A produção de cerveja no tempo dos reis em Portugal

A cerveja em Portugal acarreta uma dimensão história que remonta há muitos anos. Do tempo dos reis à atualidade, reveja momentos marcantes da bebida que se disseminou por todo o mundo.

Publicado 28/04/2021, 09:35
cerveja

A cerveja, tal como o vinho, possui uma origem antiga e um processo básico de fabrico.

Fotografia de KRISTA ROSSOW

Datar a descoberta da cerveja no mundo é incerto, embora se aponte que a sua produção conte com mais de dez mil anos, coincidindo com a idade da descoberta do cereal. No Egito antigo, era usada para consumo, em rituais de beleza e até como moeda de troca.

Reza a lenda que a cerveja chegou a terras lusas através de Lísias, filho do deus Baco. Registos no livro “Monarchia Lusitana”, de Frei Bernardo de Brito, no ano de 1597, indicam que este ensinou os povos da época a produzir cerveja a partir de cevada e trigo.

Estudos arqueológicos recentes revelam que os lusitanos, povos pré-romanos que habitaram a Península Ibérica, viviam essencialmente da agricultura rudimentar, do pastoreio e da recolha de produtos que a natureza oferecia.

Dos romanos aos árabes e ao hábito do consumo de cerveja

Entre os hábitos da época, existem indícios de que se alimentavam de carne de cabra e faziam pão com fruto do sobreiro, em vez de cereais. Usavam manteiga, em vez de azeite e, bebiam água e uma espécie de cerveja de cevada, já que o vinho era reservado para ocasiões especiais.

Após um período em que os romanos predominavam e davam preferência ao vinho, com a queda deste império no Ocidente e a chegada dos povos bárbaros, como os Suevos, Alanos e Visigodos, o consumo da cerveja voltou.

A passagem dos Árabes na Península não alterou os hábitos da produção de cerveja, mas com a conquista de D. Afonso Henriques, implantou-se uma cultura que abria portas à produção e consumo de cerveja em Portugal.

Após algumas batalhas com auxílio de estrangeiros, que procuravam fama e riqueza lutando ao lado dos portugueses, os reis ofereciam-lhes parcelas de terra, com o intuito de assistir ao repovoamento e aproveitamento agrícola.

Sendo muitos desses nobres, provenientes da Europa Central, cultivavam cereais, que posteriormente eram utilizados na produção de cerveja. Tal como se pode ler na obra de Frei Bernardo de Brito, “entrando Lísias na antiga Lusitânia, ensinou a fazer cerveja de cevada ou trigo, e deste licor usaram os antigos portugueses muito tempo, pelo pouco vinho que se cultivava neste país”.

O comércio de cerveja aumentou significativamente em 1570

Ainda sobre a produção de cerveja em Portugal, encontram-se registos do desembarque de cerveja nos portos de Lisboa e Porto, proveniente do Norte da Europa. O comércio da Liga Hanseática com Portugal, foi impactante entre 1570 e 1580, diminuindo no século XVII, devido à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).

O século XVII regista notícias do consumo cerveja em grandes quantidades, refletindo-se no facto de existir na época, um local denominado de Pátio da Cerveja, situado na antiga freguesia da Conceição Nova, em Lisboa. Ainda assim, o consumo era menos acentuado que em outros países europeus.

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Outro relato histórico do percurso da cerveja em Portugal, passa pela chegada da Infanta D. Catarina de Bragança a Portsmouth, que se preparava para casar com o rei inglês. Após uma longa viagem, ficou hospedada em King’s House, onde acabou por ficar retida devido a uma infeção na garganta.

Na época, a recomendação médica que chegou da corte foi que a Infanta tomasse um copo de cerveja. Apesar de bastante vulgar em Inglaterra, D. Catarina de Bragança recusou-se a beber e pediu uma chávena de chá, provocando assim um incómodo entre os presentes.

