Um Contador de Histórias que Caminha Pelo Mundo Tropeçou Numa civilização com 2000 Anos

Potes de barro enterrados sob campos de trigo e de amendoim guardam os restos mortais do povo de Pyu, numa cidade da Idade do Ferro nas margens do rio Irrawaddy, em Myanmar.

Monday, November 9, 2020
Por Paul Salopek
Nas margens do rio Irrawaddy prosperou uma antiga civilização cujo povo usava joias no cabelo, fazia ...

Nas margens do rio Irrawaddy prosperou uma antiga civilização cujo povo usava joias no cabelo, fazia peças de arte de jade e comercializava em lugares tão distantes quanto a Indonésia e as Filipinas.

Fotografia de Frank Bienewald, LightRocket/Getty Images

MOSTEIRO DE SHEIN MA KAR, MYANMAR – Para chegar ao sagrado rio Irrawaddy a partir de Shwebo, uma cidade pouco conhecida no norte de Myanmar, temos de seguir para leste através de estradas escaldantes.

Ao amanhecer já o suor escorre pelas nossas pálpebras. Uma hora depois, um sol escaldante consegue turvar todas as cores do mundo. Numa esquina, um ferreiro usa um secador elétrico de cabelo como fole. O gemido do secador fica nos nossos ouvidos durante quilómetros: o fim do nosso universo, a sua incineração, vai ter este som.

Sem darmos por isso, cambaleamos até ao império de Pyu da Idade do Ferro. Esta civilização com 2000 anos tinha cidades com muralhas, estupas altas e ruas de pedra. Tudo isto permanece hoje adormecido debaixo de campos em tons de argila no vale de Mu.

A vida naquela época era vasta e rica: uma versão do sudeste asiático de Xanadu. Cidadãos ricos viviam em casas de madeira com telhados de zinco. As suas refeições eram degustadas com utensílios de ouro, usavam joias no cabelo e faziam arte em vidro verde, cristais e jade. O comércio deste povo alcançou portos distantes no Vietname, Indonésia e Filipinas. No primeiro século d.C., os embaixadores romanos a caminho da China passaram por aqui. Os historiadores da Dinastia Tang relatam que os residentes de Pyu eram budistas pacíficos que detestavam a guerra. Preferiam algodão em vez de seda para evitar sacrificar a vida dos bichos-da-seda. Os mortos de Pyu ainda estão enterrados, dentro de potes de argila, sob as safras de trigo e de amendoim deste ano. Os agricultores encontram ocasionalmente estes potes. Fantasmas de um império fluvial. Restos mortais tão antigos e esquecidos que quase não parecem humanos.

Quando chegamos às margens brilhantes de Irrawaddy, os agricultores estão a colher pimentas. As suas mãos enrugadas deslizam sobre folhas macias. Presenteiam-nos com um saco de pimentas, vermelhas como rubis, sem uma única palavra murmurada. É assim que Pyu subsiste.

Na sua caminhada de 400 quilómetros, desde a fronteira da Índia até às margens do rio Irrawaddy, no norte de Myannar, Paul Salopek e o seu companheiro de caminhada, Ja Pha Se, percorrem paisagens raramente vistas por pessoas de fora.
 

Para chegar ao intemporal rio Irrawaddy – a enorme e silenciosa aorta de Myanmar – temos de caminhar sobre ossos.

Podemos usar como exemplo os ossos debaixo de Mawlaik.

Mawlaik é uma pequena cidade portuária localizada nas margens lamacentas do rio Chindwin, um enorme afluente ocidental do rio Irrawaddy. Durante a Segunda Guerra Mundial, Mawlaik foi um posto colonial de extração de madeira. Quando os japoneses invadiram a região, os britânicos abandonaram-no com pouco decoro. (Fugiram em pânico para salvar as suas vidas.) Mais tarde, foi a vez dos japoneses fugirem de Mawlaik, quando os seus avanços na Índia colapsaram.

“Muitos dos japoneses suicidaram-se, em vez de se renderem”, diz U Than Zin, professor de inglês aposentado que atua como historiador informal da cidade, e que ainda soletra palavras. “Muitos dos japoneses em retirada estavam doentes ou feridos. Percebeu o que eu disse? F-E-R-I-D-O-S. Portanto, enforcaram-se nas casas.”

