Os Tesouros dos Museus Perduram, Mas a Forma Como os Visitamos Pode Mudar

À medida que os museus na Europa emergem do confinamento, os visitantes passam por experiências únicas de paz no meio de um novo “normal”.

Monday, July 6, 2020,
Por Kristin Romey
Fotografias Por Paolo Woods e Gabriele Galimberti
As Três Graças (1812-1817) de Antonio Canova abraçam-se na vazia Galleria d'Italia de Milão. Estas fotografias ...

As Três Graças (1812-1817) de Antonio Canova abraçam-se na vazia Galleria d'Italia de Milão. Estas fotografias foram tiradas no final de abril e início de maio deste ano, quando os museus em Itália ainda estavam encerrados, captando a solidão única e fugaz que muitos dos visitantes agora procuram.

Fotografia de Paolo Woods e Gabriele Galimberti

Às 9 da manhã em ponto, numa recente manhã de junho, Peter Campbell estava à porta do famoso Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Apesar de este museu, que em tempos normais recebia milhares de visitantes por dia, ter reaberto oficialmente há várias semanas – quando Itália suspendeu as ordens de confinamento – os minutos passavam mas o imenso edifício cor salmão permanecia encerrado. Entretanto, chegou um casal. Passados 15 minutos, as portas do museu abriram para revelar um segurança visivelmente surpreendido por ver três visitantes à espera.

A visita de Campbell tinha uma urgência especial. Este arqueólogo americano da Escola Britânica de Roma ia partir de Itália dentro de algumas semanas para trabalhar num novo emprego no Reino Unido. Enquanto muitos dos napolitanos começavam a sair do confinamento para ir à praia e para apanhar ar fresco, Campbell regressava ao interior de um edifício para passar tempos únicos sozinho com os tesouros do museu.


Campbell dirigiu-se imediatamente para a Coleção Farnese do museu, considerada uma das melhores coleções de estátuas greco-romanas do mundo. “Ter a oportunidade de estar sozinho na sala com as estátuas e poder realmente apreciá-las foi muito especial”, diz Campbell, descrevendo a experiência como “impressionante”.

Em Florença, na silenciosa Galleria dell'Accademia, lar de David de Miguel Ângelo, a escultura de Giambologna do século XVI, Rapto das Sabinas, projeta a sua sombra numa galeria de obras religiosas que inclui A Trindade e os Santos Benedito e João Gualberto (1472) de Alesso Baldovinetti.

Esquerda: A estátua de David (1440) de Donatello está de sentinela no Museu Bargello de Florença.
Direita: No Museu Bargello, a estátua Oceanus (1585) de Giambologna observa o Rapaz Pescador (de Vincenzo Gemito, 1874).

Os museus na Europa estão a reabrir, mas fazem-no lentamente, com experiências nas galerias que envolvem distanciamento social, verificações de temperatura e com um número restrito de visitantes. Alguns museus dizem que o número de visitantes é de apenas um quarto em relação à normalidade. Do ponto de vista do visitante, ter uma galeria só para si – ou pelo menos sem ter vários selfies sticks à frente – pode ser uma experiência transcendente. Porém, para os administradores dos museus que estão preocupados com o número de visitantes, com a interação e, sobretudo, com a segurança, vivem-se tempos de incerteza.

Podemos tomar como exemplo o distanciamento social. Dependendo do tamanho e da disposição de um museu, manter os visitantes a um metro e meio de distância pode reduzir o número de visitantes para apenas 20% a 50% da capacidade máxima de um edifício, diz Julia Pagel, secretária geral da Rede Europeia de Organizações de Museus, um grupo de defesa que representa mais de 30 mil museus na Europa.

Moldes de gesso do século XIX de esculturas antigas, outrora usados para ensinar os estudantes de arte, revestem as paredes da Gipsoteca Bartolini na Galleria dell'Accademia de Florença.

Para alguns museus – sobretudo para as instituições mais pequenas de propriedade privada – esta redução na venda de bilhetes pode representar uma ameaça existencial. De acordo com um relatório do Conselho Internacional de Museus, mais de 10% dos museus a nível mundial dizem que podem ser forçados a encerrar portas permanentemente.

Julia Pagel diz que o cenário para os museus na Europa parece um pouco melhor do que as projeções apresentadas pelo relatório do Conselho, mas não muito. Este ano, espera-se que o turismo global caia entre 50% e 70%, e sem turistas internacionais –Itália foi visitada por 63 milhões de turistas em 2019 – as maiores instituições culturais do velho continente estão a perder centenas de milhares de euros por semana.

O Martírio de Santa Úrsula (1610), de Caravaggio, na Galleria d'Italia de Nápoles.

Esquerda: Um segurança no sossego do Salão dos Peregrinos, na Santa Maria della Scala de Siena.
Direita: O icónico David (1504) de Miguel Ângelo posa solitário com a sua sombra na Galleria dell'Accademia de Florença.

Uma representação do século I d.C. do imperador romano Vespasiano, em primeiro plano à esquerda, faz parte da famosa Coleção Farnese do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles.

“A pandemia está longe de acabar”, diz Julia. “Os museus estão a perder muito dinheiro, e vão continuar a perder dinheiro depois de reabrirem.”

Esta situação está a forçar os museus a avaliarem o sucesso e o impacto para além da métrica tradicional do número de visitantes. Por exemplo, será que a pandemia vai obrigar a grandes alterações na forma como os museus interagem com um público cada vez mais digital? Ou será que os museus vão tentar atrair as comunidades locais que geralmente estão afastadas da cultura que têm ao virar da esquina? Será que o enriquecimento cultural é algo que deve ser adiado até ‘salvarmos o mundo’, ou será que é um meio para ‘nos salvarmos’?

A única certeza é a de que, naquele dia de junho, menos de dois meses depois de Itália ter saído do confinamento devido ao coronavírus, e apenas algumas semanas depois da reabertura do Museu Arqueológico Nacional, Peter Campbell sabia que precisava de chegar cedo para ter a Coleção Farnese só para si. “Porque, com o passar do dia, os admiradores – como sempre – iriam regressar.”
 

Este trabalho foi originalmente solicitado pelo Cortona On The Move, um festival internacional de narrativas visuais, em parceria com o Intesa Sanpaolo para o Projeto Visual COVID-19.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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