Uma das Maiores Gravuras Rupestres do Mundo Encontrada em Foz Côa

No Vale do Côa foi descoberto um novo tesouro da arte paleolítica: uma das maiores gravuras rupestres do mundo - um achado arqueológico no sítio do Fariseu.

Tuesday, June 16, 2020,
Por National Geographic
O painel ao ar livre onde foram encontradas várias figuras possui mais de 6 metros de comprimento. 

O painel ao ar livre onde foram encontradas várias figuras possui mais de 6 metros de comprimento. 

Fotografia de Thierry Aubry


A equipa de arqueólogos da Fundação Côa Parque anunciou a descoberta de uma das maiores gravuras rupestres do mundo, numa rocha no sítio do Fariseu, em Foz Côa.

A gravura rupestre, datada do Paleolítico Superior, representa um auroque, isto é, um boi selvagem. A figura foi encontrada ao ar livre, tem mais de 3,5 metros de comprimento e cerca de 23 mil anos, num painel com mais de 6 metros de comprimento. 

A maior figura da arte do Vale do Côa e da Península Ibérica - e uma das maiores do mundo - leva ainda à descoberta, no interior da mesma rocha, de um conjunto de 20 novas gravuras com outros animais marcados por picotagem e abrasão. Entre as camadas arqueológicas, foi encontrada uma fêmea de veado, uma cabra e uma fêmea de auroque, com o seu vitelo.

No lado direito do painel foi identificado outro conjunto de gravuras rupestres com várias representações sobrepostas de auroques, veados e cavalos.

Ao achado da gravura rupestre do auroque soma-se a descoberta de um conjunto de novas gravuras de outros animais.

Fotografia de Thierry Aubry

Descobertas recentes da primavera de 2020
A equipa de arqueologia da Fundação Côa Parque, liderada por Thierry Aubry, responsável técnico-científico do Museu do Côa e Parque Arqueológico do Vale do Côa, iniciou os seus trabalhos de escavação junto à rocha 09 do Fariseu no início deste ano.

Thierry é, desde 1996, responsável pelos trabalhos arqueológicos sobre o Paleolítico no Parque Arqueológico do Vale do Côa, que permitiram datar as principais fases artísticas e contextualizar a arte paleolítica.

Já no ano de 1999 havia sido identificada a rocha 1 do mesmo sítio, coberta por sedimentos arqueológicos. A continuação dos trabalhos atuais e as datações físico-químicas a realizar, permitirá datar de forma científica estas camadas que cobrem as gravuras rupestres.

Os dados preliminares da investigação no Fariseu, agora publicados, reafirmam a importância da continuação dos estudos arqueológicos no Vale do Côa. Confirma-se, assim, e mais uma vez, a existência de uma grande riqueza patrimonial no subsolo.

Segundo Thierry Aubry, a equipa de arqueólogos poderá “precisar a cronologia da realização das gravuras da rocha 9, do sítio do Fariseu, com base na datação pelo método da luminescência das camadas arqueológicas que tapavam as gravuras antes de ser escavada e a tipologia das ferramentas de pedra lascada encontradas nestas camadas”.

O investigador ressalva algumas precisões face a esta descoberta: “A figura de auroque descoberta tem 3,5 metros e é a maior gravura paleolítica ao ar livre. Porém, é importante referir que falta uma parte da cabeça e o rabo; só pode ser comparada com uma representação de um dorso de bisonte da gruta de Altxerri, no País Basco, com cerca de 4 metros de comprimento; um bisonte da Gruta de Cussac com 3,45 metros; e aos famosos auroques da Gruta de Lascaux com dimensões entre 3,5 e 5 metros". 

A equipa de arqueólogos durante os trabalhos realizados este ano no sítio do Fariseu.

Fotografia de Thierry Aubry

O sítio do Fariseu e o Côa
A rocha 9 do Fariseu é um dos principais núcleos de arte rupestre do Vale do Côa, classificados como Monumento Nacional, em 1997. Faz parte também dos inscritos na Lista do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), desde 1998.

