A última monarquia de África está em tumulto, enquanto manifestantes desafiam o rei de Eswatini

Uma crise fervilha na África Austral, enquanto um país interior, anteriormente conhecido por Suazilândia, reprime as manifestações pró-democracia.

Publicado 28/07/2021, 12:14
Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 - Cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020

A nadadora Robyn Young, porta-bandeira do Reino de Eswatini, lidera o seu contingente no desfile de atletas na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Em Eswatini, manifestantes pró-democracia saíram às ruas para exigir uma reforma política.

Fotografia de Kai Pfaffenbach, Reuters

Uma nação está a fazer a sua estreia nas Olimpíadas em Tóquio. Anteriormente conhecido por Suazilândia, o Reino de Eswatini – a última monarquia absoluta de África – é representado por quatro atletas que procuram o ouro no atletismo, boxe e natação.

Enquanto estes cidadãos competem no Japão, muitos dos seus familiares, amigos e fãs na África Austral estão envolvidos numa luta completamente diferente – com consequências duradouras e mortais.

Nos últimos dois meses, Eswatini tem estado envolto em agitação. Manifestantes pró-democracia saíram às ruas para pedir uma reforma política e expressar insatisfação com o governo do rei Mswati III, o último monarca absoluto de África.

Durante 35 anos, o rei Mswati III (aqui fotografado em 2017) governou enquanto monarca absoluto do Reino de Eswatini, anteriormente conhecido por Suazilândia.

Fotografia de Gulshan Khan, AFP/Getty Images

Estes protestos foram desencadeados pela morte do estudante de direito Thabani Nkomonye, de 25 anos, que terá sido morto pela polícia de Eswatini. Desde então, morreram pelo menos mais 40 pessoas e mais de 150 manifestantes foram hospitalizados com ferimentos resultantes de disparos, espancamentos e uso excessivo da força por parte da polícia.

Em resposta aos protestos, a Comissão de Comunicações de Eswatini suspendeu o acesso às redes sociais e plataformas online. Esta ação impediu que os cidadãos documentassem a violência policial que estava a acontecer. A repressão do governo também limitou o acesso dos jornalistas que cobrem as manifestações.

De Suazilândia a Eswatini

Durante grande parte do século XX, este pequeno país interior esteve sob controlo britânico, conquistando finalmente a sua independência numa transferência amigável de poder em 1968.

Em 2018, para celebrar meio século de vida da nação e para se afastar do passado colonial do país, o rei anunciou que a terra anteriormente conhecida por Suazilândia passaria a ser conhecida por Reino de Eswatini.

 “Os países africanos, quando se tornam independentes, regressam aos seus nomes antigos”, disse o rei Mswati III à multidão. O rei referia-se a um regresso aos nomes tradicionais ou históricos dos tempos que antecederam a colonização.

O rei já governa esta nação, que faz fronteira com a África do Sul e Moçambique, há 35 anos. Os partidos políticos estão proibidos e quase dois terços dos 1.2 milhões de habitantes do país vivem abaixo da linha de pobreza, de acordo com o Banco Mundial.

Tal como Stephen Leahy já tinha dito anteriormente à National Geographic, o rei Mswati III há muito que se queixa de que as pessoas que não são de África confundem o seu país com a Suíça. Mas, apesar de Eswatini, “a terra dos suazis”, ter algumas montanhas, é muito mais pequeno; aliás, é mais pequeno do que Nova Jersey. Ao contrário da democracia direta da Suíça, o rei Mswati herdou o trono em 1986 do seu pai, Sobhuza II, que reinou durante 82 anos.

Mulheres compram produtos num mercado em Manzini, o centro de comércio de Eswatini e o maior centro urbano do país.

Fotografia de Edwin Remsberg, VWPics/Redux

Nos últimos anos, Eswatini gerou polémica devido aos seus esforços de envolvimento no comércio de chifres de rinoceronte. Na Conferência das Partes da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (CITES) de 2019, Eswatini propôs a reabertura do comércio internacional de chifres de rinoceronte-branco. Este reino pode comercializar quantidades limitadas de rinocerontes-brancos-do-sul vivos, bem como troféus de caça, mas a sua proposta de entrada no comércio internacional de chifres de rinoceronte, que atualmente é proibido, foi completamente rejeitada.

