A última refeição do Homem de Tollund foi surpreendentemente normal

Um novo estudo sobre o Homem de Tollund da Dinamarca revela o que este comeu – e, mais importante, não comeu – antes do seu assassinato há 2.400 anos.

Por Elizabeth Djinis
Publicado 27/07/2021, 11:30
Homem de Tollund

O Homem de Tollund foi enforcado com um laço de couro e lançado para um pântano na Dinamarca há cerca de 2.400 anos.

Fotografia de Robert Clark, Nat Geo Image Collection

Os corpos mumificados naturalmente em pântanos representam algumas das vítimas de assassinato mais enigmáticas da história: preservados em turfeiras no norte da Europa e na Grã-Bretanha, estes corpos podem reter expressões faciais detalhadas e revelar os métodos pelos quais foram assassinados há cerca de 2.000 anos.

O Homem de Tollund é provavelmente a mais conhecida destas vítimas. Descoberto em 1950 por escavadores de turfa no centro-norte da Dinamarca, este homem da Idade do Ferro ainda tinha um gorro de lã e, enrolado no pescoço, o laço de couro usado para o estrangular por volta do ano 350 a.C.

Apesar de os métodos usados para matar os chamados “corpos do pântano” – geralmente traumas contundentes, cortes na garganta ou asfixia – serem aparentes para os arqueólogos, os eventos que levaram às suas mortes permanecem um enigma: seriam assassinatos aleatórios ou cerimoniais? Se eram rituais de sacrifício, como é que as vítimas eram selecionadas? Será que comiam uma última refeição especial, será que eram intoxicadas para mitigar o terror da sua morte iminente?

Agora, um novo estudo publicado na revista Antiquity analisa em detalhe a última refeição do Homem de Tollund, uma refeição marcadamente simples, porque foi bastante normal.

Papas queimadas

Quando o Homem de Tollund foi descoberto há 70 anos, os investigadores examinaram o seu estômago e trato intestinal bem preservados e determinaram que este homem de meia-idade tinha consumido a sua última refeição entre 12 a 24 horas antes de morrer.

Agora, uma equipa científica liderada por Nina Nielsen, chefe de investigação do Museu Silkeborg da Dinamarca, a “casa” moderna do Homem de Tollund, revisitou o seu conteúdo intestinal com novas tecnologias. Na análise mais abrangente alguma vez feita aos intestinos de um corpo do pântano, os investigadores recuperaram microfósseis de plantas, pólen e outros indicadores que revelam evidências microscópicas de comida e bebida.

Os ingredientes principais (excluindo peixe) da última refeição do Homem de Tollund são exibidos nas suas quantidades relativas: 1) cevada 2) planta Persicaria lapathifolia 3) linhaça 4) trigo sarraceno 5) areia 6) linhaça falsa 7) planta Chenopodium album 8) planta Spergula arvensis 9) cânhamo-urtiga e 10) violeta-dos-campos.

Fotografia de MUSEU SILKEBORG

Os resultados mostram que a última refeição do Homem de Tollund consistiu em papas de cevada, linhaça, sementes de ervas daninhas e alguns peixes – bastante normal para os corpos do pântano analisados anteriormente; cerca de 12 vítimas europeias da Idade do Ferro que comeram refeições à base de grão, por vezes com carne e bagas. É difícil para os investigadores determinar se esta era uma refeição típica na época, porque a maioria dos dados sobre as dietas da Idade do Ferro vem dos restos mortais bem preservados de corpos do pântano.

Os cientistas também conseguiram determinar como é que a última refeição do Homem de Tollund foi preparada, identificando fragmentos microscópicos de papas carbonizadas que indicam que foram cozidas numa panela de barro e acabaram ligeiramente queimadas.

“Ficamos com uma ideia geral sobre a sua dieta, mas este estudo consegue realmente dizer o que ele comeu no dia em que morreu”, diz Nina Nielsen. “É isto que o torna realmente interessante – chegamos muito perto de como tudo aconteceu.”

A equipa de Nina investigou se o Homem de Tollund tinha consumido itens com propriedades especiais – como alucinogénios ou outros tóxicos ou analgésicos – algo que poderia indicar que a sua refeição fazia parte de uma cerimónia ou que servia para aliviar o sofrimento. Os estudos feitos anteriormente noutra vítima conhecida, o Homem de Lindow, que foi sacrificado no noroeste de Inglaterra por volta do século I d.C., descobriram azevinho nos seus intestinos. Mas, embora esta planta possa ser usada para fins medicinais, a quantidade encontrada no Homem de Lindow não era substancial o suficiente para ser relevante, segundo os investigadores.

A aparência dos conteúdos intestinais do Homem de Tollund ao microscópio.

Fotografia de P.S. HENRIKSEN, MUSEU NACIONAL DINAMARQUÊS

Outro estudo anterior observou a presença do fungo Claviceps nos restos mortais do Homem de Grauballe, um corpo da época do Homem de Tollund que foi sacrificado num pântano dinamarquês. A presença deste fungo, que pode ter graves efeitos psicoativos quando consumido, também era demasiado pequena para ter um efeito sobre a vítima e pode ter sido consumido inadvertidamente.

Consistente com as descobertas anteriores, não foram encontrados quaisquer alucinogénios ou outras plantas medicinais nos restos digeridos do Homem de Tollund. “Não temos qualquer evidência nos corpos do pântano que indique que receberam algum tipo de medicina especial”, diz Nina.

Corpos velhos, estudos novos

Existem semelhanças nas últimas refeições de vários corpos do pântano que podem apontar para um significado ritual, de acordo com a investigação de Nina Nielsen. Vários corpos do pântano contêm sementes e resíduos de ervas daninhas, sobretudo Persicaria lapathifolia.

“[As últimas refeições] não eram compostas apenas por grão ou papas e, no caso do Homem de Tollund, vemos muitas e muitas sementes e ervas daninhas”, diz Miranda Aldhouse-Green, professora emérita da Universidade de Cardiff e autora de Bog Bodies Uncovered. “Era importante que a refeição contivesse uma enorme variedade de materiais ambientais, porque isso por si só é significativo.”

Henry Chapman, professor de arqueologia na Universidade de Birmingham, acredita que a paisagem dos pântanos europeus pode conter parte da solução para compreendermos a razão pela qual foram feitos sacrifícios nestes pântanos.

Nos anos que antecederam a morte do Homem de Lindow em Inglaterra, o pântano em que ele foi enterrado estava a tornar-se bastante mais húmido, o que pode ter significado um agravamento do clima e a perda de terras agrícolas para as pessoas que lá viviam.

“As pessoas sugerem que são sacrifícios humanos porque havia algo de errado com o ambiente”, diz Henry.

A etapa seguinte para os corpos do pântano passa pela análise de ADN. Neste momento, o ambiente ácido dos pântanos quase que impossibilita a recuperação de material genético das vítimas, mas os investigadores acreditam que em breve teremos tecnologia para obter e analisar ADN das vítimas mortas em pântanos.

Apesar da sua notável preservação ao longo de milhares de anos, os arqueólogos estão relutantes em tirar conclusões abrangentes sobre a vida quotidiana na Europa da Idade do Ferro com base em evidências de um pequeno número de corpos do pântano que foram sacrificados ritualmente.

“Os corpos do pântano são invulgares”, diz Henry. “E isso funciona tanto como uma bênção, como uma maldição.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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