U Than Zin diz que o povo de Mawlaik atirou os corpos dos japoneses para as crateras das bombas. Cobriram-nos com lama e construíram casas novas por cima.

“Esta cidade inteira está construída sobre ossos. Eu não me sinto mal com isso. Não vi os mortos. Era muito novo. Os meus familiares disseram apenas para eu me esconder. E foi o que fiz. E-S-C-O-N-D-E-R. É tudo o que me lembro desses tempos”, diz U Than Zin.

“Nas próximas semanas, para caminhar até ao fumegante rio Irrawaddy, você vai atravessar muitas pontes antigas de treliça que foram deixadas pelos britânicos. Estão a cair aos bocados, mas ainda são usadas. As placas de aço soltas e enferrujadas rangem e estalam com os nossos passos, parecem um R-U-F-A-R metálico para um mundo surdo.”

Para chegar às margens fumegantes do rio Irrawaddy a partir da cidade de Ye-U, temos de seguir os sulcos de irrigação.

Os primeiros sulcos surgiram há pelo menos 8200 anos, em arrozais primordiais onde agora as mulheres curvadas têm os rostos pintados de amarelo com pasta “thanaka”. Os sulcos atravessam plantações de árvores salpicadas de resina, que têm rebentos de bambu cravados nos troncos, e abrem-se ao longo de campos de amendoim.

“Pensa que caminhar é difícil?, disseram as mulheres em tom de brincadeira enquanto faziam a colheita. “Venha apanhar amendoins!”

Uma mulher exibe a sua colheita de amendoins perto da cidade de Ye-U.

Fotografia de Paul Salopek

Os sulcos ziguezagueiam através de campos de sésamo, de feijão e feijão-frade. Debaixo de uma enorme figueira, nas margens do rio Irrawaddy, encontramos finalmente o criador dos sulcos mais recentes, um jovem agricultor com um chapéu de palha que não nos diz o seu nome. Este jovem tem conduzido os seus dois bois de arar sobre o leito seco do rio, revolvendo torrões. A sua testa está franzida de frustração. Ele não quer ser agricultor. “É melhor na cidade”, suspira o jovem agricultor.

Ele quer o que todos nós queremos. Ser como Pyusawhti, o primeiro rei-herói da antiga dinastia pagã, que nasceu de um ovo de dragão, flutuou pelo Irrawaddy e fundou uma capital com 10.000 templos. Por outras palavras, uma história de ambição. Um futuro.

Quando chegamos às margens do famoso Irrawaddy, seguimos os trilhos ribeirinhos do rio.

Os trilhos ondulam como se fossem bailarinas entre aldeias de casas com paredes de bambu. As casas estão apoiadas em palafitas, como se fossem casas para pássaros. Por baixo das casas vemos canoas ancoradas em doca seca. A cada poucos quilómetros há mosteiros budistas com guardiões em forma de dragão esculpidos em pedras caiadas. Estes retiros estão interligados por trajetos de peregrinos feitos de lajes cobertas de musgo.

No rio, os pescadores batem nas amuradas das canoas com os remos para invocarem os golfinhos-do-irrawaddy, uma espécie sem bico que durante séculos tem colaborado com os humanos na pesca. Agora, os golfinhos aparecem com menos frequência. Restam menos de 80 no seu rio homónimo. A poluição e a pesca com choques elétricos têm devastado estes golfinhos.

O Irrawaddy flui ao longo de mais de 2000 quilómetros, desde os glaciares nas elevações da fronteira com o Tibete até às águas quentes do Mar de Andamão. Na sua margem oeste, logo a seguir a Mandalay, encontramos o Sino de Mingun. Este sino titânico foi fundido há 210 anos pelo rei Bodawpaya e pesa 55 toneladas. Se o tocarmos com um bastão de madeira, podem surgir bênçãos poderosas. O sino deve ser tocado para assinalar nascimentos e mortes. Deve ser tocado durante pragas. Deve ser tocado durante eleições e revoluções.

Para além disso, entre tristezas e alegrias, o rio flui.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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