De acordo com as informações avançadas pela NPR, Eswatini continua a ter dificuldades com a COVID-19, que provocou quase 700 mortos no país, e o governo não está a conseguir pagar os salários aos professores, um problema que gerou protestos no início deste ano. Segundo as notícias, “o rei e as suas 15 esposas continuam a viver uma vida opulenta”.

O rei está a perceber que mudar o nome de uma nação empobrecida não é remédio para todos os males do seu povo. Mesmo que o novo nome pretenda recuperar a ancestralidade num esforço para despertar o orgulho nacional, muitos dos cidadãos do país estão mais focados no futuro enquanto se envolvem em protestos contra o último monarca absoluto do continente africano.

Esquerda: Superior:

Os mapas políticos do Atlas de Referência da National Geographic mostram a mudança da Suazilândia para Eswatini.

Direita: Fundo:

Estes mapas políticos mostram a mudança, conforme implementado a partir da 10ª (2015) à 11ª (2020) edição do nosso atlas.

Fotografia de NG MAPS

“Nós somos a juventude da Suazilândia e estamos muito deprimidos com o governo”, disse um jovem manifestante à Al Jazeera em junho. “O nosso governo não está a ser justo; é apenas a terra de um homem.”

O estado atual de agitação civil

Em resposta aos protestos que agitaram Eswatini, o rei Mswati III anunciou que o ex-diretor do fundo de pensões, Cleopas Dlamini, iria substituir o primeiro-ministro Ambrose Dlamini, que morreu em dezembro após contrair COVID-19. Este anúncio foi feito depois de manifestações que exigiam o direito de eleger democraticamente um primeiro-ministro, entre outras reformas.

“Tenho orado por um homem que traga normalidade ao país, restaure o país e ressuscite a economia”, disse Mswati às multidões. No entanto, de acordo com a BBC, o rei descreveu os protestos anti-monarquia como “satânicos”, referindo que tinham feito o país regredir.

Conforme ficou estabelecido por um decreto de 1972, o sistema político do país não reconhece legalmente os partidos políticos e estes não têm permissão para disputar eleições. Isto significa que, quando concorrem aos lugares parlamentares, os candidatos devem concorrer de forma independente e sem o apoio de um partido. No passado, a dissidência política não era tolerada, com ativistas e líderes sindicais a serem silenciados por leis severas.

Eswatini faz fronteira com Moçambique e África do Sul, como podemos ver nesta imagem captada no Posto Fronteiriço de Oshoek, no dia 1 de julho de 2021.

Fotografia de Rodger Bosch, AFP/Getty Images

“Contudo, com o aumento da dissidência, há uma convergência de demandas anteriormente díspares, com os cidadãos a rejeitarem o governo autocrático de Mswati – ou seja, a sua autoridade exclusiva para nomear um primeiro-ministro, o seu poder executivo sobre o parlamento, o sistema judiciário e o seu direito de agir enquanto guardião único de todas as terras em Eswatini”, diz Tendai Marima da NPR.

Vai ser necessário mais do que a nomeação de um novo primeiro-ministro para lidar com as preocupações da nação. Numa entrevista dada à BBC News, os jornalistas que enfrentam a repressão do governo descrevem as suas experiências de trabalho num país mergulhado em instabilidade.

O jornalista Magnificent Mndebele temeu pela vida quando foi espancado pelas autoridades. “Eles estavam a estrangular-me, agarravam-me pela garganta e depois atiravam-me ao chão... e outros estavam a dar-me socos nas costelas”, disse Mndebele à BBC News.

Cebelihle Mbuyisa, repórter da agência New Frame, que trabalhava ao lado de Mndebele, tentou documentar a violência e começou a fotografar com o telemóvel. “Mas depois [um] soldado apareceu do nada e ordenou para irmos ter com ele... ele queria saber porque é que estávamos ali a tirar fotografias.” O soldado disse que era ilegal tirar fotografias, supostamente devido à suspensão do acesso aos meios de comunicação da Comissão de Comunicações de Eswatini.

“Nós dissemos que éramos jornalistas”, diz Mbuyisa. “Mas parecia que eles não se importavam.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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