O estudo arqueológico da arte paleolítica do Vale do Côa, que se desenvolve há já 25 anos, levou à escavação do sítio do Fariseu e a esta nova descoberta.

As rochas de xisto que delimitam o Côa e que perduram há milénios, converteram-se em painéis de arte, com milhares de gravuras rupestres. Nas montanhas, observam-se extensos olivais, onde na primavera florescem amendoeiras e, no outono, avistam-se as vinhas cobertas de folhas vermelhas.

O Vale do Côa apresenta-se como uma galeria ao ar livre com mais de mil rochas com manifestações rupestres, identificadas em mais de 80 sítios distintos, onde predominam as gravuras rupestres paleolíticas, executadas há cerca de 25 mil anos.

A extensa galeria mostra-nos a vitalidade e a mestria dos nossos antepassados, oferecendo também registos do período Neolítico e da Idade do Ferro, até à Época Moderna, nas representações religiosas, nomes e datas. Isto tudo, para além da arte dos moleiros nos anos 40 e 50 do século XX.

A arte rupestre estende-se para lá do Côa, pelos vales dos Rios Águeda, Sabor e Tua.

Côa Parque – Fundação
A Fundação surge no ano de 2011 para a salvaguarda e valorização do Vale do Côa e foi criada para gerir o Parque Arqueológico do Vale do Côa e o Museu do Côa. O seu grande objetivo é, através do projeto cultural de arqueologia em curso, promover o desenvolvimento integrado da região, realçando a importância da economia da cultura e o seu contributo para o bem-estar do país.

O Parque Arqueológico do Vale do Côa situa-se no distrito da Guarda, no Alto Douro. Trata-se de um território com cerca de 200km2, que abrange áreas dos concelhos de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Mêda e Pinhel.

A missão do Parque, criado em 1996, como consequência do interesse patrimonial e cultural do conjunto de achados na região, passa por gerir, proteger, investigar e mostrar ao público a arte rupestre.

O Côa, para quem o deseja visitar um dia
Para além dos encontros com as gravuras rupestres e, agora, com uma das maiores gravuras rupestres do mundo, existem vários sítios arqueológicos que os visitantes podem encontrar.

Entre eles, destacam-se:
- Almofala – em Figueira de Castelo Rodrigo, as imponentes ruínas do templo romano;
Castelo Melhor – em Vila Nova de Foz Côa, as ruínas do castelo medieval;
Castelo Rodrigo – em Figueira de Castelo Rodrigo, a antiga aldeia medieval integrada no roteiro das Aldeias Históricas de Portugal;
Chãs/Muxagata – em Vila Nova de Foz Côa, o Museu de Sítio da Quinta de Ervamoira;
Coriscada – em Mêda, as ruínas de uma vila romana no Vale do Mouro;
Freixo de Numão – em Vila Nova de Foz Côa, as ruínas do Castelo Velho e de Castanheiro do Vento, que datam da Idade do Cobre/Idade do Bronze; os sítios romanos do Prazo, Rumansil e o Museu da Casa Grande;
- Longroiva – em Mêda, as ruínas de um castelo templário, com origem na época romana, devido às águas termais terapêuticas;
Marialva – em Mêda, um importante centro da época romana, integrada no roteiro das Aldeias Históricas de Portugal;
- Numão – em Vila Nova de Foz Côa, as ruínas da grande vila fortificada de Numão, um importante centro populacional da época medieval;
Pinhel – no centro histórico da vila sobressai o antigo castelo com as suas duas torres.

Na Zona de Proteção Especial do Vale do Côa existem ainda aves rupícolas. As quatro espécies que fizeram desta a Rede Natura 2000, uma Zona de Proteção Especial, são o Abutre do Egipto, o Grifo, a Águia de Bonelli e a Águia Real, com estatuto ameaçado a nível comunitário.

Podem ainda observar-se os matos arborescentes, o pastoreio de ovinos, os olivais e amendoais tradicionais e as pastagens naturais.

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