Pegadas fósseis antecipam a chegada de humanos às Américas em milhares de anos

As pegadas encontradas no Parque Nacional de White Sands, no Novo México, podem desafiar as suposições sobre quando é que os humanos se aventuraram pela primeira vez na América do Norte e do Sul.

Publicado 27/09/2021, 15:18
Pegadas humanas descobertas

Um conjunto de pegadas humanas descobertas por investigadores no Parque Nacional de White Sands. De acordo com um novo estudo, estas pegadas datam de há 21.000 a 23.000 anos – uma época em que se acredita que enormes camadas de gelo bloqueavam a migração humana para as Américas.

Fotografia de Dan Odess

As pegadas parecem ter sido deixadas há pouco tempo por um visitante descalço no Parque Nacional de White Sands, no Novo México, apresentando marcas de um adolescente com os pés ligeiramente chatos e impressões dos dedos dos pés e calcanhares nitidamente definidas por uma fina crista de areia.

Mas esta não é uma rota turística. Estas impressões estão entre as evidências mais antigas de humanos nas Américas, marcando a adição mais recente a um crescente corpo de evidências que desafia quando e como é que os humanos se aventuraram por esta terra inexplorada.

De acordo com um artigo publicado na revista Science, estas pegadas foram feitas na lama perto de um antigo lago em White Sands, há 21.000 a 23.000 anos, numa época em que muitos cientistas acreditam que enormes camadas de gelo bloqueavam a passagem humana para a América do Norte.

Saber exatamente quando é que os humanos povoaram as Américas tem sido alvo de intensos debates há quase um século e, até recentemente, muitos cientistas afirmavam que esse momento importante só aconteceu há 13.000 anos. Mas um número crescente de descobertas sugere a presença de humanos na América do Norte e do Sul milhares de anos antes. Isto inclui o sítio de Monte Verde, no Chile, que tem até 18.500 anos e Gault, no Texas, que tem até 20.000 anos. Contudo, cada descoberta gera ainda mais controvérsia entre os cientistas.

Uma representação artística de como era a vida nas margens do extinto lago Otero há mais de 20.000 anos.

Ilustração de Karen Carr

Apesar de esta descoberta em White Sands não encerrar os debates, é um desenvolvimento entusiasmante.

“Uma descoberta como esta é quase como encontrar o Santo Graal”, diz Ciprian Ardelean, arqueólogo da Universidade Autónoma de Zacatecas. Ciprian dirige escavações na caverna mexicana de Chiquihuite, onde os investigadores acreditam ter encontrado evidências de atividade humana nas Américas que datam de há 30.000 anos.

“Sinto uma inveja saudável da equipa por ter encontrado tal coisa.”

Pegadas de fantasmas – ou do Pé Grande?

As pegadas preservadas na vasta extensão de White Sands têm chamado a atenção dos cientistas desde o início dos anos 30, quando um caçador do governo descobriu uma impressão que media uns impressionantes 55 centímetros de comprimento e 20 de largura. Este caçador estava convencido de que tinha encontrado evidências do mítico Pé Grande.

“De certa forma, ele tinha razão”, diz David Bustos, gestor do programa de recursos do parque e autor do novo estudo. “Era um pé grande – mas era um pé grande de uma preguiça-gigante e não de um humano.”

Desde então, um estudo minucioso descobriu milhares de pegadas neste parque nacional, fornecendo imagens de humanos e animais antigos agora extintos, como preguiças-gigantes e mamutes que vaguearam por estes terrenos perto do antigo lago Otero, um corpo de água com 4.140 quilómetros quadrados que secou há cerca de 10.000 anos. Cada impressão foi feita há milénios em areia rica em gesso, cuja cor clara dá nome ao parque. Algumas marcas ficam eventualmente expostas pelos ventos que sopram pelas dunas, mas rapidamente se degradam com a exposição aos elementos. Outras pegadas, escondidas debaixo da areia, só são visíveis para pessoas com olhos treinados que conseguem identificar mudanças ligeiras na cor à superfície – nas raras ocasiões em que o solo não está demasiado húmido ou seco.

David Bustos escava cuidadosamente pegadas humanas que estão enterradas debaixo de muitas camadas de sedimentos.

Fotografia de Dan Odess

Estes vestígios efémeros ficaram com o apelido de “pegadas fantasma”. Cada pegada marca o lugar onde esteve um antepassado nosso há milhares de anos.

“Ficamos arrepiados”, diz Kim Charlie, membro do Pueblo de Acoma. Muitas tribos e povoações nativo-americanas sentem uma ligação espiritual com White Sands, e Kim faz parte de um comité do Gabinete de Preservação Histórica Tribal que está a colaborar com a equipa de investigação para garantir a preservação das pegadas.

