Dusko Popov, o espião que viveu no Estoril durante a 2ª Guerra Mundial

Descubra o espião sérvio decisivo em várias operações durante a Segunda Guerra Mundial. Dusko Popov foi o maior espião da história e o agente duplo que inspirou o mítico James Bond.

Publicado 4/02/2021, 15:00 WET
Um dos boletins de alojamento

Um dos boletins de alojamento do Palácio Hotel que testemunha a passagem de Dusko Popov pelo Estoril.

Fotografia de Arquivo Histórico Municipal de Cascais

O espião sérvio Dusko Popov transformou-se num dos maiores agentes duplos, durante a Segunda Guerra Mundial. Entre a Alemanha e Inglaterra, Lisboa era a sua base segura e, era no Estoril que passava uma boa parte do seu tempo.

Aquele em que Ian Fleming se terá inspirado para criar James Bond, dividia o seu tempo em Portugal entre o casino, o Palácio Hotel e as aventuras que o dia a dia lhe reservava.

Após terminar a sua licenciatura em Direito na Universidade de Belgrado, Popov procurava um bom emprego na área de gestão. Como a Alemanha era uma forte potência económica e cultural, sabia que tinha de aprender a falar alemão e conhecer a cultura alemã.

Decidiu, assim, começar um programa de dois anos para tirar um doutoramento em Direito, na Universidade de Friburgo. Sendo independente e de uma família com muito dinheiro, pensou que podia fazer o que quisesse e estar com quem quisesse, quando estivesse na Alemanha.

Adolf Hitler assumia a tomada de posse na Alemanha

Em 1933, Hitler tornou-se chanceler na Alemanha. O líder começou a fazer várias reformas políticas e havia muitos sítios secretos. Nesta altura, os nazis começaram a infiltrar-se em universidades, nas igrejas e um pouco por todo o lado.

O primeiro impacto na Alemanha nazi levou a que Dusko Popov fosse preso, por criticar Hitler. Um amigo, Johann Jebsen, a quem tratava por Johnny, alertou o pai de Popov, que falou com o Primeiro Ministro da Jugoslávia que, por sua vez, falou com Hermann Goering, um importante dirigente nazi. No dia seguinte a esta troca de contactos, os alemães libertaram-no, mas sabiam que ele era uma ameaça e, por esse motivo, foi expulso e proibido de voltar ao país. O amigo que o salvou teve outro destino, uma vez que, por ser alemão, foi obrigado a juntar-se aos nazis.

Um dos boletins do Palácio Hotel, no Estoril, onde se pode ler a profissão de Dusko Popov nesta altura - advogado.

Fotografia de Arquivo Histórico Municipal de Cascais

Um advogado influente

Após a expulsão, Popov instalou-se em Dubrovnik e, em 1940, era um advogado de sucesso. Falava fluentemente várias línguas e especializou-se em direito empresarial. Tinha uma importante carteira de clientes, entre os quais Karlo Banac, um dos homens mais ricos da Jugoslávia e, os Bajlonis, donos do banco Savska.

Johnny juntou-se a uma agência secreta de informação, a Abwehr, onde recrutava espiões. No topo da sua lista estava Dusko Popov, por interesse da própria agência e que, por sinal, lhe devia a vida.

Assim, em 1940 marcaram encontro num bar. Apesar de Popov desprezar os nazis, estava em dívida com Johnny e acabou por ser recrutado como espião. Pouco tempo depois do recrutamento, Dusko Popov apresentou-se em Londres como agente-duplo, preparado para lutar ao lado dos Aliados.

Neste papel de agente-duplo, e com o acordo dos serviços secretos britânicos, Popov conseguiu convencer os alemães da existência de minas fictícias em toda a Grã-Bretanha e ajudou a criar o famoso "Plano Midas”, que levou a Alemanha, através de um esquema de trocas de dinheiro inventado, a financiar operações do MI5.

A inspiração para James Bond

Portugal e Espanha eram países neutros, embora esta última nação não o fosse na prática. Portanto, todos os espiões do mundo encontravam-se em Madrid ou em Lisboa. Tanto Dusko como Johnny frequentavam as duas cidades. Quando queriam juntar-se, Cascais era o ponto de encontro.

A neutralidade que Portugal conferia dentro de um continente em guerra, tornou o país atrativo para uma massa de refugiados anónimos, membros de antigos governos, banqueiros, diplomatas, homens de negócios, intelectuais, cientistas, artistas de cinema e muitos outros.

