ADN Revela a Presença de Nativos Americanos na Polinésia Séculos Antes da Chegada dos Europeus

Novas investigações genómicas aumentam as evidências crescentes de contactos antigos ao longo do Oceano Pacífico.

Tuesday, July 14, 2020,
Por Megan Gannon
Um novo estudo de ADN aponta para a ilha de Fatu Hiva, no arquipélago das Marquesas, ...

Um novo estudo de ADN aponta para a ilha de Fatu Hiva, no arquipélago das Marquesas, como o primeiro local de contacto entre os nativos americanos e os polinésios. Ainda não se sabe se esta combinação de ascendência vem diretamente dos nativos americanos que chegaram à Polinésia, ou se foi trazida pelos polinésios que regressavam da América do Sul.

Fotografia de Tim Laman, Nat Geo Image Collection

Os nativos americanos e os polinésios já estavam em contacto ao longo do Oceano Pacífico séculos antes dos europeus entrarem nas águas polinésias, de acordo com um novo estudo publicado no dia 8 de julho na revista Nature. Para além disso, estas interações provavelmente aconteceram antes de as pessoas se estabelecerem em Rapa Nui (também conhecida por Ilha da Páscoa) – a ilha polinésia mais perto da costa sul-americana que antigamente se julgava ser um provável ponto de contacto entre os dois grupos.

A mistura pré-colombiana entre polinésios e nativos americanos tem sido um tema de debate há muito tempo, um tema que ficou famoso na cultura pop pelo aventureiro norueguês Thor Heyerdahl. Em 1947, Heyerdahl embarcou na sua expedição Kon-Tiki, viajando do Peru para a Polinésia numa jangada artesanal, na tentativa de provar que as pessoas das Américas podiam ter povoado as ilhas do Pacífico. As teorias controversas de Heyerdahl sobre a origem dos antigos marinheiros do Pacífico tornaram-se num tema tabu, e muitos arqueólogos descartaram as suas ideias.


Mas outras evidências sugeriam um contacto pré-colombiano entre as pessoas da Polinésia e da América do Sul. Os estudos genéticos anteriores feitos à batata-doce sugeriam que a planta tinha sido domesticada no Peru e que depois se espalhou pela Polinésia, há cerca de mil anos. E o nome polinésio deste vegetal – “kuumala” – faz lembrar os nomes da batata-doce na língua andina quíchua: “kumara” e “cumal”.

Uma fila de moais de sentinela em Rapa Nui, também conhecida por Ilha da Páscoa. Muitos investigadores acreditavam que Rapa Nui, que está mais perto da América do Sul do que as Ilhas Marquesas, foi o primeiro ponto de contacto entre os polinésios e os nativos americanos.

Fotografia de Jim Richardson, Nat Geo Image Collection

Nos últimos anos, os investigadores que estudam o ADN humano entraram neste debate, observando os genomas das pessoas que vivem em Rapa Nui, a ilha que é famosa pelas suas imponentes estátuas moais de pedra. Um estudo feito em 2014 ao ADN de 27 pessoas de Rapa Nui descobriu que cerca de 8% da sua composição genética vem de antepassados nativos americanos. Estas descobertas sugeriam que os dois grupos se misturaram em 1340 d.C., séculos antes dos europeus entrarem em contacto com os habitantes de Rapa Nui em 1722 – europeus que invadiram posteriormente a ilha de forma violenta à procura de escravos.

Para além de Rapa Nui
Para o novo estudo, uma equipa multidisciplinar internacional analisou os genomas de mais de 800 indivíduos de 17 ilhas polinésias diferentes, incluindo Rapa Nui, para além de 15 grupos indígenas costeiros diferentes na América do Sul. “Os estudos anteriores concentraram-se apenas na possibilidade de [Rapa Nui] ser o ponto de contacto”, diz Andrés Moreno-Estrada, autor sénior do estudo e geneticista do Laboratório Nacional de Genómica para a Biodiversidade do México. “Abrimos esta questão para explorar outras opções no Pacífico.”

Os investigadores descobriram que o contacto entre indivíduos polinésios e um grupo de nativos americanos, relacionado com os povos indígenas atuais da Colômbia, aconteceu em 1150 d.C. – dois séculos antes do indicado pelo estudo de ADN de 2014. O local onde os investigadores conseguiram detetar o primeiro sinal de contacto foi em Fatu Hiva, uma ilha nas Marquesas do Sul. Fatu Hiva é muito mais distante da América do Sul do que Rapa Nui, mas poderia ser mais facilmente alcançada do que Rapa Nui devido aos ventos e correntes favoráveis, diz o arqueólogo Paul Wallin, da Universidade de Uppsala, através de um editorial que acompanha o estudo publicado na Nature.

Paul Wallin, que também trabalhou no Museu Kon-Tiki em Oslo, salienta que os novos resultados sugerem que os sul-americanos chegaram à Polinésia Oriental mesmo antes da chegada dos polinésios vindos de oeste, algo que provaria que Heyerdahl “estava parcialmente certo”.

Resultados provocadores
Carl Lipo, arqueólogo da Universidade de Binghamton que estudou Rapa Nui, mas que não participou no novo estudo, diz que não está convencido de que as evidências mostram que Heyerdahl estava correto. O relatório da Nature continua a deixar em aberto a questão de como aconteceu exatamente este contacto entre os polinésios e os nativos americanos.

Os polinésios podem ter chegado às margens da América do Sul e depois colonizaram outras ilhas do Pacífico, levando consigo a batata-doce e companheiros indígenas. Ou seus descendentes podem ter regressado à Polinésia com a herança genética indígena da América do Sul. De acordo com Lipo, a maioria das evidências arqueológicas suporta um destes cenários, em vez de o cenário onde os nativos americanos chegaram primeiro à Polinésia.

“Os polinésios eram viajantes de longa distância”, diz Lipo. “Eles passaram por áreas incrivelmente vastas de forma consistente e encontraram todo o tipo de costas. Costumamos pensar que estes grupos marítimos tradicionais chegavam a uma ilha e que depois se moviam ao longo do tempo para outras ilhas, mas o que realmente vemos arqueologicamente é que eles percorriam primeiro grandes distâncias. Eles exploravam o seu espaço e, na verdade, acabavam por parar em algumas das ilhas mais remotas, e depois colonizavam as áreas intermediárias.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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