Estas almas corajosas vivem em casas assombradas – e adoram

Um escritor percorre os EUA à procura de pessoas que consideram os fantasmas parte da família. Surpreendentemente, não foram difíceis de encontrar.

Publicado 11/11/2021, 14:05
Casa Mark Twain

Funcionários e visitantes da Casa e Museu Mark Twain em Hartford, no Connecticut, relataram encontros paranormais dentro desta mansão histórica. Todos os anos em outubro, o museu organiza visitas “baseadas em factos” chamadas Graveyard Shift Ghost Tours.

Fotografia de James L. Stanfield, National Geographic Collection

Quando uma pessoa gosta de uma casa o suficiente, está disposta a ignorar quase tudo. Cores berrantes? Pinta-se por cima. Uma cozinha minúscula? Derruba-se aquela parede traseira. Fantasmas? Bem, porque não?

De facto, uma sondagem feita em 2018 pela realtor.com revelou que um terço dos potenciais compradores não pensaria duas vezes antes de comprar uma casa assombrada se o preço, a localização e as comodidades fossem atraentes o suficiente. E 18% disseram que um fantasma era tudo o que precisavam nas suas vidas e que comprariam as casas.

Apesar de os advogados se referirem às casas assombradas como propriedades “psicologicamente impactadas” ou “estigmatizadas”, há um número surpreendente de pessoas que lhes chamam apenas “lar”. Atravessei o país à procura de pessoas que consideram os fantasmas parte da sua família. Surpreendentemente, não foram difíceis de encontrar.

É importante realçar que eu nunca acreditei em fantasmas, e tenho a certeza de que ainda não acredito. Assim sendo, como é que consigo explicar o evento estranho que me assombra há alguns meses?

Eu estava a jantar com minha esposa Carolyn e a sua amiga de longa data Mary num charmoso restaurante vitoriano na histórica Lewes, em Delaware. Estávamos os três sentados numa mesa com quatro cadeiras. Assim que começámos a provar os nossos pratos – e aqui têm de me acompanhar – a garrafa de vinho que pedimos começou a deslizar, como se fosse uma peça num tabuleiro de xadrez, pela mesa em direção à cadeira vazia.

Enquanto observávamos em silêncio, com os nossos garfos a pairar entre o prato e a boca, a garrafa continuou até sair da mesa. Mas, em vez de cair, ergueu-se sobre o encosto da cadeira vazia e desceu suavemente até ao chão, pousando com um tom surdo, em vez de um som de impacto. Lá ficámos nós sentados, com os garfos ainda congelados no ar, com a boca aberta a olhar uns para os outros.

Ainda estávamos meio atordoados quando a empregada veio a correr do outro lado da sala. Enquanto colocava a garrafa na mesa, a empregada murmurou para si própria: “É o fantasma.”

Ao que parece, existe alguém... ou algo... que anda há vários anos a pregar partidas sobrenaturais como esta neste estabelecimento. O tempo de habituação foi longo, mas o proprietário e a equipa acabaram por concordar em partilhar a propriedade com uma entidade invisível. Isto pareceu-me estranho, mas quando parti à procura de casas assombradas, fiquei surpreendido com a quantidade de pessoas que partilham esta mesma atitude.

A casa do juiz dos julgamentos das bruxas de Salem, Jonathan Corwin, em Salem, no Massachusetts, é supostamente assombrada pelas pessoas que foram injustamente acusadas de bruxaria e condenadas à morte em 1692.

Fotografia de Steve e Donna O'Meara, National Geographic

Fantasmas amigáveis

Com a chuva miudinha a cair de um lençol de nuvens baixas e um relâmpago a ecoar ao longe, a atmosfera parece perfeita enquanto aguardo perto da Bath House Row em Hot Springs, no Arkansas, à espera que John Cooksey me mostre a sua casa assombrada.

A história humana de Hot Springs remonta a três milénios. Na parte traseira desta casa fica a Montanha de Hot Springs, onde as suas águas termais de 61 graus atraíram visitantes desde os primeiros nativos americanos até aos gangsters dos anos 1930. Há várias histórias sobre fantasmas nos antigos hotéis da cidade, nos violentos bares clandestinos e casas de prostituição.

John Cooksey chega no seu carro, que está apinhado de forma organizada com as ferramentas dos seus diversos ofícios – John é videógrafo, radialista local e agente imobiliário.

