No interior da primeira clínica de vacinas do mundo num campo de refugiados

Fugiram da Síria e vivem em abrigos – mas felizmente também têm acesso a vacinas.

Por MUHAMMED MUHEISEN
Fotografias Por MUHAMMED MUHEISEN
Publicado 28/04/2021, 12:16
Zaatari Refugee Camp- aerial view 2

Quando o fotógrafo Muhammed Muheisen captou esta imagem a partir de um helicóptero, algo o impressionou sobre a paisagem lotada de abrigos pré-fabricados no campo de refugiados de Zaatari. Aqui e ali, vagamente visíveis entre os telhados desbotados, havia pequenas manchas coloridas. “Enquanto fotógrafo, estou sempre à procura de cores”, diz Muhammed. “E olhando para aquelas pequenas caixas de fósforos que são as suas casas, começamos a ver cores – algumas amarelas, algumas vermelhas, algumas verdes.” Cada uma era um abrigo que uma pessoa ou família decidira pintar, tornar brilhante e especial, de maneira a que um refúgio estrangeiro, mesmo que temporariamente, se pudesse parecer um pouco mais com um lar.

Fotografia de Muhammed Muhisen

CAMPO DE REFUGIADOS DE ZAATARI, JORDÂNIA – Ouvi dizer que ela tinha 110 anos, uma refugiada síria com uma atitude e sentido de humor incríveis – e tinha acabado de ser vacinada contra a COVID-19 na sua própria residência, um pequeno abrigo dentro do campo de refugiados de Zaatari, na Jordânia. Quando a encontrei, ela estava tranquilamente sentada na cama. Um oficial refugiado mostrou-me a sua identificação, chamava-se Zahra.  O seu aniversário mais recente não tinha sido assinalado: Zahra tinha 111 anos. Tinha nascido em janeiro de 1910. Consegue imaginar algo assim? Zahra sobreviveu a todas as guerras, fugiu do conflito civil na Síria, perdeu o marido, a sua nova vida é feita dentro de um campo de refugiados, surge uma pandemia e ela é uma das primeiras a ser vacinada?

Existe uma mensagem de esperança nesta história.

O campo de Zaatari, que fica a cerca de 16 quilómetros da fronteira com a Síria, tornou-se num dos maiores campos de refugiados do mundo. Criado em 2012 com o apoio da Jordânia e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o campo devia ser um lugar seguro e temporário para os sírios que fugiam do conflito civil no seu país. Cerca de 79.000 pessoas vivem agora em Zaatari, e quando soube que o campo tinha aberto o seu próprio centro de vacinação COVID-19 – o primeiro centro deste tipo localizado num campo para refugiados, de acordo com o ACNUR – queria vê-lo com os meus próprios olhos.

Mas não é assim tão simples conseguir visitar Zaatari. O campo é verdadeiramente uma cidade de dimensão médio: tem bairros, zonas comerciais, lojas para noivas, antenas parabólicas, energia solar, e serviços de entrega de pizzas. A entrada exige sempre a permissão das autoridades, e Zaatari também está em confinamento há meses devido à pandemia – as autoridades de saúde confirmaram 2.021 casos de COVID-19 dentro do campo, com 20 mortes. Sou da Jordânia, nascido em Jerusalém, e há mais de uma década que documento a crise dos refugiados em diferentes partes do mundo. Eu já tinha visto Zaatari algumas vezes ao longo dos anos; atuo como embaixador global para o Conselho de Turismo da Jordânia e, em 2019, pude sobrevoar o campo de helicóptero e fotografar a sua enorme extensão a partir do ar.

O que me impressionou naquele momento, e novamente quando pude assistir a um dia de vacinações no interior de Zaatari em finais de março, foi a resiliência. A capacidade humana de adaptação. A esperança. Depois de as pessoas mais velhas terem sido vacinadas por equipas móveis, um autocarro começou a recolher refugiados nos seus vários abrigos e a levá-los para um centro de saúde do campo agora transformado em clínica de vacinação COVID-19. As pessoas inscreveram-se antecipadamente online através dos seus telemóveis. Não há muitos computadores no campo, mas a maioria dos refugiados usa ou tem acesso a telemóveis. Os familiares ou amigos mais jovens oferecem ajuda para as inscrições quando é necessário.

