Enterros Revelam que as Pandemias Medievais Geravam Receio de Mortos-vivos

Uma análise feita a sepulturas mostra um aumento no número de pessoas enterradas de face para baixo quando as pragas assolavam a Europa de língua alemã. O que pretendiam os vivos alcançar com isto?

Publicado 8/09/2020, 16:46 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Um desenho do século XVI feito por Hand Baldung Grien retrata um mercenário alemão a falar ...

Um desenho do século XVI feito por Hand Baldung Grien retrata um mercenário alemão a falar com a Morte. Enquanto as pandemias fustigavam a Europa, as histórias sobre mortos-vivos famintos à procura de vingança cresciam nas terras de língua alemã, podendo refletir-se nas práticas de enterro.

Fotografia de DEA Picture Library, De Agostini/Getty (Ilustração)

Em 2014, a antropóloga suíça Amelie Alterauge estava a trabalhar há poucos dias no seu novo emprego, no Instituto de Medicina Legal da Universidade de Berna, na Suíça, quando foi chamada para investigar um estranho enterro num cemitério centenário que estava a ser escavado para um projeto de construção. Das cerca de 340 sepulturas no cemitério, havia uma que se destacava: a de um homem de meia-idade enterrado de cara para baixo num canto abandonado do cemitério. “Eu nunca tinha visto um enterro assim na vida real”, diz Amelie Alterauge.

Nesta sepultura foram encontradas uma faca de ferro e uma bolsa cheia de moedas na dobra do braço do homem, posicionadas como se tivessem sido escondidas debaixo das suas roupas. As moedas ajudaram os arqueólogos a datar o corpo entre 1630 e 1650, época em que uma série de pragas atingiu aquela região da Suíça. “Era como se a família ou o agente funerário não quisessem tocar no corpo”, diz Amelie. “Talvez ele já estivesse gravemente decomposto quando foi enterrado – ou talvez tivesse uma doença infecciosa e ninguém quisesse chegar perto dele.”


Esta descoberta fez com que Amelie Alterauge começasse a procurar mais exemplos de pessoas enterradas desta forma na Suíça, Alemanha e Áustria. Apesar de serem extremamente raros, estes enterros já foram documentados noutros lugares – particularmente nas áreas eslavas da Europa de Leste. Estes enterros são frequentemente comparados a outras práticas, como a mutilação ou os corpos cobertos com pedras, que se acreditava prenderem vampiros e mortos-vivos, impedindo-os de escaparem dos seus túmulos. Mas Amelie diz que ninguém tinha observado de forma sistemática este fenómeno nas regiões medievais de língua alemã – que agora constituem a Suíça, Alemanha e Áustria.

Agora, num novo estudo publicado na revista PLOS One, a equipa de investigação de Amelie Alterauge revela a análise de quase 100 enterros ao longo de 900 anos que foram documentados por arqueólogos na Europa de língua alemã. Os dados sugerem uma grande alteração nas práticas de enterro, práticas que os investigadores associam às mortes por pragas e a uma crença entre os sobreviventes de que as vítimas podiam regressar para assombrar os vivos.

Um enterro medieval no cemitério de uma igreja de Berlim revela um homem deitado de barriga para baixo. Este tipo de enterros aumentou no final da Idade Média e pode ter sido uma reação às mortes devido à peste.

Fotografia de Landesdenkmalamt Berlin, Claudia Maria Melisch

Durante o início e final da Idade Média na Europa (entre 950 e 1300), os poucos corpos que foram enterrados de face para baixo em cemitérios regionais eram frequentemente colocados no centro dos cemitérios das igrejas, ou até dentro de estruturas sagradas. Algumas pessoas foram enterradas com joias, roupas finas e instrumentos de escrita, sugerindo que nobres e sacerdotes de estatuto elevado podem ter escolhido este tipo de enterro como uma demonstração de humildade perante Deus. Um exemplo histórico é o de Pepino, o Breve, pai de Carlos Magno, que supostamente pediu para ser enterrado de bruços em frente a uma catedral, em 768, como forma de penitência pelos pecados do seu pai.

Os arqueólogos começaram a ver um aumento neste tipo de enterros na Europa do início de 1300, incluindo alguns nos arredores de cemitérios cristãos consagrados. Esta mudança coincidiu com pragas devastadoras que fustigaram a Europa a partir de 1347, matando milhões por todo o continente.

“Houve algo que mudou”, diz Amelie Alterauge, que também é doutoranda na Universidade de Heidelberg.

À medida que as doenças matavam pessoas mais depressa do que as comunidades conseguiam enterrar, a visão e o som de corpos em decomposição tornaram-se numa presença familiar e inquietante. Os cadáveres inchavam e moviam-se, e os intestinos dos mortos repletos de gás emitiam ruídos inesperados e perturbadores. A carne decompunha-se e secava de formas inexplicáveis, fazendo parecer que os cabelos e as unhas cresciam, enquanto que a carne se enrugava.

