De LGBT a LGBTQIA+: o evoluir de um reconhecimento de identidade

À medida que a compreensão da sociedade sobre as diversas identidades sexuais e expressões de género se torna mais inclusiva, o mesmo acontece com a sigla usada para as descrever.

Publicado 20/10/2021, 14:36
Desfile do Orgulho LGBT

Na década de 1990, ativistas lésbicas, gay e bissexuais adotaram a sigla LGB para descrever a sua comunidade – um termo que desde então se expandiu para ser mais inclusivo. Isto foi possível, em grande parte, devido ao trabalho de pessoas como estes ativistas que participaram no desfile do Orgulho LGBT de 1975 em Boston.

Fotografia de Spencer Grant, Getty Images

Outubro é o Mês da História LGBT, mas algumas pessoas podem dizer que é o Mês da História LGBTQ ou até mesmo o Mês da História LGBTQIA+.

Os termos que descrevem a comunidade que engloba pessoas que são lésbicas, gay, bissexuais, transgénero, queer, intersexuais e assexuais são tão amplos quanto a própria comunidade. Conforme a compreensão, o reconhecimento e a inclusão na sociedade de diversas identidades sexuais e expressões de género aumenta, o mesmo acontece com a sigla que as descreve.

Segue-se um olhar sobre esta evolução – e por que razão é praticamente certo que o termo continue a evoluir.

De onde vem o termo lesbianismo

De todas as letras presentes na sigla LGBTQ, a letra L foi a primeira. Durante séculos, a palavra lésbica foi associada às obras de Safo, uma poetisa grega da antiguidade, natural da ilha de Lesbos, que escrevia poemas sobre a paixão entre pessoas do mesmo sexo.

O uso mais antigo do termo para descrever o amor entre pessoas do mesmo sexo remonta ao século XVII. Mas a sua utilização moderna surgiu na década de 1890, quando foi usado num dicionário inglês de medicina e numa variedade de livros sobre psicologia e sexualidade. Com o passar do tempo, este termo ganhou popularidade e foi adotado por mulheres que amavam em segredo outras mulheres, e que depois passaram a fazê-lo com orgulho.

O nascimento do termo “homossexualidade” e “bissexualidade”

Karl Heinrich Ulrichs, advogado e escritor alemão do século XIX que se pode ter identificado como homossexual, foi o primeiro a tentar rotular a sua própria comunidade. Em 1862, Karl Ulrichs já usava o termo “Urning” para se referir aos homens que se sentiam atraídos por outros homens. “Nós, os Urnings, constituímos uma classe especial de género humano”, escreveu Karl Ulrichs. “Nós somos o nosso próprio género, um terceiro sexo.”

No final do século XIX, o jornalista austro-húngaro Karoly Maria Kertbeny cunhou os termos “homossexualidade” e “bissexualidade”, dando finalmente a gerações de pessoas uma forma de se descreverem.

Fotografia de Alamy

Mas o termo foi rapidamente substituído por uma palavra cunhada pelo jornalista austro-húngaro Karoly Maria Kertbeny. Em 1869, o governo prussiano avaliou a adição de uma linguagem à sua constituição que proibisse a atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo.

Em resposta, Karoly Kertbeny escreveu anonimamente uma carta aberta ao ministro da justiça prussiano onde dizia que essa proposta de lei era “absurdamente chocante” e usou a palavra “homossexualidade”, termo que Karoly Kertbeny já tinha cunhado anteriormente numa carta particular enviada a Karl Ulrichs. Karoly Kertbeny também cunhou o termo heterossexual, referindo-se às pessoas que se sentem atraídas por pessoas do sexo oposto, e bissexual, que se refere às pessoas que se sentem atraídas por homens e mulheres.

A carta de Karoly Kertbeny enfatizava que a atração por pessoas do mesmo sexo era inata e desafiou as noções predominantes de que se tratava de um ato vergonhoso e prejudicial. Os primeiros grupos dos direitos dos homossexuais e praticantes do crescente campo da psicologia acabaram eventualmente por adotar estes termos.

