A presença do reino suevo na formação de Portugal

Portugal foi, durante muitos anos, governado pelo reino suevo. Os vestígios da presença sueva fazem-se notar na formação do Portugal que hoje conhecemos.
Fotografia de Shutterstock
Publicado 20/07/2021, 10:37 WEST

Antes de Portugal ser o Condado Portucalense, pertencente a Castela e governado por D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, que viria a ser o primeiro Rei de Portugal, começou por ser a Lusitânia.

Após alguns séculos de domínio romano, os suevos e os visigodos invadiram a Lusitânia e, durante muitos anos, todo o território que abrange a Galiza e o Norte de Portugal, foi governado pelos suevos.

A ocupação dos suevos

No início do século V, o Império Romano do Ocidente sofreu uma grande instabilidade militar, económica e política, o que levou a que numerosos povos germânicos começassem a atacar os postos fronteiriços romanos no rio Rhin.

O Reino Suevo, também denominado Reino da Galécia, existiu no noroeste da Península Ibérica, entre 441 e 585, e foi um dos primeiros reinos a separar-se do Império Romano. Este reino germânico ocupou inicialmente as regiões costeiras das províncias romanas da Galécia e do norte da Lusitânia, estabelecendo a sua capital em Braga.

Os suevos mantiveram a sua independência até 585, ano em que o reino foi anexado pelos visigodos e convertido na sexta província do Reino Visigodo.

Bracara Augusta, a capital

Por volta do ano 409, dirigidos pelo rei Hermerico, cerca de 40 mil suevos chegaram à província romana da Galécia, onde se fixaram e constituíram o primeiro reino estável da Idade Média europeia, tornando-se assim Bracara Augusta, atual Braga, a sua capital.

O reino surge após o pacto “foedus”, estabelecido com Roma, que permitia aos suevos governar a província da Galécia, desde que o imperador romano se mantivesse como seu superior.

Após a morte de Hermerico, o seu filho Réquila, assumiu o trono e dirigiu expedições de saque, entre os anos 438 e 448. Dessa forma, o norte da província romana da Lusitânia integrou suevos e galaico-romanos, manifestando a plena independência do Império.

A herança dos romanos

A partir deste canto da Península, o Reino Suevo criou raízes, lançou estruturas e aproveitou o que os romanos tinham feito, tal como as estradas, as pontes, os aquedutos e outras obras na área das comunicações.

O rei Requiário foi o sucessor de Réquila, entre 448 e 456, tendo adotado o catolicismo em 449. Foi o primeiro rei a levar a cabo uma conceção pioneira de governo, apoiada na igreja católica, e o primeiro a cunhar a própria moeda.

No ano de 456, Roma enviou um exército constituído por visigodos e romanos, para lutar na batalha do rio Órbigo contra os suevos, conseguindo derrotá-los e assassinar o rei Requiário.

Após a vitória de Roma, o Reino Suevo dividiu-se, sendo governado em simultâneo pelo rei Frantano e pelo rei Aguiulfo, até ao ano de 457. Neste ano, Maldras reunificou o reino, mas tal feito apenas dura dois anos, tendo sido também assassinado numa conspiração entre romanos e visigodos.

Martinho de Dume, a figura com elevada importância na formação territorial

A conspiração não conseguiu eliminar o Reino Suevo, sendo este novamente dividido entre dois reis – Frumario (459-463) e Resismundo, filho de Maldras (459-469). Este último, no ano 465, viu-se obrigado a adotar o arianismo, devido à influência visigoda. Durante mais de cem anos, os suevos permaneceram sob a heresia ariana.

O reinado de Carriarico, entre 550 e 559, converteu o reino novamente ao catolicismo, o que significou a rutura com os visigodos. A Carriarico sucedeu Teodomiro (559-570), em cujo reinado se celebrou o Primeiro Concílio de Braga (561), instituindo-se esta assembleia como órgão assessor do rei. Neste período, destaca-se Martinho de Dume, cuja participação na organização territorial e na legitimação cristã conduziu a um governo estável e a uma população plenamente integrada e unida.

No ano 572, veio a celebrar-se o Segundo Concílio de Braga, pelo rei Miro (570-583), consolidando, assim, o contributo à governação e estabelecimento da justiça. No ano 577 teve lugar a guerra civil visigoda, na qual interveio Miro.

No ano 583, Miro organizou uma campanha de apoio a Sevilha e fracassou, tendo morrido no regresso desta expedição. Nesta mesma altura, começaram a surgir muitas lutas internas no Reino Suevo.

O fim do Reino Suevo e o seu legado no ADN de Portugal

O Reino Suevo durou pouco mais tempo, uma vez que em 585, Leovigildo derrotou Andeca e anexou o seu território ao reino toledano dos visigodos, que viriam a converter-se apenas em 589.

Passados 174 anos sob domínio suevo no ocidente da Península Ibérica, ainda que a influência se possa prolongar até à devastação da Galécia pelos mouros (714 d.C.), a presença deste povo deixou muitas marcas culturais no território.

Os vestígios dos suevos na etnologia descobrem-se nos tipos de arado, como o quadrangular, o mangual e o espigueiro, assim como na onomástica da região. O conjunto de técnicas e alfaias agrícolas galego-minhotas, de origem germânica, incluem-se na região do Reino Suevo.

Embora sejam escassos, também existem vestígios arqueológicos da influência dos suevos. Entre eles, destaca-se uma urna funerária em forma de celeiro, da Idade de Bronze.

Vários exemplares da numismática sueva também se encontram no noroeste da Península Ibérica, visto que desde cedo os suevos sentiram a necessidade de cunhar moedas. Havia moedas de ouro, cunhadas pelos próprios suevos, e moedas de prata, cunhadas durante o reino de Richiarus, o primeiro rei cristão dos suevos (448-456).

A nível linguístico, o estudo “Vestígios da presença sueva no noroeste da Península Obérica: na etnologia, na arqueologia e na língua”, de Brian F. Head e Larissa Semënova-Head, destaca a influência germânica no noroeste da Península.

A influência linguística revela-se, principalmente, em nomes de lugares ou nomes de pessoas, tais como Alda (nome de mulher, registado em Portugal em 1220) ou Aldia (nome de homem, registado em 939).

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