Como Vão Terminar os Protestos nos EUA? A História Diz-nos que Depende da Resposta do Governo.

Os longos e quentes verões de protestos da década de 1960 oferecem uma lição sobre oportunidades falhadas.

Friday, June 19, 2020,
Por Peniel E. Joseph
Em 1963, durante os protestos em Birmingham, no Alabama, os manifestantes perceberam que se podiam agarrar ...

Em 1963, durante os protestos em Birmingham, no Alabama, os manifestantes perceberam que se podiam agarrar uns aos outros em grupo e usar a força combinada para resistir à pressão das mangueiras de incêndio.

Fotografia de Bob Adelman Estate

A América está em chamas, e todos sabemos como começou. No dia 25 de maio, George Floyd, um negro de 46 anos, morreu já sob custódia policial em Minneapolis, desencadeando manifestações políticas que se espalharam por pelo menos 140 cidades dos Estados Unidos e que ainda continuam.

Mas a forma como tudo vai terminar permanece uma questão em aberto. A Guarda Nacional foi destacada para conter os surtos de violência em muitos estados e o presidente Donald Trump pediu a intervenção militar, inflamando um clima racial já de si volátil. Entretanto, os protestos foram crescendo e tornaram-se mais pacíficos. (Descubra o que as armas “não letais” podem fazer ao corpo humano.)

Os protestos contra a injustiça e repressão raciais têm uma longa história nos EUA. Examinar as respostas nacionais e governamentais dadas noutras eras de agitação racial, sobretudo durante os “longos e quentes verões” de 1963 até 1968, pode ajudar-nos a perceber o que se segue – e eventualmente colocar-nos numa direção em que terminamos de uma vez por todas com este trágico ciclo de violência.

Em Seattle, pouco depois da meia-noite de 8 de junho de 2020, a polícia e a Guarda Nacional de Washington dirigiram-se para um cruzamento e entraram em conflito com as pessoas que protestavam contra a morte de George Floyd, afro-americano que morreu sob custódia policial em Minneapolis.

Fotografia de David Ryder/Getty Images

No dia 6 de junho de 2020, os manifestantes marcharam pela Pennsylvania Avenue, em Washington D.C., para protestarem contra a brutalidade policial e contra o racismo.

Fotografia de Drew Angerer, Getty Images

Tal como os protestos pela morte de George Floyd, também as manifestações na década de 1960 estavam enraizadas na procura por cidadania e dignidade dos negros, tendo como pano de fundo um racismo institucional, segregação, discriminação e violência.

Os protestos de antigamente – e os atuais – exigiam as mesmas coisas: que o país cumprisse as suas promessas. Na sua “Carta de uma cadeia em Birmingham”, o reverendo Martin Luther King Jr. caracterizava os protestos afro-americanos que assolaram a cidade em 1963 como um apelo à nação para “regressar aos grandes poços da democracia perfurados pelos pais fundadores”.

No dia 11 de junho desse mesmo ano, através de um discurso emitido pela televisão para toda a nação, o presidente Kennedy disse que o resultado da “revolução” seria violento ou pacífico, dependendo da resposta do governo – tal como acontece agora. “Os que não fizerem nada, estão a abrir a porta à vergonha e à violência”, disse Kennedy. “Os que agirem de forma ousada, reconhecem o que está correto e a realidade.” Depois do assassinato de Kennedy, o presidente Lyndon Johnson lançou o programa Grande Sociedade, um programa que se basearia nas políticas de combate à pobreza e no bem-estar social estabelecidas pelo Novo Acordo. Os ativistas dos direitos civis, principalmente Martin Luther King, apoiaram o programa com entusiasmo.

Duas raparigas fogem da polícia em Bedford-Stuyvesant, um bairro da cidade de Nova Iorque que se juntou à revolta urbana iniciada no bairro de Harlem no dia 16 de julho de 1964.

Fotografia de Bettmann, Getty Images

Um polícia bloqueia a porta de um bar destruído durante a revolta no bairro de Harlem, uma revolta que começou como protesto contra a brutalidade policial.

