evento único e que “pode ter envolvido várias vagas ao longo da Idade do Bronze”.

Por exemplo, um irmão e uma irmã que viveram por volta de 1500 a.C., em Megido, onde atualmente fica o norte de Israel, pertenciam a uma família que tinha migrado relativamente há pouco tempo para a região vinda do nordeste. A equipa também observou que os indivíduos presentes em dois locais costeiros – Ascalão em Israel e Sídon no Líbano – mostram um pouco mais de diversidade genética. Isto pode ser o resultado das ligações comerciais mais amplas das cidades portuárias no Mediterrâneo, ao contrário do que acontecia com as povoações no interior.

Localizada onde agora fica o norte de Israel, Tel Megiddo também é conhecida pelo seu nome grego, Armagedão.

Fotografia de Greg Girard, Nat Geo Image Collection

Glenn Schwartz, arqueólogo da Universidade Johns Hopkins que não participou no estudo, disse que os dados biológicos fornecem informações importantes sobre a forma como os cananeus partilhavam um número notável de genes e características culturais. Haber, do Wellcome Trust, diz que a quantidade de resultados de ADN é particularmente impressionante, dada a dificuldade em extrair amostras de ossos antigos enterrados num clima tão quente – porque pode degradar rapidamente o material genético.

Quem chegou primeiro?
Tanto os políticos israelitas como os palestinianos alegam que a região de Israel e os territórios palestinianos são o lar ancestral do seu povo, e sustentam que o outro grupo chegou mais tarde. “Somos os cananeus”, afirmou no ano passado o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. “Esta terra pertence ao nosso povo... que esteve aqui há 5 mil anos.” Enquanto isso, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu disse recentemente que os antepassados dos palestinianos modernos “vieram da península arábica para a terra de Israel há milhares de anos”, depois dos israelitas.

O novo estudo sugere que, apesar das alterações tumultuosas que aconteceram na região desde a Idade do Bronze, “os atuais habitantes da região são, em grande parte, descendentes dos seus antigos habitantes”, conclui Schwartz – embora Carmel acrescente que existem vestígios de alterações demográficas posteriores.

Carmel espera conseguir expandir em breve estas descobertas através da recolha de ADN dos restos mortais de pessoas que podem ser identificadas como sendo da Judeia, Moabitas, Amonitas e de outros grupos mencionados na Bíblia e noutros textos.

“Podemos analisar ‘cananeu’ por oposição aos indivíduos ‘israelitas’”, acrescenta a arqueóloga Mary Ellen Buck, que escreveu um livro sobre os cananeus. “A Bíblia afirma que estes grupos eram distintos e antagónicos, mas há razões para acreditar que estavam intimamente relacionados.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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