O Dia em que Assistimos a Uma Tentativa de Golpe de Estado nos EUA

Os americanos pararam o que estavam a fazer para observar um evento que não conseguiam compreender – uma tentativa de golpe de estado na capital da sua nação.

Publicado 7/01/2021, 15:24 WET, Atualizado 8/01/2021, 08:31 WET
Uma multidão de apoiantes violentos do presidente Donald Trump escala um dos muros do Capitólio dos ...

Uma multidão de apoiantes violentos do presidente Donald Trump escala um dos muros do Capitólio dos EUA na quarta-feira, dia 6 de janeiro, invadindo o edifício e interrompendo a confirmação da vitória de Joe Biden nas eleições de 2020.

Fotografia de Jose Luis Magana, AP

6 de janeiro de 2021, 16h00. Nos ecrãs das televisões surge a mensagem: INSURREIÇÃO EM WASHINGTON DEPOIS DE INCITAÇÃO DE TRUMP.

Esta frase, os sons e as imagens já não são apenas o material de uma especulação receosa. Estamos a ler, a ouvir, a testemunhar uma tentativa de golpe de estado nos Estados Unidos. O homem que aparece nas imagens a partir uma janela no Capitólio – podemos certamente presumir que se trata de um americano – é aplaudido pelos que o rodeiam, enquanto dois homens de negro entram pela janela partida.

Se está a digerir isto da mesma forma que a maioria de nós está – não na capital dos EUA, com as sirenes e os veículos de emergência; nem no interior dos autocarros para onde os membros do Congresso foram empurrados, retirados do seu edifício, para se protegerem – então deve ter parado tudo o que estava a fazer e está a ter dificuldades em acreditar no que está a acontecer. Afinal de contas, não se trata do edifício deles. É o nosso edifício. É o edifício do povo americano, o centro designado para a governação desta nação.

Apesar de todas as conversas recentes sobre a fragilidade da democracia americana, todas as gerações de americanos mantiveram sempre uma atitude de presunção em relação ao conceito de golpe de estado: as outras nações é que vergam dessa forma, os seus líderes é que são forçados a afastarem-se, as suas instituições é que são atacadas em nome da “segurança nacional”. É óbvio que condenamos sempre este tipo de ataque descarado ao poder. O nosso governo tenta manter a neutralidade sem uma aprovação formal. Encaramos isto como algo impossível de acontecer nos EUA.

Esquerda: Um polícia do Capitólio olha através de uma janela partida enquanto os manifestantes se reúnem no Capitólio. A polícia e os seguranças não conseguiram impedir os manifestantes de invadir o lar do governo americano.
Direita: Legisladores e funcionários protegem-se na galeria da Casa dos EUA enquanto multidões pró-Trump tentam invadir a câmara. Foram distribuídas máscaras de gás e o edifício foi evacuado.

Fotografia de TASOS KATOPODIS, GETTY (ESQUERDA) E ANDREW HARNIK, AP (DIREITA)

Esquerda: No interior do Capitólio, os manifestantes fizeram o que quiseram. Alguns vaguearam pelas câmaras dos legisladores e vasculharam os escritórios.
Direita: Um apoiante de Trump que forçou a entrada no Capitólio dos EUA posa para a fotografia na secretária de Nancy Pelosi, a presidente da Câmara dos Representantes.

Fotografia de VICTOR J. BLUE, BLOOMBERG / GETTY (ESQUERDA) E SAUL LOEB / AFP VIA GETTY IMAGES (DIREITA)

Um comício de apoio ao presidente Trump em Washington D.C., na quarta-feira, transformou-se numa marcha até ao Capitólio dos Estados Unidos e numa violenta tentativa de impedir a certificação dos resultados eleitorais. As forças da autoridade demoraram várias horas a recuperar o controlo da situação.

Fotografia de John Minchillo, AP

Este vai ser um daqueles eventos em que nos vamos lembrar onde estávamos, como as tentativas de assassinato e os ataques terroristas. O dia em que um presidente dos EUA permaneceu em silêncio durante duas horas, comunicando através de um único tweet para dizer “permaneçam calmos”, enquanto homens e mulheres aplaudiam a invasão do Capitólio com bandeiras e cartazes com o seu nome – cada um de nós vai ter as suas memórias vívidas quando recordarmos este momento. A polícia anti-motim a marchar em direção ao Capitólio para se poder fazer uma transição eleitoral? Manifestantes com bandeiras de Trump a cercarem um repórter da FOX, gritando “notícias falsas!”, enquanto o repórter está a narrar exatamente o que está ver ao seu redor? Polícias a apontarem as suas armas na casa da Câmara com os seus rostos cobertos por máscaras devido ao coronavírus?

Agora são 16h15, e durante breves momentos temos a voz e o rosto do presidente eleito Joe Biden. É reconfortante imaginar que nos próximos anos nos iremos lembrar disto, de um homem que fala calmamente, invocando Abraham Lincoln, com a voz tensa de tristeza, enquanto implora ao presidente Donald Trump para dizer aos seus apoiantes para recuarem. “Somos os Estados... Unidos... da América”, diz Biden. “Peço a esta multidão que recue e permita que o trabalho da democracia avance.”

A América é muito melhor do que isto, diz Biden. É uma ideia a que nos devemos agarrar, incluindo nos momentos que se seguem a esta declaração do presidente eleito, quando as televisões mostram novas imagens: um homem invadiu o escritório da presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, e sentou-se na sua secretária – na sua secretária? – com uma bandeira amassada ao lado. O homem está a sorrir. Parece extremamente satisfeito consigo próprio. Diante do homem, em letras maiúsculas numa pasta de arquivo, estão as palavras NÃO IREMOS RECUAR.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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