Como a ginástica se tornou numa modalidade olímpica muito apreciada

As raízes deste desporto podem ser rastreadas até à Grécia antiga. Mas a ascensão da ginástica moderna foi alimentada pelo nacionalismo – desde as Guerras Napoleónicas até à era soviética.

Publicado 19/07/2021, 11:26
Salto ao eixo

A ginástica tem sido uma modalidade olímpica essencial desde a fundação dos jogos modernos. Os atletas competem em eventos como salto, argolas e barras paralelas. Nesta imagem, uma ginasta dinamarquesa executa uma saída perfeita durante as Olimpíadas de Londres de 1908.

Fotografia de Photograph via Topical Press Agency/Getty Images

Homens nus a fazerem exercício em praças ao ar livre. Guarda-costas robustos no dia da tomada de posse de Abraham Lincoln. Adolescentes diminutos que saltam do chão numa sequência estonteante de saltos e cambalhotas. Estas imagens não são aleatórias – fazem todas parte da história da ginástica.

Com o domínio de atletas como Simone Biles e Kohei Uchimura, este desporto tornou-se num dos mais apreciados dos Jogos Olímpicos. A modalidade nem sempre incluiu as barras desniveladas ou uma trave de equilíbrio – as primeiras iterações incluíam façanhas como escalada de corda e eventos com tacos. Mas durante a sua evolução desde a antiga tradição grega para o desporto olímpico moderno, a ginástica esteve sempre intimamente ligada a conceitos de orgulho e identidade nacional.

Os atletas na Grécia antiga normalmente praticavam as suas aptidões de ginástica todos nus. Estes primeiros ginastas estavam a treinar os seus corpos para a guerra.

Fotografia de Courtesy of H.M. Herget, National Geographic Creative

Desanimado com a derrota do seu país às mãos de Napoleão, o antigo soldado prussiano Friedrich Ludwig Jahn inventou uma forma de ginástica chamada Turnen, que Friedrich acreditava revitalizar a força dos seus compatriotas.

Fotografia de Lithograph via Austrian National Library/Interfoto/Alamy

A origem da ginástica

Este desporto teve origem na Grécia antiga, onde os jovens eram submetidos a intensos treinos físicos e mentais para a guerra. A palavra ginástica deriva do grego gymnos, ou “nu” – que era apropriada, uma vez que estes jovens treinavam nus, realizando exercícios no solo, levantando pesos e competindo entre si.

Para os gregos, o exercício e a aprendizagem andavam de mãos dadas. De acordo com o historiador R. Scott Kretchmar, os ginásios onde os jovens gregos treinavam serviam como “centros de estudo e descoberta” – centros comunitários onde os jovens eram educados nas artes físicas e intelectuais. No século IV a.C., o filósofo grego Aristóteles escreveu que “a educação do corpo deve preceder a da mente.”

Mas a ginástica como a conhecemos atualmente veio de outro foco de intelectualismo: a Europa dos séculos XVIII e XIX. Aqui, tal como na Grécia Antiga, a boa forma física era considerada parte integrante da cidadania e do patriotismo. As sociedades de ginástica eram muito populares na época e combinavam as três vertentes.

O antigo soldado prussiano Friedrich Ludwig Jahn – que mais tarde ficaria conhecido como o “pai da ginástica” – abraçou os conceitos de orgulho nacional e educação da era do Iluminismo. Quando a Prússia foi invadida pela França, Friedrich Jahn encarou a derrota dos alemães como uma humilhação nacional. Para animar os seus compatriotas e unir a juventude, Friedrich usou a preparação física, criando um sistema de ginástica chamado Turnen e inventou novos equipamentos para os seus alunos, incluindo as barras paralelas e elevadas, a trave de equilíbrio e o cavalo.

Friedrich Jahn inventou os exercícios – incluindo o cavalo e a trave de equilíbrio – que os seus seguidores realizavam nos festivais Turner por todo o país. Nesta imagem, mulheres da Hannoversche Musterturnschule em Hannover apresentam exercícios num festival em Colónia, em 1928.

Fotografia de Robert Sennecke, Berliner Illustrirte Zeitung via Getty Images

Como o nacionalismo alimentou a ascensão da ginástica

No início do séc. XIX, os seguidores de Friedrich, conhecidos por Turners, uniam-se em movimentos semelhantes aos da ginástica moderna em cidades por toda a Alemanha. Os atletas testavam as suas capacidades em traves de equilíbrio e cavalos, subiam escadas, penduravam-se em argolas, faziam salto em comprimento e outras exibições de calistenia em massa.

Nos festivais Turner, os ginastas trocavam ideias, competiam fisicamente e discutiam política. E, ao longo dos anos, levaram os seus conceitos sobre filosofia, educação e preparação física para os Estados Unidos, onde os clubes de ginástica se tornaram centros comunitários cruciais.

Os Turners também se tornaram numa força política americana. Muitos deixaram o seu país de origem porque se opunham às monarquias da Alemanha e ansiavam pela liberdade. Como resultado, alguns Turners tornaram-se abolicionistas ferrenhos e apoiantes de Abraham Lincoln. Este presidente foi protegido por duas companhias de Turners na sua primeira tomada de posse e os Turners até formaram os seus próprios regimentos no Exército da União.

Em meados do século XIX, surgia em Praga outra seita europeia que adorava a boa condição física. Tal como os Turners, o movimento Sokol era composto por nacionalistas que pensavam que a calistenia coordenada em massa podia unir o povo checoslovaco. Os Sokol tornaram-se na organização mais popular na antiga Checoslováquia com exercícios que incluíam barras paralelas e horizontais e exercícios no solo.