“Na verdade, tenho duas casas assombradas”, diz John Cooksey alegremente enquanto saímos do centro da cidade e nos dirigimos para as colinas. “A minha esposa e eu vivemos numa e alugámos a outra, que fica mesmo ali ao lado.”

Não demora muito tempo até chegarmos lá. Estas casas não são como aquelas mansões vitorianas ao estilo da Família Addams, nem têm janelas assustadoras, semelhantes a olhos, como na casa de terror de Amityville – A Mansão do Diabo. São apenas casas de alvenaria com relvados pouco cuidados e latas do lixo à porta.

“Este é o Bill”, diz John Cooksey à sua esposa Annie enquanto entramos na cozinha do casal por uma porta lateral. “O Bill está aqui por causa do fantasma.” Annie acena com a cabeça, como se John tivesse dito que eu estava ali para tratar da canalização.

“Contaste-lhe sobre o fumo”, pergunta Annie. “Aquilo foi... interessante.”

Na viagem que fiz até aqui, ouvi falar sobre passos misteriosos que se ouvem de madrugada e sobre olhos brilhantes que aparecem ocasionalmente no escuro, mas nunca ouvir falar sobre fumo. John Cooksey passa por uma porta em arco até uma divisão que agora é a lavandaria.

“Houve uma noite em que sentimos um cheiro parecido com o fumo de charuto”, diz John. “Nós seguimos o cheiro pela casa e finalmente descobrimos que vinha daqui. Quando entrámos nesta sala, o fumo simplesmente desapareceu. Não se dissipou, como seria de esperar. Simplesmente... desapareceu.”

John Cooksey diz que os seus hóspedes invisíveis são “fantasmas amigáveis”. “Nós gostamos deles. De vez em quando, fazem apenas algo para nos lembrar que ainda estão aqui.”

Como é óbvio, uma coisa é coabitar alegremente com algo de outro mundo, mas alugar uma casa assombrada a outra pessoa é algo completamente diferente.

Dirigimo-nos para a casa ao lado, uma residência muito parecida com a de John Cooksey. O casal aluga esta casa durante curtos períodos de tempo, geralmente a turistas. Quando chega ao alpendre, John Cooksey confessa que não conta aos potenciais locatários sobre os itens que se movem misteriosamente, os ruídos estranhos, as luzes intermitentes.

“São geralmente eles que me vêm falar sobre isso”, diz John Cooksey. “Houve uma vez em que alugámos a casa a uma senhora cega. Certa manhã, do nada, a senhora diz-me: ‘Conte-me sobre os espíritos desta casa. Eu consigo sentir que eles estão aqui.’”

Entramos na casa e a porta da frente dá diretamente para uma escada de madeira escura que nos leva até ao andar de cima. Subimos lentamente até ao claustrofóbico segundo andar, onde vejo algumas camas e uma janela na extremidade oposta.

“Vou regressar lá para baixo”, diz John Cooksey abruptamente. “Porque é que o Bill não fica a ver a casa alguns minutos? Desça quando estiver pronto.” E depois foi-se embora.

Fiquei ali em silêncio a tentar discernir se a minha inquietação vinha de uma presença invisível ou simplesmente do poder indutor de sugestão. De qualquer forma, achei que já estava pronto, corri escada abaixo e regressei para a rua.

Esta casa dos anos 1890 em Yankton, no Dakota do Sul – cujos rumores de longa data dizem estar assombrada – foi apresentada na televisão depois de o dono a ter colocado à venda no eBay. Um médium disse que a casa contém um portal entre o mundo físico e o invisível.

Fotografia de Christopher Gannon, Argus Leader/AP

O fantasma obsessivo-compulsivo

É certamente invulgar – mas aparentemente não é inesperado – que a torneira da cozinha de Leslie Grunewald comece de repente, e sem razão aparente, a funcionar com toda a força. “Isto acontece, por exemplo, quando Greg vai simplesmente lavar as mãos”, diz Leslie Grunewald.

Greg era um velho amigo de Leslie Grunewald e do seu marido, Doug. Tal como acontece tantas vezes nas histórias de fantasmas, Greg teve um final triste e repentino: aos 60 anos, este físico de longa data decidiu reformar-se. Mas dois meses antes de chegar à reforma, morreu repentinamente. Greg faleceu num quarto desta mesma casa em Livermore, na Califórnia.