Gay: reivindicar um insulto

No final da década de 1960, os ativistas reivindicaram um insulto com várias décadas – “gay”. Ao longo do século XX, a atração por pessoas do mesmo sexo e as atividades sexuais foram amplamente proibidas, e este e outros insultos que denegriam as pessoas LGBTQ+ eram comuns. Embora as suas origens sejam obscuras, o termo “gay” acabou por ser adotado por homens que desafiavam o status quo com expressões abertas de amor por pessoas do mesmo sexo.

Os ativistas também começaram a usar outros termos como variante social, desviante e “homófilo”, que significa “mesmo amor”, num esforço para contornar os insultos mais vulgares, enfatizar as relações amorosas entre pessoas do mesmo sexo e protestar contra as leis discriminatórias. “Estas palavras eram usadas como um meio através do qual os indivíduos podiam dar sentido às suas próprias experiências e à sua homossexualidade num ambiente homofóbico”, escreve o sociólogo J. Todd Ormsbee.

Em 1980, argumentava-se que sexo e género eram entidades separadas. À medida que a palavra “transgénero” ia substituindo a terminologia depreciativa para as pessoas “trans”, o termo foi sendo cada vez mais adotado por um movimento mais amplo dos direitos LGBT, e na década de 2000 já estava generalizado.

A luta pelo reconhecimento das pessoas transgénero foi mais longa – só na década de 2000 é que as pessoas transgénero foram amplamente consideradas parte da comunidade LGBT. Mas estas pessoas continuam a enfrentar muitos obstáculos, como se pode ver nesta imagem de outubro de 2019, onde manifestantes bloqueiam a rua em frente ao Supremo Tribunal dos EUA enquanto decorria uma audição para determinar se as pessoas gay e transgénero estavam cobertas por uma lei federal que proibia a discriminação laboral com base no sexo. Os manifestantes acabaram por ganhar esta causa.

Fotografia de Caroline Brehman, CQ-Roll Call / Getty Images

Como a palavra “queer” se tornou popular

Mais recentemente, a letra Q foi adicionada à sigla LGBT. O termo “queer”, que é empregue desde pelo menos a década de 1910, também foi usado como insulto para identificar pessoas numa sociedade heteronormativa. Mas este termo foi sendo cada vez mais utilizado por pessoas dentro do movimento pelos direitos dos homossexuais a partir da década de 1990. O linguista Gregory Coles escreve que este termo “pode ser interpretado como pejorativo e honorífico ao mesmo tempo”, dependendo da identidade e intenção do interlocutor. Os estudiosos consideram amplamente o uso do termo “queer” como uma forma de reivindicação.

A letra Q também costumava significar “questionar” – uma forma de reconhecimento daqueles que estão a explorar o seu género ou identidade sexual. Esta dupla definição engloba um debate mais amplo sobre o significado de identidade pessoal e questiona se é apropriado usar termos genéricos como LGBTQ como abreviatura para as experiências vividas pelas pessoas.

Evolução inacabada

Os apêndices mais recentes da sigla tentam envolver uma faixa ainda mais abrangente da comunidade. O sinal “mais” refere-se a uma ampla variedade de identificações de género e identidades sexuais, e as letras I (“intersexo”) e A (“assexual”) são por vezes adicionadas a seguir às letras LGBTQ.

Mas há críticos da sigla, sobretudo pessoas que argumentam que qualquer termo jamais conseguirá abranger todo o espectro de género e expressão sexual. Uma variedade de organizações académicas e governamentais, incluindo os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, adotou recentemente o termo “género e minoria sexual” numa tentativa de fomentar mais inclusividade.

É praticamente certo que as palavras que as pessoas usam para descrever a expressão de género e identidade sexual vão continuar a evoluir.

“Nenhum termo é perfeito ou perfeitamente inclusivo”, escreveu um comité das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina num relatório de 2020. “A beleza da individualidade reside no facto de a auto-expressão, bem como as escolhas pessoais e românticas, podem manifestar-se de várias formas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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