Missão ousada ‘de resgate’ resulta na descoberta de Manuscritos do Mar Morto e outros achados raros

Os textos bíblicos encontrados durante uma expedição israelita fizeram notícia, mas os arqueólogos estão entusiasmados com um cesto intacto da Idade da Pedra.

Publicado 29/03/2021, 12:29 WEST
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Os primeiros fragmentos de Manuscritos do Mar Morto descobertos em mais de 50 anos foram encontrados num local que os arqueólogos chamam ‘Caverna do Horror’.

Fotografia de SHAI HALEVI, AUTORIDADE DE ANTIGUIDADES DE ISRAEL

Os primeiros fragmentos de Manuscritos do Mar Morto encontrados em mais de meio século, e aquele que possivelmente é o cesto intacto mais antigo do mundo, estavam entre as descobertas feitas durante um esforço de vários anos para impedir pilhagens nas cavernas remotas do Deserto da Judeia, de acordo com a Autoridade de Antiguidades de Israel (AAI).

Em muitos casos, os arqueólogos tiveram de descer em rapel centenas de metros por penhascos íngremes e escavar pilhas de guano de aves e morcegos para descobrir artefactos, itens que podem ser o alvo de saqueadores equipados de forma semelhante nesta região árida e escassamente povoada ao longo da costa oeste do Mar Morto.

“Há anos que seguimos os saqueadores de antiguidades. Finalmente decidimos agir antes que os ladrões removessem [artefactos] do solo e das cavernas”, disse Amir Ganor, chefe da unidade de prevenção de roubo da AAI, através de um vídeo divulgado com o comunicado de imprensa.

Este projeto em andamento, que foi lançado em outubro de 2017, já investigou cerca de 600 cavernas ao longo de um trecho de 72 quilómetros de penhascos desertos numa região que abrange Israel e a Área C da Cisjordânia ocupada, onde Israel mantém o controlo civil e militar.

Embora a lei internacional geralmente proíba as escavações arqueológicas em territórios ocupados, o governo israelita alega que tem o direito de conduzir operações de resgate de emergência quando há património cultural em risco.

O objetivo principal deste projeto é catalogar a totalidade das cavernas que pontilham as falésias do Deserto da Judeia e documentar quais são as que contêm material arqueológico. Este projeto beneficia todos os arqueólogos que trabalham na região, e também pode permitir que a unidade de prevenção de roubo da AAI se concentre em locais que podem ser particularmente vulneráveis a pilhagens.

“Sabemos exatamente onde temos probabilidades de encontrar [artefactos] e onde os saqueadores podem escavar sem encontrar nada. Portanto, isso ajuda-nos bastante”, diz Eitan Klein, vice-diretor da unidade de prevenção de furtos, salientando que mais de 50% das cavernas documentadas até agora não continham quaisquer materiais arqueológicos.

‘Caverna do Horror’

Os fragmentos de manuscrito foram encontrados na Caverna 8, no desfiladeiro do riacho Nahal Hever, durante escavações realizadas em finais de 2019 e início de 2020. A Caverna 8 é conhecida pelo nome sonante de “Caverna do Horror”, depois de terem sido encontrados nesta caverna os restos mortais de 40 crianças e adultos durante escavações feitas no início da década de 1960. Acredita-se que eram vítimas judias que se esconderam das forças romanas durante a Revolta de Bar-Kokhba (132–135 d.C.). A entrada da caverna está localizada a mais de 75 metros de profundidade a partir do topo de um penhasco íngreme e provavelmente era acedida na antiguidade através de escadas de corda.

Arqueólogos com formação especial da divisão antirroubo da AAI desceram em rapel mais de 75 metros num penhasco íngreme para aceder à Caverna do Horror. Acredita-se que antigamente as pessoas acediam a esta caverna através de escadas de corda.

Fotografia de EMIL ALADJEM, AUTORIDADE DE ANTIGUIDADES DE ISRAEL

Os 20 fragmentos de pergaminho pertencem ao que se conhece por Pergaminho dos Doze, ou Pergaminho dos Profetas Menores, partes dos quais foram inicialmente descobertos em Nahal Hever por beduínos locais e vendidos em Jerusalém no início dos anos 50. Nos primeiros anos da década de 1960, foram feitas expedições à Caverna do Horror para localizar mais pedaços de pergaminho, que está datado de finais do século I a.C.

(Manuscritos do Mar Morto no Museu da Bíblia são falsificações.)

Tal como acontece com outros fragmentos do pergaminho dos Profetas Menores de Nahal Hever, os novos fragmentos foram escritos em grego por dois escribas diferentes, diz Oren Ableman, investigador da unidade de Pergaminhos do Mar Morto da AAI. A textura do pergaminho também é semelhante ou idêntica aos fragmentos descobertos anteriormente e que também pertencem ao manuscrito.

O Pergaminho dos Profetas Menores inclui 12 obras proféticas que aparecem na Bíblia Judaica e no Antigo Testamento Cristão. Até agora, os investigadores decifraram cerca de 11 linhas dos fragmentos recém-escavados, incluindo versos de Naum, que profetiza a destruição da capital assíria de Nínive no século VII a.C., e de Zacarias, que prevê a reconstrução do Templo em Jerusalém após o Exílio da Babilónia no século VI a.C.

Embora estes fragmentos de pergaminho não pertençam às versões mais antigas de que há conhecimento dos Profetas Menores, que datam de séculos anteriores, são “fascinantes e importantes”, diz Christopher Rollston professor de línguas e literaturas semíticas do noroeste na Universidade George Washington.

Arqueólogos peneiram sedimentos para encontrar pequenos artefactos, na entrada da Caverna do Horror.