Porém, determinar exatamente quando é que estas pegadas ficaram marcadas na lama de White Sands tem sido desafiante, diz Matthew Bennett, autor do estudo e geólogo da Universidade de Bournemouth, em Inglaterra. As superfícies do parque têm diversos trilhos cruzados que podem ter sido criados em eventos separados com milhares de anos de intervalo. Para datar com segurança uma pegada, os investigadores precisam de encontrar camadas de sementes que possam ser datadas através das análises de radiocarbono, tanto por baixo como por cima das camadas das pegadas. Desta forma, os cientistas conseguem determinar os primeiros e os últimos momentos em que as impressões foram traçadas. Contudo, época após época, a procura por um local com sementes e pegadas não surtiu resultados.

Foi então que surgiu o fatídico dia em setembro de 2019, quando David Bustos e Matthew Bennett regressaram a um penhasco no parque que já tinham visitado mais de uma dezena de vezes. Os investigadores sabiam que este local abrigava depósitos de sementes antigas, mas ainda não tinham encontrado pegadas humanas. Mas nesse dia o vento tinha revelado um conjunto de marcas inconfundivelmente humanas que terminavam num monte de areia. Raspar a camada de areia superior revelou os contornos fantasmagóricos de um trilho enterrado.

Este modelo tridimensional destaca as pegadas encontradas numa das superfícies escavadas. A altura da área corresponde à cor, mudando de cores frias para quentes consoante a elevação aumenta.

Fotografia de David Bustos

“Naquele momento, dissemos Bingo, conseguimos”, recorda Matthew

Uma equipa de arqueólogos, geólogos, especialistas em datação, um geofísico e um cientista de dados reuniram-se para estudar o local, que abrange uma área que tem quase metade de um campo de basquetebol, fazendo também uma bateria de testes. A escavação revelou oito camadas separadas de pegadas, que continham 61 rastos humanos deixados por até 16 pessoas, a maioria adolescentes e crianças. Diversas camadas de trilhos foram delimitadas por cima e por baixo através de camadas de sedimentos que contêm sementes da erva Ruppia.

A datação por radiocarbono das sementes sugere que tanto animais como humanos percorreram esta mesma rota ao longo de pelo menos dois milénios, há 21.000 a 23.000 anos. Matthew alerta que a data se aplica apenas às pegadas neste local, pelo que a datação permanece obscura para muitas das outras pegadas em White Sands. Mas a idade antiga do local é uma descoberta incontornável – e a equipa está perfeitamente ciente da ousadia da sua afirmação.

“Nós já tentámos provar que isto não era assim tão antigo, mas não conseguimos”, diz Daniel Odess, arqueólogo, cientista-chefe de Recursos Culturais do Serviço de Parques Nacionais e autor do novo estudo.

A escavação em White Sands revelou várias camadas de pegadas que foram impressas na lama nas margens de um lago ao longo de milhares de anos.

Fotografia de Dan Odess

A parede de gelo

Embora esta evidência mais recente da presença humana nas Américas venha de pegadas no deserto, o grande debate sobre quando é que chegámos a este continente gira em torno do gelo. Quando o mundo entrou no Último Máximo Glacial (UMG), há 20.000 a 26.500 anos, as temperaturas desceram e o crescimento dos glaciares bloqueou um volume cada vez maior de água, fazendo com que o nível do mar descesse mais de 120 metros abaixo de onde está hoje. Muitas das características da terra emergiram das ondas, incluindo o que agora se conhece por Beringia, uma ponte natural que une a Sibéria moderna e o Alasca, que os investigadores acreditam ter fornecido uma rota evidente para os humanos chegarem às Américas.

Mas, à medida que as temperaturas durante o UMG caíam, dois enormes mantos de gelo – conhecidos por Laurentide e Cordilleran – avançaram pelo atual Canadá, formando uma parede gelada quase contínua desde o Atlântico até ao Pacífico, talvez há 23.000 anos. Muitos cientistas argumentam que os humanos não conseguiam fazer incursões para sul no Canadá até as camadas de gelo recuarem.

Desde meados do século XX que o limiar para estas primeiras migrações estava estabelecido há 13.000 anos, com o aparecimento da cultura Clovis, um grupo conhecido pelas suas ferramentas de pedra distintas. Muitos cientistas aceitam agora que os humanos podem ter entrado nas Américas há 17.000 anos, talvez viajando por rotas ao longo da costa do Pacífico que se tornaram transitáveis antes de o interior gelado do continente derreter.

Mas White Sands está entre os poucos sítios que sugerem que os humanos já estavam na América do Norte no auge do UMG. Com a descoberta anunciada no ano passado, que sugere a presença de pessoas na caverna de Chiquihuite, no México, há 30.000 anos, os críticos do estudo de Chiquihuite questionam se foram humanos ou a geologia a fraturar as rochas.

Esta é uma dúvida que atormenta muitos dos locais pré-Clovis, mas não há dúvidas de que os criadores das pegadas de White Sands eram humanos: “Isso é extremamente óbvio”, diz Vance Holliday, autor do estudo, arqueólogo e geólogo da Universidade do Arizona.