Fotografia de AFP via Getty Images

Mas o programa Grande Sociedade não abordava alguns dos problemas raciais intratáveis que assolavam o país e que desencadearam rebeliões urbanas em Nova Iorque, no bairro de Harlem, em 1964, e em Los Angeles, no bairro de Watts, em 1965. Nestas duas localidades, os polícias predominantemente brancos patrulhavam exaustivamente os bairros afro-americanos, levando à brutalidade policial – uma situação contra a qual tanto King como Malcolm X se tinham insurgido.

Harlem: Adolescente morto
Em 1964, o bairro de Harlem ainda tinha muita da vitalidade cultural – os clubes de jazz e a literatura – que tinha alimentado o Renascimento de Harlem durante a década de 1920. Mas este bairro da cidade de Nova Iorque também estava marcado pela pobreza, pelo desinvestimento, pelas habitações deterioradas e pelas relações tensas entre os habitantes e a força policial composta maioritariamente por homens brancos.

No dia 16 de julho de 1964, estas tensões atingiram um ponto de ebulição – quando um polícia branco disparou sobre James Powell, um afro-americano de 15 anos. A morte de Powell transformou o bairro de Harlem num campo de batalha, com confrontos entre os habitantes, que atiravam garrafas e pedras, e a polícia, que por vezes atacava indiscriminadamente os manifestantes e também os transeuntes inocentes. Este motim prolongou-se durante seis dias.

As consequências imediatas desta rebelião urbana em Harlem pareciam promissoras. Os planos do governo federal para garantir fundos anti-pobreza aceleraram. A Lei de Oportunidades Económicas, uma lei aprovada um mês depois que estava integrada no programa Grande Sociedade e no programa de Guerra Contra a Pobreza do presidente Johnson, parecia um bom presságio para a recuperação do bairro – e da cidade de Nova Iorque. E os programas de educação infantil, de nutrição e pós-escolares receberam financiamento.

A Guarda Nacional alinhou homens negros contra um edifício em Watts, um bairro de Los Angeles, durante a vaga de protestos contra a brutalidade policial em agosto de 1965.

Fotografia de Hulton Archive, Getty Images

Esquerda: A rebelião de Watts estendeu-se ao longo de 75 quilómetros. Cerca de 14 mil agentes da autoridade convergiram para o sudeste de Los Angeles, detendo pelo menos 4 mil pessoas.
Direita: A.Z. Smith verifica os estragos na sua barbearia em Watts. Por todo o bairro, os danos materiais atingiram prejuízos estimados em cerca de 40 milhões de dólares.

Fotografia de J. R. EYERMAN / THE LIFE IMAGES COLLECTION VIA GETTY IMAGES (ESQUERDA) E ASSOCIATED PRESS (DIREITA)

Uma semana depois dos tumultos terem começado em Watts, Martin Luther King Jr. disse aos habitantes do bairro que estava lá para os apoiar, porque eles também o tinham apoiado no sul.

Fotografia de Bettmann, Getty Images

Mas a esperança em construir um novo Harlem revitalizado fracassou. A necessidade extrema de investimento económico no bairro provou ser demasiado grande para a vontade política e para os recursos limitados da época – uma época em que se esbanjou muito mais dinheiro na Guerra do Vietname do que no combate à pobreza. A revitalização acabou por chegar a Harlem, mas sob a forma de especulação imobiliária, que tem sido tanto uma bênção como uma maldição para os seus habitantes.

Watts: Uma operação stop contenciosa
Pouco mais de um ano depois, no dia 11 de agosto de 1965, o bairro de Watts explodiu. Uma mistura de fatores semelhantes – pobreza, segregação racial e brutalidade policial – desencadeou vários protestos e desordem civil neste bairro de Los Angeles. Cerca de 98% dos habitantes de Watts eram afro-americanos; e 30% não tinham emprego. Ao longo de décadas de abuso, o Departamento de Polícia de Los Angeles ficou com uma reputação de violência, de racismo e com a reputação de que tinha a propensão para usar força excessiva contra a comunidade negra.

Tudo isto veio à tona cinco dias depois da aprovação da Lei do Direito ao Voto, quando a polícia mandou parar um motorista negro, chamado Marquette Frye, que as autoridades suspeitavam estar a conduzir embriagado. Uma multidão inquieta viu a polícia a prender Frye, o seu irmão e a sua mãe. Em menos de uma hora, começou uma rebelião urbana que iria durar uma semana inteira.