“Os corpos em decomposição movem-se e emitem ruídos. Pode parecer que se estão a comer por dentro”, diz Amelie.

Um desenho do século XIV mostra o enterro de vítimas de peste. Os contos alemães falam de nachzehrer (que se pode traduzir para “devoradores de cadáveres”) e wiedergänger (“os que caminham de novo”), contos que podem ter sido inspirados pelas mortes em massa resultantes da peste.

Fotografia de Hulton Archive/Getty (Ilustração)

Enquanto os europeus medievais tentavam explicar o que estavam a ver e a ouvir, podem ter assimilado os conceitos sobre mortos-vivos que já circulavam nas comunidades eslavas da Europa de Leste: “Não temos [o conceito de] vampiros na Alemanha”, diz Amelie Alterauge, “mas há a ideia de cadáveres que se movem” que foi importada para a Europa Ocidental vinda das áreas eslavas de leste pouco depois dos primeiros surtos de peste, em meados do século XIII.

A lógica por detrás dos mortos-vivos
Antes de 1300, as histórias medievais na Europa de língua alemã descreviam fantasmas amigáveis que regressavam para alertar ou ajudar os seus entes queridos. Mas numa era de epidemias, estes fantasmas assumiram uma forma diferente: aparições, ou mortos-vivos.

“Essa alteração para espíritos malignos aconteceu por volta de 1300 ou 1400”, diz Matthias Toplak, arqueólogo da Universidade de Tübingen, na Alemanha, que não participou no estudo.

Focando a sua atenção no folclore medieval, Amelie e os seus coautores descobriram os contos de nachzehrer, que se pode traduzir para “devoradores de cadáveres” – cadáveres inquietos e famintos que se consumiam a si próprios e que drenavam a força vital dos seus parentes sobreviventes no processo.

“Não temos [o conceito de] vampiros na Alemanha, mas há a ideia de cadáveres que se movem.”

por AMELIE ALTERAUGE, ANTROPÓLOGA

“As fontes históricas dizem que os nachzehrer resultavam de uma morte invulgar ou inesperada”, diz Amelie Alterauge. “Havia a teoria de que uma pessoa se transformaria em nachzehrer se fosse a primeira da sua comunidade a morrer durante uma epidemia.”

Na época de pandemias na Europa, esta lenda tinha uma lógica convincente: à medida que os parentes da vítima começavam a desenvolver sintomas e a desmaiar alguns dias após o funeral, parecia que estavam a ser amaldiçoados a partir do túmulo.

“A origem de todas estas crenças sobrenaturais pode ter sido a morte repentina de vários indivíduos numa sociedade”, diz Matthias Toplak. “Fazia sentido as pessoas culparem espíritos sobrenaturais e que tomassem medidas para evitar que os mortos regressassem.”

Igualmente temidos eram os wiedergänger, ou “os que caminham de novo” – corpos capazes de emergir das sepulturas para perseguir as suas comunidades. “Quando alguém fazia algo de errado, não conseguia terminar os seus assuntos em vida devido a uma morte inesperada, ou precisava de expiar ou vingar algo, pelo que se tornava wiedergänger”, explica Amelie Alterauge.

O novo estudo revela um aumento no número de corpos enterrados de face para baixo nas extremidades dos cemitérios cristãos entre os séculos XIV e XVII. Os investigadores argumentam que, pelo menos nesta parte da Europa, enterrar as pessoas desta forma era a maneira preferida para evitar que os cadáveres malévolos regressassem para fazer mal.

Contudo, há arqueólogos que dizem poder existir outras explicações. Num mundo devastado por pandemias mortais, enterrar a primeira vítima da comunidade de cara para baixo pode ter sido simbólico, uma tentativa desesperada para evitar mais calamidades.

“Quando alguém adoecia gravemente, parecia um castigo de Deus”, diz Petar Parvanov, arqueólogo da Universidade Centro-Europeia de Budapeste que não participou no estudo. “Este tipo de enterros era uma maneira de passar uma mensagem às pessoas no funeral – de alguma forma, a sociedade tinha permitido demasiados pecados, pelo que deviam mostrar penitência.”

O passo seguinte, diz a arqueóloga Sandra Lösch, coautora do estudo e chefe do departamento de antropologia física do Instituto de Medicina Legal da Universidade de Berna, é examinar estes enterros para descobrir se existem ligações mais evidentes com os surtos de doenças. A análise do ADN destes indivíduos, por exemplo, pode conseguir sequenciar micróbios específicos da peste, e a análise isotópica dos ossos e dentes das vítimas “pode revelar traços de uma dieta ou origem geográfica diferente da do resto da população”, oferecendo outra explicação para estes enterros fora do vulgar.

Como os registos das escavações locais não são geralmente publicados, Amelie Alterauge espera que surjam mais evidências nos próximos anos, conforme os arqueólogos reexaminam as evidências antigas ou sepulturas medievais incomuns com uma nova perspetiva. “Acredito definitivamente que há mais exemplos por aí”, diz Amelie.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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