Para além disso, White Sands não tem apenas um conjunto de impressões, mas sim várias camadas de atividade humana datadas de há mais de 20.000 anos. “Se não gostarem de uma camada, não faz mal, temos outras”, brinca David Bustos. “Se não gostarem desta, temos mais.”

Carbono velho, carbono novo

Alguns cientistas continuam a questionar a veracidade da datação das pegadas obtida pela equipa de investigação. Loren Davis, arqueólogo da Universidade de Oregon, enfatiza a necessidade de um segundo método de datação para verificar os resultados de radiocarbono, referindo um fenómeno conhecido por água dura ou efeito de reservatório de água doce que pode turvar as datações por radiocarbono.

Isto acontece porque as plantas aquáticas, como a erva Ruppia analisada em White Sands, retiram carbono de compostos dissolvidos nos seus ambientes pantanosos. Se estiver presente carbono “antigo” – como rocha carbonatada – as plantas vão incorporá-lo nos seus corpos, o que pode, por sua vez, resultar em datações de radiocarbono enganadoramente antigas. As plantas terrestres, por outro lado, não sofrem destes efeitos, uma vez que retiram carbono da atmosfera, onde as quantidades relativas de carbono radioativo e não radioativo são razoavelmente constantes. A equipa estudou o potencial para um efeito de reservatório de água doce, concluindo que a sua ação era muito provavelmente insignificante.

Embora as evidências apresentadas pela equipa não consigam provar que tal efeito está ausente, os indícios sugerem que quaisquer potenciais impactos seriam bastante pequenos, diz Bente Philippsen, especialista em radiocarbono da Universidade de Aarhus que não faz parte da equipa do estudo. Bente Philippsen acrescenta que a maioria dos efeitos de reservatório de água doce são na ordem das centenas – e não milhares – de anos. “O efeito mais severo que medi foi de alguns milhares de anos”, diz Bente. “Mesmo que assumíssemos que [o efeito de reservatório] era assim tão severo no sítio arqueológico de White Sands, isso não mudaria a conclusão de que este material tem mais de 20.000 anos.”

Thomas Stafford, geocronologista do laboratório Stafford Research no Colorado, que não faz parte da equipa do estudo, acredita na veracidade da datação e comenta a profundidade do estudo. “Levou muito tempo a fazer e foi muito, muito bem feito.”

A confirmação adicional das datas pode ser difícil de obter. A equipa tentou usar um método à base de urânio, mas as amostras não são adequadas para estas análises, explica Jeff Pigati, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, que estudou os restos de plantas. Loren Davis refere outras técnicas, como a luminescência estimulada oticamente, que pode ajudar a confirmar a datação. Mas Thomas Stafford acrescenta que este método pode ter desvios-padrão muito grandes, portanto, pode não fornecer uma confirmação correta. Entretanto, a equipa continua a trabalhar para aperfeiçoar os seus métodos de datação à base de urânio e obter datações de luminescência estimulada oticamente para ter uma confirmação adicional.

“Eu, pelo menos, ficarei muito animado se isto for verdade”, diz Loren. Mas acrescenta: “Acho que é prematuro abrirmos o champanhe e dizer que está feito, que está um trabalho completo.”

Repensar os primeiros humanos

O escrutínio sobre estes números é tão forte porque, se forem confirmados, a descoberta de pessoas nas Américas durante o último máximo glacial irá exigir uma mudança fundamental no pensamento científico sobre a forma como as pessoas chegaram ao Novo Mundo. Será que se esgueiraram por rotas interiores antes de as portas glaciares se fecharem durante o UMG? Será que navegaram pelas áreas geladas das costas?

“Ainda mais importante, isto requer que pensemos realmente sobre a forma como fazemos arqueologia”, diz Loren, “porque ninguém está a olhar para depósitos com 22.000 anos.”

Thomas Stafford diz que os cientistas costumavam enviar-lhe material escavado para fazer a datação por radiocarbono e pediam-lhe para parar de analisar quando detetasse material com 13.000 anos de idade. Agora esse limite está mais perto dos 18.000 anos, diz Thomas, mas essa linha rígida de pensamento pode ter ludibriado investigações anteriores e impedido a descoberta de coisas ainda mais antigas. “Se não estivermos à procura, não vamos encontrar”, diz Thomas. “Portanto, existem muito poucos sítios arqueológicos.”

Ciprian Ardelean espera que o trabalho feito em White Sands ajude a inspirar os cientistas da atualidade e as futuras gerações de estudantes a darem uma vista de olhos diferente sobre os primeiros movimentos de humanos nas Américas. Ciprian está consternado com a forma como esta intensa controvérsia dissuadiu muitos dos seus ex-alunos de continuar a estudar a pré-história americana.

Mas depois de décadas em que este campo de investigação girou sempre em torno de uma cultura Clovis de há apenas 13.000 anos, pode ser que a mudança esteja finalmente no horizonte. “Acho que não vamos falar em termos de possibilidades pré-Clovis”, diz Ciprian. “Vamos falar em termos pré-White Sands e pós-White Sands.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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