A equipa de vacinação era completamente composta por mulheres, o que foi bom, porque foi um conforto especial para as mulheres mais tradicionais. E eu estava orgulhoso da Jordânia, devo dizer. Todas estas pessoas, que fugiram da guerra e agora enfrentavam uma pandemia, iam ter uma segunda oportunidade.

Bicicletas e carroças puxadas por burros fazem parte do sistema de transportes improvisado do campo de Zaatari, transportando passageiros e mercadorias por todo o assentamento de cinco quilómetros quadrados. Os refugiados construíram recintos privados para os burros – e plantaram hortas – nos seus terrenos desérticos designados. A vedação de arame envolve um escritório central do ACNUR, a agência das Nações Unidas para os refugiados que, juntamente com o governo da Jordânia, gere o campo.

Fotografia de Muhammed Muheisen

Esquerda: No interior da nova clínica de vacinação COVID-19 de Zaatari, a enfermeira Fatimah Ahmad administra aos refugiados sírios a segunda dose. A aparente fragilidade de Abdulkareem, de 69 anos, é enganadora; ele parou na clínica e saiu a acelerar na sua mota. “Eu só acreditei nisto quando vi as notícias, o que a doença faz às pessoas”, disse Abdulkareem. “Depois fiquei apavorado.”
Direita: Aiyous, de 81 anos, prepara-se para levar a vacina, com o filho a estender a mão para ajudar. O pano preto sobre o nariz e a boca de Aiyous não é um niqab – é uma máscara para a COVID.

Fotografia de MUHAMMED MUHEISEN

Completamente vacinada após a segunda dose, Fatimah, de 64 anos, espera dentro do autocarro da clínica de Zaatari para regressar ao abrigo onde agora vive como refugiada síria. Os idosos, os primeiros a receber a vacina COVID-19, estão em grande minoria em Zaatari; mais de metade dos atuais habitantes do campo tem menos de 18 anos.

Fotografia de Muhammed Muhisen

Visto de um helicóptero em julho de 2019, o campo de refugiados de Zaatari estende-se em direção ao horizonte. Instalado pela primeira vez com tendas em 2012 como refúgio temporário para os sírios que fugiam do conflito civil no seu país, Zaatari tornou-se na quarta maior cidade da Jordânia – com pequenos abrigos pré-fabricados, casas de banho privadas, máquinas de lavar, energia solar, instalações de reciclagem e um distrito comercial conhecido localmente por “Champs-Élysées”.

Fotografia de Muhammed Muhisen

Estes refugiados da cidade síria de Daraa, onde as manifestações antigovernamentais começaram há uma década, são agora residentes vacinados contra a COVID-19 no campo de Zaatari. Nas imagens vemos Adnan, de 58 anos, à esquerda, e Samia, de 76 anos, à direita, após a segunda dose da vacina na nova clínica de inoculação em Zaatari.

Fotografia de MUHAMMED MUHEISEN

Uma profissional de saúde verifica a temperatura na testa de Fatimah, uma refugiada síria de 64 anos. O passo seguinte de Fatimah na clínica é a estação de inoculação, para uma segunda dose da vacina COVID-19. Nesta primavera, a agência de refugiados da ONU, que ajuda a gerir Zaatari, confirmou 20 mortes por COVID-19 entre os 79 mil habitantes do campo.

Fotografia de Muhammed Muhisen

Com 111 anos, a refugiada síria Zahra perdeu grande parte da sua audição, mas mantém um sentido de humor apurado; quando o fotógrafo Muhammed Muheisen entrou no seu abrigo acompanhado por uma funcionária da agência de refugiados das Nações Unidas, Zahra brincou de forma provocadora com os dois. Os profissionais de saúde, em vez de pedirem a Zahra para entrar no autocarro para se dirigir à nova clínica de vacinação COVID-19 do campo, fizeram duas visitas ao abrigo de Zahra para a vacinar na sua casa em Zaatari.

Fotografia de Muhammed Muhisen


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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