Defensores do vinho opunham-se à comercialização da cerveja

A entrada tardia da cerveja em Portugal relacionou-se com a forte concorrência com o vinho. Ainda nesse sentido, no ano de 1689, a Câmara de Lisboa apresentou uma queixa ao rei, onde demonstrava o seu desagrado sobre a venda da cerveja a baixo custo, representando uma ameaça ao vinho.

Os defensores do vinho atribuíam significados pejorativos à cerveja, denominando-a até "água choca". Sentiam-se ameaçados pelo interesse na cerveja em Portugal, que assumiam que podiam colocar em risco o valor das vinhas.

Em resposta à queixa apresentada, foi ordenado que a cerveja em Portugal seria proibida exclusivamente em tabernas, no entanto, podia ser vendida nas casas de pasto, por serem necessárias aos estrangeiros.

Em suma, na época a cerveja era destinada apenas aos estrangeiros e apenas importada. Porém, documentos datados de 1710 falam da produção de cerveja em Portugal e registos de entradas de mercadorias nos portos nacionais.

Centralcer e Unicer - impulsionadoras da cerveja em Portugal

A indústria da cerveja em Portugal tem, até à atualidade, a empresa Centralcer e a Unicer, como empresas de destaque. A primeira surgiu em 1836, na altura em que foi fundada a Fábrica da Cerveja da Trindade, em Lisboa.

Em 1934, nasceu a Sociedade Central das Cervejas (SCC), fruto da associação de várias companhias de cerveja. Um ano depois, a Fábrica de Cervejas Trindade foi integrada na SCC. Em 1940, a marca Sagres surge no mercado e procura ocupar os diferentes segmentos de mercado.

A SCC lança a Imperial em 1941, sinónimo de cerveja de barril servida a copo. Pela aceitação das diferentes marcas no mercado nacional, iniciou-se a exportação da cerveja, com especial destino aos Territórios Ultramarinos.

Devido à crise nas colónicas e às inúmeras atividades comerciais e industriais que a sociedade levou a cabo, a década de 1970 já foi um período bastante conturbado para a SCC. A época foi marcada pelo 25 de abril de 1974 e deu-se uma restruturação do setor.

A líder do mercado da cerveja em Portugal

Em 1989, a cerveja Sagres destaca-se como líder de mercado, com uma quota de 45% e, em 1990, é privatizada. Surge uma nova reestruturação e expansão, com lançamento de marcas sem álcool, como a Jansen, um relançamento da Imperial e, cervejas de clubes futebolísticos.

A partir de 2000, a SCC foi adquirida pela Scottish & Newcastle, um dos maiores grupos cervejeiros europeus, agregando marcas de cerveja em Portugal como a Sagres e as suas versões, Imperial, Jansen e versões, assim como, marcas internacionais como Foster’s, Grimbergen, Kronenbourg, Beamish, Bud e John Smith’s.

Em 1890, a Unicer estremece o mercado nacional

A Unicer, grande concorrente da Central de Cervejas, teve origem em 1890. Em 1920, destaca-se pela contratação de mão-de-obra feminina e, em 1926. começou a ser reconhecida pela qualidade da sua cerveja. Os anos 30 marcaram o início da expansão da sua cerveja em Portugal.

O crescimento da empresa era constante e, em meados da década de 1950, as receitas atingiam o valor recorde de 28 milhões de escudos, produzindo marcas como Cristal, Super Bock, Invicta Negra, Invicta Cola, Além-Mar e Zirta.

Em 1964, ocorre a produção da primeira cerveja preta na nova fábrica, em Leça do Balio, representando um aumento significativo das vendas e dos lucros. Na década de 1980 assistiu-se à consolidação da empresa, tornando-a líder no setor.

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Atualmente, a cerveja é uma das bebidas mais apreciadas do mundo. Novas marcas debatem-se no mercado e outras tentam criar produtos atrativos, embora a Centralcer e a Unicer continuem a controlar 90% do setor.

O consumo de cerveja em Portugal continua a crescer e, assim como a água e o café, a cerveja é uma das bebidas mais consumidas, existindo em centenas de variedades, cores, sabores e corpos para todos os gostos.

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