Ginástica nas Olimpíadas

A romena Nadia Comăneci tornou-se na primeira ginasta a receber um 10 perfeito durante os Jogos Olímpicos de 1976. Nesta imagem, a atleta de 14 anos está a saltar com um pé particularmente alto durante a sua apresentação naquele ano.

Fotografia de Photograph via Bettmann/Getty Images

Com a visibilidade estimulada pelos Turner e Sokol, a ginástica começou a ficar mais popular. Em 1881, o interesse internacional pelo desporto tinha crescido o suficiente para se formar a Federação Internacional de Ginástica.

Durante os primeiros Jogos Olímpicos modernos em 1896, a ginástica estava no topo da lista de atividades do fundador Pierre de Coubertin. Setenta e um atletas do sexo masculino participaram em oito eventos de ginástica, incluindo escalada de corda. Talvez sem surpresa, a Alemanha arrecadou grande parte das medalhas, ganhando cinco medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze. A Grécia ficou em segundo lugar com seis medalhas, seguida pela Suíça com três.

Nos anos que se seguiram, a ginástica transformou-se num desporto definido com pontuação e eventos padronizados. A modalidade foi dividida em duas categorias: ginástica artística, que envolve salto, barras desniveladas, trave de equilíbrio, cavalo, argolas, barras paralelas, barras horizontais e exercícios no solo; e ginástica rítmica, que envolve aparelhos como aros, bolas e fitas. Em 1928, as mulheres competiram pela primeira vez na ginástica olímpica.

Atualmente, Simone Biles, dos Estados Unidos, é a ginasta mais condecorada da história. Os seus feitos impressionantes inspiram admiração e orgulho nacional – incluindo a sua atuação durante os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, onde venceu quatro medalhas de ouro e uma de bronze.

Fotografia de Elsa, Getty Images

Rivalidades da Guerra Fria

Contudo, em meados do século XX, a ginástica olímpica estava em declínio e os organizadores desportivos sugeriram cortes na modalidade e até mesmo acabar com a competição por equipas. À medida que a Guerra Fria subia de tom, a U.R.S.S. viu uma oportunidade num desporto aparentemente inofensivo. Como não havia competidores ocidentais fortes, os soviéticos acreditaram que conseguiam dominar a modalidade e começaram a investir na ginástica.

Quando o público internacional percebeu que um grupo de atletas superestrelas estava a treinar atrás da Cortina de Ferro, as atenções focaram-se em pessoas como Nadia Comăneci, uma atleta romena que surpreendeu o mundo ao ganhar o primeiro 10 perfeito em 1976. No seu auge, o Bloco de Leste ganhou 99% de todas as medalhas olímpicas em ginástica artística feminina, estimulando uma nova vaga de competição nacionalista à medida que os países ocidentais começavam a investir no desporto.

Os Jogos Olímpicos foram o palco de rivalidades da Guerra Fria em vários aspetos. Em 1980, os EUA e 65 outras nações boicotaram os Jogos Olímpicos para protestar contra a invasão do Afeganistão por parte da U.R.S.S. A União Soviética retaliou com o seu próprio boicote em 1984, dando aos EUA uma oportunidade para as suas equipas de ginástica olímpica. Nesse ano, os EUA conquistaram a sua primeira medalha olímpica de ouro para a equipa de ginástica masculina, a primeira medalha de ouro para Mary Lou Retton e uma série de outras medalhas de ouro na ginástica.

Desde então, os Estados Unidos e as antigas nações soviéticas continuam com a sua rivalidade. A Rússia lidera o ranking total na ginástica, com 182 medalhas até agora; os EUA têm 114.

Escândalos

A ginástica incentivava a unidade nacional e celebrava a perfeição física. Mas os custos para os atletas eram enormes. A disciplina pela qual o desporto é elogiado presta-se a métodos de treino abusivos, e a modalidade tem sido criticada por favorecer atletas extremamente jovens.

E depois também há os escândalos. Os rumores de casos de doping apoiados pelo Estado há muito tempo que atormentam a União Soviética e a Rússia, e os atletas russos estão atualmente proibidos de usar o nome, bandeira ou hino do seu país em todos os desportos olímpicos até 2022 – devido a casos documentados de não conformidade com as regras antidopagem.

Em 2016, Larry Nassar, o médico da equipa de Ginástica dos EUA, o órgão regulador dos ginastas americanos, foi acusado de abusar sexualmente de uma jovem atleta. Ao longo dos meses que se seguiram, um escândalo revelou os bastidores da ginástica, expondo uma cultura de abuso e subjugação verbal, emocional, física e sexual. Mais de 150 ginastas testemunharam na audiência de Larry Nassar, e o médico foi condenado a 60 anos de prisão em 2017.

Legado

A ginástica já não faz parte de um movimento político mais amplo que defende o nacionalismo e a unidade social. Mas a sua popularidade – e o seu papel no orgulho nacional – perdura. Em última análise, é este o objetivo das Olimpíadas, escreve David Clay Large no seu livro Foreign Policy. David é membro do Centro de Estudos Europeus de Política Externa da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

“Estas supostas celebrações de um mundo em união são bem-sucedidas porque satisfazem precisamente o que desejam transcender: o instinto mais básico do mundo para o tribalismo”, escreve David. “As animosidades ideológicas da era da Guerra Fria podem ter diminuído, mas o nacionalismo claramente não.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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