Tempestade solar da antiguidade revela povoação viking nas Américas há exatamente 1.000 anos

Uma análise à madeira de L'Anse aux Meadows examina evento cósmico e revela que estes navegadores europeus já estavam a derrubar árvores na Terra Nova em 1021 d.C.

Por Andrew Curry
Publicado 22/10/2021, 11:31
Vitral com barco viking

Os vikings podem ter ocupado as Américas em 1021 d.C., exatamente há 1.000 anos.

Fotografia por Edward Coley Burne-Jones autor do vitral, via Delaware Art Museum, Bridgeman Images

Em 993 d.C., uma tempestade solar libertou um enorme pulso de radiação que foi absorvido e armazenado pelas árvores de todo o planeta. Agora, este evento solar revelou ser uma ferramenta crítica para determinar o ano exato em que os vikings estiveram presentes nas Américas.

Desde a descoberta há mais de 50 anos de uma povoação viking em L’Anse aux Meadows, na Terra Nova do Canadá, que a maioria dos estudiosos aceita que os navegadores vikings que exploraram os mares desde o final do século VIII até ao século XII foram os primeiros europeus a chegar às Américas. Porém, o momento exato das incursões viking pela terra a que chamaram “Vinland” permanecia desconhecido. Com base nos artefactos encontrados, datação por radiocarbono e sagas viking, acredita-se que a povoação em L'Anse aux Meadows tenha prosperado entre os anos 990 e 1050.

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Agora, graças à tempestade cósmica que aconteceu no ano de 993, os investigadores podem dizer sem margem de erro que os vikings já estavam a trabalhar no seu pequeno posto avançado no Atlântico Norte há exatamente 1.000 anos – em 1021 – de acordo com um estudo publicado na revista Nature.

Apesar de esta datação exata não alterar radicalmente a nossa compreensão atual sobre a presença dos vikings nas Américas, “acaba por confirmar o que arqueólogos e evidências anteriores já sugeriam”, diz Ulf Büntgen, geógrafo da Universidade de Cambridge que não participou no estudo. “Estou muito feliz por ver este artigo – há vinte anos atrás, não teríamos conseguido obter estes dados.”

Para além de fornecer a primeira data exata de uma povoação viking na América do Norte, as novas informações também confirmam os contos escritos centenas de anos depois sobre estas primeiras viagens. “Sabíamos que estávamos corretos em relação ao século XI, mas determinar com exatidão que foi em 1021 é fundamental”, diz Davide Zori, arqueólogo da Universidade Baylor que não esteve envolvido na investigação. “Isto revela que as sagas [viking] tinham uma margem de erro de cerca de uma década. E isso é impressionante.”

Uma imagem de microscópio de um fragmento de madeira de L'Anse aux Meadows. Os investigadores fizeram datação por carbono dos anéis de árvores individuais para identificar o anel que se formou durante a tempestade cósmica de 993 d.C.

Fotografia por Petra Doeve

‘Parecia uma mina de ouro’

As novas evidências vêm de amostras antigas. Dezenas de datações por radiocarbono de artefactos de madeira escavados em L'Anse aux Meadows na década de 1960 revelaram que o local tinha cerca de 1.000 anos. Mas nessa altura a datação por radiocarbono ainda estava no seu início, e a margem de erro era frequentemente medida em décadas ou até mesmo séculos.

Felizmente, os arqueólogos mais vanguardistas previam que no futuro poderiam ser desenvolvidos métodos de datação mais aprimorados, pelo que recuperaram e preservaram centenas de pedaços adicionais de madeira encontrados no local e na área circundante – armazenando muitos destes pedaços de madeira em congeladores num armazém no Canadá para evitar a sua deterioração. Quando a arqueóloga e coautora do estudo Margot Kuitems, da Universidade de Groningen, visitou este armazém há alguns anos, ficou chocada. Os pedaços milenares de madeira “pareciam incrivelmente recentes, como se tivessem sido colocados ontem no congelador”, diz Margot Kuitems. “Parecia uma mina de ouro.”

