Fotografias Raras a Cores Oferecem Vislumbre Íntimo da Marcha Sobre Washington de 1963

Em 1963, um fotógrafo da National Geographic tirou o dia de folga para documentar a marcha pelos direitos civis e captou um movimento que vive até hoje.

Monday, August 31, 2020,
Por Rachel Hartigan
Fotografias Por James P. Blair
A Marcha sobre Washington de 1963 pelo Trabalho e Liberdade reuniu pessoas de organizações dos direitos ...

A Marcha sobre Washington de 1963 pelo Trabalho e Liberdade reuniu pessoas de organizações dos direitos civis, sindicatos e grupos religiosos de todo o país para protestar contra a segregação, desigualdade e injustiça económica. Como se pode ver pelo cartaz que exige o fim da violência policial, muitas das questões que então motivavam os manifestantes ainda permanecem atualmente sem resolução.

Fotografia de James P. Blair, NatGeo Image Collection

Na manhã de 28 de agosto de 1963, James P. Blair, fotógrafo da National Geographic, saiu do seu apartamento no cruzamento entre as ruas 17 e M em Washington D.C.

James vivia a apenas um quarteirão da sede da National Geographic Society, onde trabalhou como fotógrafo durante pouco mais de um ano. Mas naquele dia – uma quarta-feira – James não foi trabalhar para o escritório. Em vez disso, caminhou até ao Monumento de Washington para fotografar a Marcha sobre Washington pelo Trabalho e Liberdade.


Organizada por líderes do movimento dos direitos civis, incluindo Martin Luther King Jr. e John Lewis, a marcha foi o culminar de anos de frustração com a segregação e a desigualdade. Participaram mais de 250 mil pessoas, e milhares de jornalistas convergiram para o National Mall.

“O evento foi um íman para os fotógrafos”, diz Helena Zinkham, chefe da divisão de fotografia e impressão da Biblioteca do Congresso. “As pessoas sabiam que era um evento muito especial.”

Martin Luther King Jr. levanta o braço no final do seu discurso icónico – “Eu tenho um sonho” – na Marcha sobre Washington. “Todos sentiram o poder do momento”, disse o fotógrafo James P. Blair.

As imagens daquele dia ficaram gravadas na memória da nação. As fotografias captadas por James Blair, que não faziam parte de uma cobertura oficial da National Geographic e que raramente foram publicadas, oferecem um vislumbre único de um dos momentos mais icónicos da história do país.

James sabia que não podia fazer a cobertura da marcha para a National Geographic. “Naqueles tempos, a última coisa na mente da National Geographic eram os direitos civis”, diz James, e na altura, a revista mensal raramente cobria as notícias à medida que se desenrolavam.

Por isso, James tirou o dia de folga. “Este dia era realmente para mim”, diz James, agora com 89 anos.

A multidão pacífica de 250 mil pessoas estendia-se desde o Lincoln Memorial, onde a fotografia foi tirada, passando pelos reflexos no espelho de água até ao Monumento de Washington.

James Blair já estava há muito tempo comprometido com o movimento pelos direitos civis. Para um projeto que fez durante o seu último ano de faculdade, no Instituto de Design do Instituto de Tecnologia de Illinois, James fotografou uma família negra que vivia num prédio devoluto na zona South Side de Chicago – Armister Henton, funcionário dos correios, a sua esposa e as filhas gémeas. James passou várias semanas com esta família no apartamento.

“Os seus problemas e coragem marcaram-me profundamente”, diz James.

Apesar de James não estar na marcha como fotógrafo da National Geographic, ele levou a sua câmara e uma teleobjetiva. E fez questão de estar à frente da multidão enquanto esta marchava, para que, quando chegasse ao Lincoln Memorial, conseguisse encontrar um lugar na base dos degraus.

A partir desta posição estratégica, James conseguia ver a vastidão do evento. “A multidão estendia-se ao longo do espelho de água até ao Monumento de Washington, de onde tínhamos vindo”, diz James. Estava muito calor; James viu pessoas a refrescarem os pés no espelho de água.

Os manifestantes apoiaram uma série de questões que ainda ecoam atualmente, incluindo salários mínimos mais elevados e direitos de voto. Os organizadores da marcha determinaram o que seria escrito nos cartazes.

No Lincoln Memorial, James ouviu Mahalia Jackson, Bob Dylan, Joan Baez e outros cantarem; e Philip Randolph, John Lewis, Roy Wilkins e outros falarem – e esteve sempre a tirar fotografias

“Quando o reverendo Martin Luther King Jr. disse ‘eu tenho um sonho’, ouvi isso claramente”, diz James. “Quando King levantou a mão e disse: 'Finalmente livres. Finalmente livres. Graças a Deus Todo-Poderoso, estamos finalmente livres’, eu cliquei, cliquei, cliquei. Foi assim.”

James tinha captado um momento decisivo durante um dos discursos mais icónicos da história dos EUA, e fotografou a cores, ao contrário da maioria das fotografias sobre os movimentos dos direitos civis.

A Marcha sobre Washington pelo Trabalho e Liberdade durou o dia inteiro, até que a sombra do Lincoln Memorial finalmente trouxe algum alívio do sol quente de agosto.

“É isso que torna estas fotografias tão tangíveis e acessíveis”, diz Aaron Bryant, curador do Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana do Smithsonian. “Conseguimos entrar nas imagens e fazer parte do momento.”

As fotografias a cores de James Blair também fazem com que a marcha pareça mais moderna, diz Bryant, que está a recolher fotografias pessoais de manifestantes que participaram na marcha. “Hoje, estamos a lidar exatamente com os mesmos problemas de várias maneiras.”

Há um cartaz na marcha que agora perturba James de forma particular: Exigimos o fim da violência policial já!

“Estamos a falar de quê agora? Em 2020? Violência policial”, diz James. “É deplorável.”

Ainda assim, nessa mesma fotografia, uma multidão multirracial dá os braços e canta. “É o reconhecimento de todas as pessoas naquela multidão da comunhão existente entre todos nós.”

Antes de fotografar a Marcha sobre Washington, James P. Blair passou seis semanas a fazer um trabalho na ilha de Tristão da Cunha, no Atlântico sul.

Fotografia de Nat Geo Image Collection

Quando a marcha terminou, James Blair, que se aposentou da National Geographic em 1994, ofereceu as suas fotografias à coleção de imagens da National Geographic Society. James continua atualmente a fotografar.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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