Foi em 1941 que Ian Fleming, da Divisão de Informações Navais britânica, e o agente-duplo Dusko Popov se cruzaram, nas salas do casino do Palácio Hotel, no Estoril. Dez anos depois, Fleming escrevia o seu primeiro romance de espionagem “Casino Royal”, e criava 007 – Bond, James Bond, o agente secreto mais famoso da história.

'Na Toca do Lobo - A História do James Bond da Vida Real', um livro de Larry Loftis, retrata a história de Dusko Popov - a inspiração para James Bond.

Fotografia de Larry Loftis, edição: Vogais

Nesse ano, Dusko Popov parte para os Estados Unidos da América, numa missão da Abwehr. Os objetivos passavam por estabelecer no país uma rede de espionagem, investigar as aquisições de urânio, que poderiam estar relacionadas com a bomba atómica, e fornecer dados sobre as defesas da base naval de Pearl Harbor.

Popov permaneceu no continente americano por quase um ano. Durante a missão, percebeu que os japoneses iam atacar Harbor. Fez chegar as suas suspeitas ao FBI, entidade a quem já tinha oferecido os seus préstimos, mas foi totalmente ignorado. O desinteresse do FBI e o resultado do ataque japonês foram duros para Popov.

Sem a ajuda americana e com o financiamento comprometido para dar resposta a um disfarce que o obrigava a uma vida de luxo, Popov começou a acumular dívidas. Para além disso, envolveu-se amorosamente com uma antiga namorada, Simone Simon. Simone era uma atriz francesa, estrela de Hollywood, o que levou a que os pormenores do romance fossem divulgados num tabloide americano. Berlim ficou em choque e com a suspeita de que Dusko Popov os estaria a enganar, trabalhando para os americanos.

Disfarce comprometido e risco de execução

Foi no ano de 1942 que os britânicos lhe comunicaram que o seu disfarce teria sido descoberto e que, caso voltasse a Lisboa, os alemães podiam prendê-lo, torturá-lo e executá-lo. Contrariando as recomendações, Dusko Popov seguiu em direção a Lisboa.

Na Avenida de Berna, Popov encontrou-se com Ludovico von Karsthoff, um controlador alemão. No entanto, as respostas do agente, que assumiu o fracasso da missão desde o início, embora também culpasse os alemães por terem deixando de o financiar, após alguns interrogatórios, a situação acaba por inverter-se.

Popov continuou a trabalhar para os alemães até 1944. E, para os Aliados, Dusko Popov faria ainda mais quatro missões determinantes para o desfecho da guerra: Mincemeat, Cícero, Fortitude e Copperhead.

Americanos tentam eliminar Dusko Popov e Johnny desaparece

Perto do final do ano de 1943, passava uns dias na Quinta do Grilo, em Carnide, quando alguém sabotou o seu BMW descapotável, acabando por explodir, embora sem vítimas. Mesmo sem saberem exatamente quem era Dusko Popov, os americanos tentavam eliminá-lo.

Nesse mesmo ano, o seu amigo íntimo, Johnny, recebeu notas falsas de um agente da Gestapo. Quando reclamou, percebeu que tinha tropeçado num negócio que estava prestes a enriquecer alguns membros do III Reich.

Ciente do perigo que Johnny corria, a Abwehr dava-lhe proteção e sugeriu que, caso se sentisse ameaçado, deveria fugir para Inglaterra. Como nunca quis deixar a mulher e o filho, nunca partiu. Em abril de 1944 desapareceu misteriosamente, deixando por apurar as causas do seu rapto.

Da partida de Lisboa ao reconhecimento em Londres

Em 1945, Dusko Popov tem a confirmação da morte de Johnny e deixa Lisboa, rumo a Londres. Terminada a guerra, Popov volta a ser um homem de negócios. Voltou a casar-se em 1962, com Jill Jonsson, com quem teve três filhos.

O reconhecimento do seu trabalho como agente secreto, por parte dos britânicos, fez-se em 1947, à porta fechada, numa sala do Hotel Ritz, em Londres. Recebeu a Ordem do Império Britânico.

Popov, indicado como forte modelo para a personagem James Bond, exímio no seu papel de agente duplo, amante de jogos de azar e carros velozes viria a morrer em 1981.

A sua coragem e sangue-frio permitiam que circulasse vezes sem conta entre os quartéis-generais dos Serviços Secretos Alemães em Lisboa e Madrid, mesmo quando corria o risco de ser abatido. Com um charme característico, cavalheiro, bonito e muito elegante, Dusko Popov era um verdadeiro playboy. A boa memória fotográfica, a teimosia e a coragem eram outros aspetos da sua personalidade.

A notabilidade ímpar fizeram de Dusko Popov um dos melhores agentes secretos.

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados