Miguel Bombarda, o psiquiatra que morreu nas mãos de um louco

Lisboa estava na vanguarda da psiquiatria e do estudo de doenças mentais, graças a Miguel Bombarda. O médico acabou assassinado a tiros de revolver, alvejado por um paciente, dias antes da revolução de 1910.

Publicado 16/11/2021, 11:14
Dr. Miguel Bombarda

Além do seu enorme contributo para a reforma dos estudos médicos universitários, Miguel Bombarda desenvolveu uma importante atividade política na transição da Monarquia para a República.

Fotografia de Arquivo Histórico Municipal de Almada, Espólio Álvaro Neves e Hortênsia Neves de Sousa, Postais, n.º7028 , PT/AHALM/AHN/002-000013

O desenvolvimento da psiquiatria, como especialidade médica, emerge na segunda metade do século XIX, em Portugal, e Rilhafoles, em Lisboa, é o primeiro hospital especificamente destinado a receber doentes psiquiátricos, aberto em 1848.

O Dr. Miguel Bombarda teve um papel decisivo na melhoria das condições de assistência e tratamento dos doentes ao assumir a direção do hospital, em 1892. O médico era admirador da psiquiatria alemã, que consiste na criação de um modelo inovador de abordagem das doenças mentais graças ao dinamismo de um vasto corpo profissional e académico. O médico divulgou esta corrente da psiquiatria em Portugal, através do jornalismo médico, colóquios, congressos e cursos livres, ministrados fora do âmbito académico, uma vez que a psiquiatria só ganhou o estatuto de disciplina médica aquando da fundação da Universidade de Lisboa, após a implantação da República.

O psiquiatra impulsionou o internamento e tratamento de doentes mentais

Miguel Bombarda (1851-1910), médico, cientista, professor e político republicano português, foi diretor do Hospital Miguel Bombarda, outrora conhecido por Hospital de Rilhafoles ou Manicómio Bombarda, de 1892 até à sua morte, a 3 de outubro de 1910.

Foi na atual Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde frequentou a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, que veio a fundar o Instituto de Histologia e onde deu, mais tarde, um importante contributo para a reforma dos estudos médicos universitários.

O seu trabalho marca o início da transição da Psiquiatria para o nível de ciência laboratorial, tal como as demais disciplinas médicas que já usufruíam da autoridade e do prestígio desse estatuto.

Miguel Bombarda descrevia o manicómio como asilo, pelos incuráveis que abrigava, prisão, pelos doidos perigosos ou criminosos a quem tolhia a liberdade, oficina, pelo trabalho que exigia a uma grande parte da sua população, laboratório, pela ciência que era obrigado a produzir, quartel, pela rigorosa disciplina que tinha de impor e, finalmente, hospital.

Foi morto, o militante republicano de tendências socialistas

Miguel Bombarda apresentava-se como a antítese do seu colega Júlio de Matos. Este médico-psiquiatra do Porto, protagonizava a tendência ultraliberal e selecionista do republicanismo português. Já Miguel Bombarda defendia a legislação do trabalho, a socialização do solo, o imposto progressivo e também a separação da Igreja do Estado, o instituto do divórcio e todo um conjunto de medidas legislativas no âmbito da higiene social. Para este, a questão social não era um tema moral ou antropológico, era uma questão de meio social e por isso o seu otimismo republicano era de tipo socialista.

O Hospital de Rilhafoles recebia das prisões de Lisboa, os detidos que tinham enlouquecido depois de serem presos e os inimputáveis. Foi por um paciente procurar o Rilhafoles, no dia 3 de outubro, que acabou alvejado a tiros de revolver, por um antigo aluno dos colégios da Companhia de Jesus.

Encaminhado para o Hospital de São José em estado grave, houve quem se convencesse que o assassinato estava a cargo dos clericais. Após ter pedido para queimarem à vista uma carta que tinha na carteira e falado com o médico e jornalista, Brito Camacho, foi operado. Não resistiu à operação, esteve em coma e acabou por falecer pelas seis horas da tarde.

Miguel Bombarda, como membro da Comissão de Resistência da Maçonaria, era um dos principais dirigentes da revolução republicana em marcha, com o especial encargo de proceder à distribuição de armas por grupos civis, estando também prevista a sua participação no assalto ao quartel de Artilharia 1 em Campolide.

A sua morte provocou especial indignação junto do povo de Lisboa, para quem se tratava de um atentado reacionário, registando-se alguns incidentes na Baixa, onde populares, marinheiros e soldados, perseguiram e tentaram agredir alguns padres.

O legado de Miguel Bombarda

Miguel Bombarda foi um dos médicos mais prestigiados dos finais do século XIX e princípios do século XX, tendo publicado, em 1877, a notável tese “O delírio das perseguições”. Para além de diretor do Hospital de Rilhafoles, foi também fundador da Liga Nacional contra a Tuberculose.

A perturbação da sua morte deveu-se, também, à forma como esta ocorreu, tendo sido assassinado em vésperas da revolução, no seu próprio consultório, por Aparício Rebelo dos Santos, um doente seu, tenente de infantaria natural da cidade de Braga. Como Aparício Rebelo dos Santos foi diagnosticado com um problema mental, nunca chegou a ser presente a um tribunal.

Miguel Bombarda ficou lembrado como uma força da natureza, contemporâneo de Júlio de Matos, com quem travou polémicas como a questão da loucura penitenciária. Fez uma brilhante carreira docente na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e contribuiu decisivamente, através dos seus dotes de pedagogo-missionário, para a formação científica e filosófica de muitas gerações.

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