Fotografia de EITAN KLEIN, AUTORIDADE DE ANTIGUIDADES DE ISRAEL

“Quase sempre que se encontra um novo fragmento de um texto bíblico em hebraico, aramaico ou grego, esses fragmentos lançam uma nova luz crucial sobre os antigos escribas, os antigos copistas e as antigas tradições textuais da Bíblia”, diz Christopher.

O mais importante, acrescenta Christopher, é que embora os fragmentos de pergaminho apresentem versículos da Bíblia Hebraica escritos em grego, as referências ao nome de Deus estão escritas em paleo-hebraico arcaico, que serve como uma espécie de lembrete textual para nem sequer se pronunciar o nome divino em voz alta.

Originalmente, o Terceiro Mandamento da Bíblia Hebraica, em Êxodo 20:7, declarava que não se devia invocar o nome de Deus em vão. “Proíbe a expressão do Seu nome de uma forma casual ou espontânea”, explica Christopher.

Mas, no período do Segundo Templo (597 a.C.–70 d.C.), “as pessoas decidiram que a melhor maneira de evitar o desrespeito deste mandamento era não dizer de todo o nome divino”.

Este não é o primeiro exemplo de escribas da antiguidade a usarem hebraico arcaico nas versões gregas da Bíblia Hebraica para impor a proibição de se invocar o nome de Deus, mas cada nova evidência física reforça a antiguidade desta proibição. “O facto de ser tratado de forma diferente nestes pergaminhos é uma evidência realmente importante disso mesmo”, diz Christopher.

Durante este projeto em andamento também foram encontrados os restos mortais de uma criança que foi enterrada na Caverna do Horror há cerca de 6.000 anos.

Fotografia de EMIL ALADJEM, AUTORIDADE DE ANTIGUIDADES DE ISRAEL

Outras descobertas feitas recentemente na Caverna do Horror incluem um conjunto de moedas da época da Revolta de Bar-Kokhba, bem como sandálias, pentes para os piolhos e pontas de flechas do mesmo período.

Os arqueólogos também ficaram surpreendidos com a descoberta de algo ainda mais antigo, numa cova rasa junto à parede da caverna: o corpo parcialmente mumificado de uma criança, deitado de lado e cuidadosamente embrulhado em tecido. A datação por carbono dos restos mortais revela que a criança morreu há cerca de 6.000 anos.

Cesto vazio, grandes questões

Embora estes fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto tenham sido os primeiros descobertos em mais de 50 anos, os arqueólogos pelo mundo inteiro também estão entusiasmados com um precedente ainda maior: o que pode ser o cesto intacto mais antigo do mundo, feito há cerca de 10.500 anos.

O cesto vazio foi encontrado durante escavações na Caverna 4, em Wadi Muraba'at, a cerca de 16 quilómetros a norte da Caverna do Horror, na Cisjordânia ocupada. Preservado pelo calor extremo e aridez da região, este cesto foi tecido com material vegetal e ainda possui a tampa intacta. O cesto é enorme, com capacidade para cerca de 95 litros. Um estudo preliminar indica que o cesto foi feito por duas pessoas, uma das quais era canhota. Os investigadores esperam que a análise da pequena quantidade de solo encontrada no fundo do cesto possa revelar o seu conteúdo.

Este cesto com 10.500 anos foi descoberto intacto, mas vazio. Uma futura análise pode revelar o que conteve este antigo recipiente, que tinha capacidade para cerca de 95 litros.

Fotografia de YANIV BERMAN, AUTORIDADE DE ANTIGUIDADES DE ISRAEL

“Não é de forma alguma o cesto mais antigo, e não foi o primeiro cesto que [os arqueólogos] encontraram”, diz Bill Finlayson, diretor do programa de Arqueologia em Perigo no Médio Oriente e Norte de África da Universidade de Oxford. “Os outros cestos estavam todos achatados, esmagados ou eram apenas fragmentos.” Outras evidências de cestos muito antigos, observa Bill, vêm das impressões de cestaria gravadas em sedimentos.

“Esta é a primeira vez que vemos realmente um em 3D, por assim dizer”, acrescenta Bill.

O cesto pertence a um período que os arqueólogos chamam Pré-Olaria Neolítico B (PONB), um período importante há 10.950 e 8.900 anos, quando as pessoas em regiões do Oriente Próximo começaram a transição de caça e coleta, e algumas das primeiras aldeias agrícolas começaram aparecer.

“Eles nem sequer tinham olaria. Na verdade, estavam apenas a fazer experiências com a agricultura”, diz Edward Banning, arqueólogo da Universidade de Toronto. “Mas viviam em aldeias enormes, numa sociedade que era bastante complexa.”

Embora as colheitas exigissem instalações de armazenamento para preservar os alimentos para além das estações de cultivo, a maioria dos locais do período PONB tem poços de armazenamento relativamente pequenos, ou nem sequer os tem, diz Edward.

“Nós assumimos desde sempre que eles guardavam as coisas em cestos, mas nunca tínhamos encontrado os cestos”, acrescenta Edward, dizendo que esta descoberta é “incrível”.

Edward Banning está particularmente perplexo em relação ao motivo pelo qual este cesto foi deixado numa caverna perto do Mar Morto há cerca de 10.000 anos, provavelmente longe das terras altas mais férteis a oeste, onde os habitantes do período PONB cultivavam as suas plantações. “Será que os povos do Neolítico estavam a colher sal para comercializar?” questiona Edward.

“Está muito bem preservado e vamos poder estudá-lo durante anos.”

Bill Finlayson salienta a complexa tecelagem do cesto, que além de funcional, também teria sido esteticamente agradável para os seus artesãos e proprietários do Neolítico.

“Na realidade, não é muito surpreendente. A escassez de restos orgânicos deste período é que faz com que nos esqueçamos da quantidade de coisas que estas pessoas provavelmente tinham.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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