A zona de tumultos e violência estendeu-se ao longo de 75 quilómetros e levou ao destacamento de 14 mil polícias, incluindo o Departamento de Polícia de Los Angeles, a Patrulha Rodoviária da Califórnia e a Guarda Nacional. Os distúrbios deixaram no seu rescaldo 34 mortos, 1000 feridos, pelo menos 4000 detidos e prejuízos materiais na ordem dos 40 milhões de dólares. Os danos provaram ser maciços, generalizados e duradouros. Certas partes de Los Angeles ainda não recuperaram por completo.

No 16º dia de manifestações contra a morte de George Floyd, protestos que se estenderam por todo o país, os manifestantes bloquearam a Quinta Avenida na cidade de Nova Iorque.

Fotografia de David Dee Delgado, Getty Images

Depois disso, o presidente Johnson injetou fundos de emergência anti-pobreza em Los Angeles, um tópico que o presidente debateu com Martin Luther King num dos últimos telefonemas que fizeram e que foram gravados em segredo. Contudo, em público, o presidente criticou os distúrbios e a violência como sendo externos aos direitos civis, e disse que os saqueadores eram antitéticos à causa da justiça racial.

Tal como acontecera no bairro de Harlem, também os esforços federais para revitalizar o bairro de Watts revelaram ser de curta duração, amplamente ineficazes e de recursos limitados. Os membros da comunidade tentaram criar alianças políticas entre os líderes dos gangues, ativistas do Poder Negro, organizações dos direitos civis e grupos religiosos e civis. Mas os esforços locais para apoiar as artes afro-americanas, a dispersão de gangues, os campos de jogos, a integração escolar e o investimento seguro nas pequenas empresas não obtiveram o financiamento suficiente. As prioridades do governo federal tinham mudado.

Pela forma como a história foi veiculada na comunicação social, a rebelião de Watts foi um fracasso na agenda do programa Grande Sociedade de Johnson. Esta narrativa facilitou a ascensão de Ronald Reagan, que foi eleito governador da Califórnia em 1966, e alimentou um movimento político conservador mais interessado no controlo do crime do que na erradicação das raízes de agitação racial. O presidente Johnson reconheceu que estava do lado derrotado de uma guerra política de desgaste, e o Congresso estava mais interessado em apoiar os esforços de guerra no Vietname, algo que ambas as partes consideravam mais vital para o futuro da democracia, do que os esforços contra a pobreza. E um número cada vez maior de republicanos e democratas acreditava que estes esforços limitavam a iniciativa individual e incitavam a criminalidade.

A questão de saber se a Grande Sociedade dos EUA centralizaria a justiça racial e económica, ou se criminalizaria as comunidades negras, seria respondida em 1968 com o Projeto de Lei sobre Ruas Livres de Crime. Este projeto colocou pela primeira vez o governo federal a financiar cada estado com recursos anticrime, transformando a guerra contra a pobreza numa guerra contra o crime.

Ao contrário do programa Grande Sociedade, esta guerra persistiu, criminalizando com sucesso muito mais afro-americanos do que se poderia imaginar. Este sistema desigual de justiça afeta o emprego, a habitação, a educação e o bem-estar social de dezenas de milhões de afro-americanos, e dá origem ao luto, ao trauma e ao sofrimento que inevitavelmente eclode numa instabilidade política nacional.

Os protestos contra a morte de George Floyd representam outro ponto de inflexão importante na história dos EUA. Os americanos de todas as raças e estatutos socioeconómicos têm uma oportunidade geracional de escolher o amor em detrimento do medo, a “Comunidade Amada” de Martin Luther King em detrimento da “Lei e Ordem”, o investimento em bairros negros racialmente segregados e economicamente empobrecidos em detrimento das punições, vigilância e detenções de negros. Nós, enquanto americanos, fizemos más escolhas no passado, como Harlem e Watts revelam, e seguimos sempre pelo caminho errado. Por isso, tal como fizemos em 1968, agora temos uma importante escolha moral e política para fazer. Eu escolho a esperança.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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