Mas Margot Kuitems não estava realmente à procura dos pedaços mais bem preservados. Tanto Margot Kuitems como o especialista em datação por radiocarbono Michael Dee, também da Universidade de Groningen, estavam à procura de locais para testar um novo método de datação que se baseia nos anéis de árvores. Para perceber se conseguia determinar com mais exatidão a idade de L'Anse aux Meadows, Margot Kuitems escolheu quatro troncos de pinheiro e zimbro que foram armazenados com casca ainda agarrada, troncos que tinham sido cortados e deixados perto de uma das casas comunitárias dos nórdicos. “Não são realmente artefactos ou peças feitas pelos vikings”, diz Margot Kuitems, referindo-se às amostras. “São pedaços de madeira descartados.”

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As quatro amostras tinham algumas coisas em comum que as tornavam perfeitas para os objetivos de Michael Dee e Margot Kuitems. Os troncos foram encontrados em camadas de solo ao lado de outros artefactos viking, estando assim ligados às atividades deste povo. Os troncos foram cortados ou trabalhados com ferramentas de metal – técnicas desconhecidas na América do Norte para aquela época, e têm mais evidências de trabalhos manuais viking. Todos os troncos ainda tinham casca agarrada, mostrando claramente quando é que as árvores pararam de crescer.

Havia mais uma coisa que se destacava: três das amostras de madeira pertenciam a árvores que estavam vivas durante o evento solar de 993, quando a tempestade cósmica emanou um pulso de radiação tão poderoso que ficou registado nos anéis das árvores do nosso planeta. Este evento é referido pelos investigadores como um “evento de radiocarbono cosmogénico”, um fenómeno que só aconteceu duas vezes nos últimos 2.000 anos.

A tempestade cósmica, juntamente com um evento semelhante que aconteceu em 775, deixou marcas de “picos” que distorcem as datações por radiocarbono da madeira em cerca de um século, um facto que os investigadores identificaram pela primeira vez em 2012. Através da comparação entre datações por radiocarbono de anéis de árvores individuais, a anomalia resultante cria uma espécie de carimbo com a data do anel da árvore. “Quando atingimos os picos, fica tudo muito claro”, diz Michael Dee, que liderou o novo estudo.

A equipa recolheu amostras e fez datações minuciosas por radiocarbono a mais de 100 anéis de árvores, alguns com menos de um milímetro de largura, na esperança de encontrar o pico de 993. Em três dos pedaços de madeira encontraram a indicação exata que procuravam. A aritmética simples possibilitou descobrir quando é que os vikings derrubaram cada árvore. “Se tivermos uma árvore com muitos anéis e as extremidades tiverem casca, basta fazer as contas”, diz Michael Dee. Neste caso, 28 anéis separam a casca do anel da árvore onde o pulso solar de 993 está registado.

“As datações por radiocarbono [anteriores] abrangem um período que vai desde o início até ao fim da Era Viking”, diz Michael Dee. “Estamos a provar que, no máximo, isto aconteceu em 1021.”

Para além disso, esta data corrobora duas sagas islandesas, a “Saga dos Gronelandeses” e a “Saga de Erik, o Vermelho”, que narram as tentativas de estabelecer uma povoação permanente em “Vinland”, no extremo oeste do mundo viking. Apesar de terem sido escritas no século XIII, ambas as sagas referem eventos e pessoas históricas, permitindo aos investigadores reconstruir uma linha temporal aproximada para as viagens feitas no século XI.

Davide Zori concorda que a nova datação não vai revolucionar o que sabemos sobre os vikings nas Américas. Mas usar o pico de radiação cósmica de 993 para datar outros locais pode oferecer novas informações, sobretudo em locais onde os registos históricos não são facilmente vinculados às descobertas arqueológicas. “Quando queremos ligar eventos específicos a monumentos ou edifícios, ter uma data precisa pode realmente mudar a nossa compreensão”, diz Davide Zori.

Para Michael Dee, a definição das datas cria um vínculo tangível com o momento em que a humanidade completou a sua expansão pelo planeta e acabou numa floresta densa nas margens do Atlântico Norte. “O momento em que o Atlântico foi atravessado foi uma espécie de última etapa”, diz Michael Dee. “A data que obtivemos comprova factualmente que isso aconteceu.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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