Leslie Grunewald comprou a casa de Greg em 2016. Mas, apesar de ela e do seu marido terem renovado completamente a casa, “Greg nunca partiu”, diz Leslie Grunewald. “Eu creio que ele não estava pronto para partir. Parece que está a tentar permanecer cá.”

No seu smartphone, Leslie Grunewald demora um minuto para encontrar o vídeo que procura. É uma gravação do lava-loiça da cozinha filmado do outro lado da sala. A água está a sair com toda a força pela torneira. Depois, para de repente. A estranheza do vídeo deixa-me inquieto.

“Nunca sei quando é que água vai começar a correr, por isso não consigo apanhar a parte inicial”, diz Leslie Grunewald. Estes vídeos também incluem luzes a piscar misteriosamente, mas foi a água que convenceu Leslie de que Greg ainda estava por perto. O Greg sofria de transtorno obsessivo-compulsivo, diz Leslie. Ele estava constantemente a lavar as mãos.

"É como se ele simplesmente decidisse atravessar a cozinha para lavar as mãos novamente, como fazia quando estava vivo.”

No momento em que estava a comprar a casa, Leslie Grunewald sentiu que Greg ainda estava na habitação. “Consegui sentir a presença dele, uma espécie de essência. Mas isso deu-me ainda mais vontade de comprar a casa. Estou feliz por ele ainda estar aqui. Tenho o privilégio de pensar que ele quer partilhar a sua casa. Eu não quero que ele parta.”

Dizem que a Winchester Mystery House em San Jose, na Califórnia, é assombrada pelos espíritos que foram mortos por uma espingarda Winchester.

Fotografia de Jessica Christian, San Francisco Chronicle/Getty Images

Alerta ao proprietário

A venda da casa de Greg foi conduzida por Cindi Hagley, agente imobiliária na cidade vizinha de Pleasanton. Entre as cerca de 100 casas que Cindi Hagley vende anualmente, duas ou três têm entidades espirituais.

“A primeira casa que vendi estava assombrada!” diz Cindi Hagley, que é agente imobiliária na região há cerca de 15 anos. “Foi um pouco louco. Os vendedores contaram-me coisas estranhas sobre o que acontecia na casa. Eu não sabia o que fazer.”

Cindi Hagley consultou um agente veterano na sua empresa. “Ele disse-me que, desde que a presença espiritual não fosse do conhecimento público, não havia necessidade de contar a ninguém.” Mas se as pessoas da vizinhança soubessem do caso, isso poderia afetar o valor da propriedade e devia ser divulgado.

“Os proprietários disseram que nunca tinham contado a ninguém, por isso fiquei tranquila. Mas depois, na minha primeira sessão de casa aberta, um vizinho entrou e disse: ‘Finalmente, vou conseguir ver o interior da casa assombrada!’”

Agora, Cindi Hagley diz que revela a presença de entidades espirituais aos compradores – mas só quando estes já estão prontos para assinar o contrato. “Naquele momento, eles já tinham passado por um processo de licitação e estavam investidos emocionalmente. Portanto, não iam abandonar a casa por causa de um espírito.”

A referida sondagem feita pela realtor.com confirma esta afirmação: 54% das pessoas que acreditam que a sua casa está assombrada já o sabiam antes de a comprar. Não é preciso ir muito longe para termos um exemplo, como é o caso da habitação do século XIX em Rhode Island que inspirou o filme de terror de 2013, The Conjuring – A Evocação. Recentemente, esta propriedade foi colocada no mercado por 1.2 milhões de dólares.

Pode ser surpreendente descobrir que em muitos estados norte-americanos existem leis sobre a quantidade de informações que os vendedores devem revelar sobre uma casa assombrada. Na maioria dos estados, um vendedor pode permanecer calado – a menos que os compradores perguntem especificamente sobre espíritos. Os estados do Alasca e da Califórnia exigem aos vendedores que revelem se alguém morreu na propriedade nos últimos três anos.

Outro exemplo é o caso judicial histórico que aconteceu no estado de Nova Iorque em 1991 – Stambovsky v. Ackley. Os vendedores não revelaram ao comprador que havia um fantasma na casa, embora já tivessem contado a quase todas as pessoas, incluindo à revista Reader’s Digest. Um juiz ordenou que os vendedores devolvessem o dinheiro aos compradores. “Por uma questão de lei”, escreveu o juiz, “a casa está assombrada”.

