Arqueólogos descobrem monumento misterioso escondido à vista de todos

Uma nova descoberta traz ao de cima uma velha questão: porque é que duas antigas superpotências passaram abruptamente da diplomacia para a violência.

Publicado 21/04/2021, 12:43
Tikal Guatemala

As escavações em Tikal, uma antiga metrópole maia no norte da Guatemala, revelam novas informações sobre a relação entre duas das grandes civilizações da Mesoamérica.

Fotografia de Shutterstock, Nat Geo Image Collection

A olho nu – e nos mapas dos arqueólogos – parecia apenas mais uma colina no meio da paisagem ondulante de Tikal, a antiga cidade-estado maia nas terras baixas do norte da Guatemala. Mas quando os investigadores ampliaram uma imagem aérea captada com um equipamento de varredura a laser chamado LiDAR (abreviatura para “Light Detection And Ranging”), conseguiram ver claramente a forma de uma estrutura feita pelo homem escondida debaixo de séculos de acumulação de solo e vegetação.

O edifício – que afinal é uma pirâmide – fazia parte de um antigo bairro que incluía um enorme pátio fechado e estava rodeado por edifícios mais pequenos. Mas estas estruturas eram diferentes de quaisquer outras conhecidas em Tikal, com uma forma, orientação e outras características arquitetónicas distintas das que tipicamente são encontradas em Teotihuacan, a antiga superpotência perto da atual Cidade do México, a mais de 1280 quilómetros a oeste de Tikal. Observando mais de perto, o complexo parece ter uma réplica com metade do tamanho de uma enorme praça de Teotihuacan, conhecida por Cidadela, que inclui a Pirâmide da Serpente Emplumada.

“As semelhanças nos detalhes são impressionantes”, diz Stephen Houston, arqueólogo da Universidade Brown, que foi o primeiro a reparar nestas características.

Esta nova descoberta de um enorme monumento no coração de Tikal – um dos sítios arqueológicos mais escavados e estudados na Terra – sublinha a forma como a tecnologia LiDAR está a revolucionar a arqueologia na América Central, onde as densas selvas geralmente inviabilizam as imagens de satélite. E também levanta uma questão fascinante: o que fazia este enclave de Teotihuacan no centro de uma capital maia?

Teotihuacan inclui um complexo de pirâmides conhecido por Cidadela. Os arqueólogos que trabalham em Tikal descobriram o que parece ser uma réplica com metade do tamanho deste complexo.

Fotografia de DeAgostini, Getty Images

No verão do ano passado, guiado pelas imagens da tecnologia LiDAR, Edwin Román-Ramírez, diretor do Projeto Arqueológico do Sul de Tikal, iniciou uma série de escavações. Abrindo um túnel através das ruínas, a sua equipa descobriu atividades de construção, enterros, cerâmica e até armamento típico de Teotihuacan do início do século IV. Desde um incensário decorado com uma imagem do deus da chuva de Teotihuacan a dardos feitos de obsidiana verde do México Central, os artefactos sugerem que o local pode ter sido um assentamento quase autónomo no centro de Tikal, com ligações à distante capital imperial.

“Já sabíamos que as pessoas de Teotihuacan tinham pelo menos alguma presença e influência em Tikal e nas áreas maias nas proximidades antes do ano 378”, diz Edwin Román-Ramírez. “Mas não se sabia se os maias estavam apenas a emular os aspetos do reino mais poderoso da região. Agora, há evidências de que a relação ia para além disso.”

Thomas Garrison, geógrafo da Universidade Texas-Austin, especializado na utilização de tecnologia digital para investigações arqueológicas, diz que as descobertas demonstram como, de certa forma, as antigas cidades das Américas podem não ter sido tão diferentes das cidades cosmopolitas da atualidade. “Havia um ‘melting pot’ de culturas e pessoas de diferentes origens e línguas a coexistir, mantendo as suas identidades.”

Um monumento de pedra de Tikal comemora a chegada de um líder militar conhecido por Nascido do Fogo em 378 – o ano em que a poderosa dinastia de Teotihuacan derrubou Tikal.

Fotografia de Kenneth Garrett, Nat Geo Image Collection

Esta investigação é financiada pela Iniciativa PACUNAM LiDAR, que produziu descobertas revolucionárias em 2018, revelando uma vasta rede interligada de antigas cidades nas terras baixas maias que abrigavam muitas mais pessoas do que se pensava anteriormente.

Edwin alerta que estas descobertas não provam em definitivo que as pessoas que construíram o complexo eram de Teotihuacan. “Mas o que descobrimos sugere que, durante mais de um século, pessoas que estavam pelo menos muito familiarizadas com a cultura e as tradições de Teotihuacan viveram lá na sua própria colónia, num setor distinto em identidade e a praticar a religião de Teotihuacan.” Uma análise isotópica pendente aos ossos encontrados numa câmara mortuária pode fornecer mais detalhes ao referir onde é que o falecido viveu em diferentes momentos da sua vida.

Com base nos estilos de cerâmica encontrados nas ruínas, a equipa estima que a construção do local começou pelo menos 100 anos antes de 378, uma data crucial na história maia. De acordo com as inscrições maias, o rei de Teotihuacan enviou um general conhecido por Nascido do Fogo para derrubar o rei de Tikal, Pata Jaguar, e colocou o seu filho a governar. Nascido do Fogo chegou a Tikal no dia 16 de janeiro de 378, o mesmo dia em que Pata Jaguar “entrou na água” – uma metáfora maia para a morte.

Após a tomada de posse, Tikal floresceu durante vários séculos, conquistando e pacificando cidades-estado nas proximidades e difundindo a sua cultura e influência pelas terras baixas. A hegemonia de Tikal durante este período está bem documentada, mas o que permanece desconhecido é a razão pela qual, após décadas de coexistência pacífica, Teotihuacan se virou contra o seu antigo aliado.

Famosa pelas suas pirâmides imponentes, a poderosa Teotihuacan, no México Central – que já foi a maior cidade das Américas – espalhou o seu poder e influência por toda a parte.

Fotografia de Max shen, Getty Images

Escavações adicionais em Tikal podem revelar mais detalhes, mas uma descoberta feita recentemente em Teotihuacan sugere que um choque cultural pode ter desencadeado a desavença. Uma equipa liderada por Nawa Sugiyama, arqueólogo da Universidade da Califórnia, em Riverside, descobriu um “bairro maia” em Teotihuacan que é semelhante ao posto avançado de Teotihuacan em Tikal. Esta coleção de edifícios luxuosos estava decorada com intrincados murais maias, sugerindo que os seus habitantes podem ter sido diplomatas de elite ou famílias nobres.

Mas, em 378, pouco antes da conquista de Tikal, estes murais foram partidos e enterrados. Este facto, e também um fosso nas proximidades cheio de esqueletos humanos despedaçados, implicam uma passagem abrupta da diplomacia para a violência.

“O que é que correu mal nesta relação para termos um grupo de habitantes maias de elite a serem massacrados, os seus palácios destruídos, todas as suas coisas removidas e, de seguida, a sua terra natal invadida e tomada por um rei criança?” pergunta Francisco Estrada-Belli, arqueólogo da Universidade de Tulane. “Estamos claramente a desvendar alguns dos acontecimentos mais importantes da história Maia-Teotihuacan – e um dos grandes enigmas da América Central está um pouco mais perto de ser decifrado.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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