‘Ocupada por espíritos’

Deixo o gabinete de Cindi Hagley em Pleasanton, viro para leste na estrada U.S. 50 e sigo cerca de 210 quilómetros até à antiga cidade mineira de Placerville, na Califórnia. Esta cidade tinha a alcunha de Hangtown (Cidade do Enforcamento), devido à sua reputação durante a Corrida ao Ouro como o local onde os mineiros que se apropriavam de terrenos eram regularmente executados. Por cima do bar Hangman’s Tree na Main Street, vemos um manequim enforcado numa corda.

É nesta cidade que vou passar a noite, num alojamento assombrado.

“Por favor, não diga que é assombrado”, corrige Robyn Rawers, proprietária do The Seasons Bed and Breakfast. “Prefiro dizer que a casa está ‘ocupada por espíritos’. E tem sido sempre uma força muito positiva.”

Robyn Rawers já teve ela própria várias encarnações. Nos anos 1970 e 1980, Robyn Rawers era conhecida por Robyn Douglass, atriz secundária de vários filmes, incluindo o clássico de culto sobre ciclismo, Os Quatro da Vida Airada, e uma das personagens regulares na série de televisão Galáctica original. Robyn Rawers abandonou o mundo do cinema para perseguir a sua paixão pelo bem-estar animal em Hollywood, e agora está aqui a entregar-me a chave do meu quarto. Esta casa de alvenaria com 160 anos fica numa encosta arborizada acima de Placerville.

“Nunca conto aos meus convidados sobre os espíritos”, diz Robyn Rawers. “Eles é que dizem que ouvem vozes. E perguntam porque é que as luzes continuam a acender e a apagar. A ventoinha começa a funcionar sozinha. Já chamei um eletricista para verificar as coisas e ele não encontrou nada. Assim, fico apenas ali sentada e sorrio.”

O The Seasons Bed and Breakfast foi notícia localmente há alguns anos, quando uma equipa de investigadores paranormais invadiu o local com equipamentos de deteção de espíritos. O veredicto dessa investigação: Sim, assombrado.

Em 1974, Ronald DeFeo Jr. matou o pai, a mãe, dois irmãos e duas irmãs nesta casa em Amityville, Long Island, Nova Iorque. Este assassinato em massa inspirou as versões do livro e do filme Amityville – A Mansão do Diabo.

Fotografia de Bettmann

“Os antigos proprietários disseram-me que são os espíritos de três irmãs que viviam aqui – Martha, Margaret e Catherine. E há um homem chamado Buck, que costumava estar sentado à porta da cave a esfolar animais.”

É claro que os hóspedes nem sempre ficam agradados por terem de dividir os seus aposentos. Um casal afirmou que tinha acordado de noite e viu o contorno de uma figura a pairar junto aos pés da cama, que os estava a observar.

“Eles estavam aterrorizados”, diz Robyn Rawers. “Nem sequer ficaram para o pequeno-almoço – saíram de repente.”

E boa sorte na obtenção de serviços de utilidade pública se a empresa souber da presença de um fantasma.

“Um funcionário que veio ler o medidor fugiu e disse que já não regressava”, diz Robyn Rawers. “Ele disse que estava ao lado da casa quando algo o atravessou! Tinha sido trespassado por algum tipo de identidade. Eu disse-lhe que era apenas o Buck!”

Infelizmente, não fui visitado por uma entidade fantasmagórica durante a noite que passei no The Seasons Bed and Breakfast. Nem o Buck nem as irmãs. Não ouvi vozes. Nem sequer uma luz intermitente.

A literatura científica está repleta de “explicações” para as atividades sobrenaturais, incluindo campos eletromagnéticos, fungos alucinogénios, envenenamento por monóxido de carbono e, claro, o simples poder de sugestão. Alguns estudantes do paranormal especulam que, em vez de ter causas externas, os eventos fantasmagóricos são manifestações dos poderes psíquicos do observador.

Quanto a mim, ainda não estou pronto para repetir as palavras do Leão Cobarde em O Feiticeiro de Oz: “Eu acredito em fantasmas! Acredito, acredito, acredito!” Mas também não posso negar aquelas luzes a piscar no vídeo... nem aquela água a correr... e sobretudo aquela garrafa a deslizar.

Gosto da atitude expressada por Robyn Rawers enquanto estávamos a tomar café e a observar uma chuva miudinha a regar o exuberante jardim atrás do The Seasons Bed and Breakfast.

“Talvez existam algumas coisas que não é suposto compreendermos”, disse Robyn.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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