Algumas curiosidades sobre Fernando Pessoa, que (provavelmente) não sabe

Da génese dos heterónimos às últimas palavras em vida, descubra algumas curiosidades sobre Fernando Pessoa que talvez ainda não saiba.

Por Catarina Fernandes
Publicado 27/01/2022, 10:37
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, em 1928.

Fotografia por ARQUIVO MANUELA NOGUEIRA – CASA FERNANDO PESSOA

Fernando Pessoa (1888-1935) foi uma das personalidades mais marcantes da literatura portuguesa. Nascido no dia de Santo António, foi batizado de Fernando António Nogueira Pessoa, embora mais tarde tivesse criado vários heterónimos que ficaram na história. Reconhecido como poeta lírico e nacionalista, cultivou uma poesia voltada aos temas tradicionais da Lusitânia, a um ritmo saudosista e expressando as suas reflexões do seu eu mais profundo e das suas inquietações.

Nascido em Lisboa, era filho de Joaquim de Seabra Pessoa, um crítico musical, e Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa. Após perder o pai com apenas cinco anos de idade, vítima de tuberculose, conheceu o seu padrasto, o comandante militar João Miguel Rosa. Quando este foi nomeado cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul, Fernando Pessoa seguiu para a sua nova morada, acompanhando a família. Em África frequentou um colégio de freiras e a Durban High School, onde recebeu educação inglesa.

Apesar de ter ingressado no Curso Superior de Letras, em Lisboa, aos 17 anos, acabou por abandonar o mesmo depois de dois anos de frequência, sem realizar um único exame. Pessoa preferia estudar por conta própria na Biblioteca Municipal, onde leu diversos livros de filosofia, religião, de sociologia e literatura.

Fernando Pessoa, com poucos meses de idade, ao colo da mãe.

Fotografia por ARQUIVO MANUELA NOGUEIRA – CASA FERNANDO PESSOA

Escreveu os seus primeiros poemas, em inglês, apenas com 13 anos de idade e, aos 16, já havia lido alguns dos grandes autores da língua inglesa, tais como Shakespeare, John Milton e Edgar Allan Poe. Entre a vida e a obra deste poeta intemporal, muito se sabe e muito se escreveu, mas existem algumas curiosidades que passam ao lado dos mais desatentos.

Da infância aos heterónimos

Além do nascimento em dia de Santo António, a família de Fernando Pessoa reclamava a também a sua ligação genealógica ao santo cujo nome de batismo era Fernando de Bulhões. Conhecido por ser vários poetas ao mesmo tempo, “plural”, como se definiu, Pessoa criou personalidades únicas para os poetas que conviviam consigo, tendo cada um a sua própria biografia e diferentes características.

Para Alberto Caeiro, poeta da natureza, “tudo é como é” e tudo “é assim porque assim é”, reduzindo tudo à objetividade, sem a mediação do pensamento. Já para Ricardo Reis, portuense e exilado no Brasil por não concordar com a Proclamação da República Portuguesa, era um profundo admirador da cultura clássica. Bernardo Soares era um semi-heterónimo e, Álvaro de Campos, o mais importante dos heterónimos, nascido no sul de Portugal, era o poeta moderno de temperamento rebelde e agressivo, voltado para o inconformismo, manifestados através de uma verdadeira revolução poética.

Esquerda: Superior:

Fernando Pessoa com cerca de cinco anos.

Direita: Inferior:

Fernando Pessoa com 10 anos, em Durban, na África do Sul.

fotografias de ARQUIVO MANUELA NOGUEIRA – CASA FERNANDO PESSOA

Muito mais há a referir sobre Pessoa e várias são as curiosidades de Fernando Pessoa que permaneceram até à atualidade. O mítico slogan da Coca-cola “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, que remonta a 1929, foi da autoria de Fernando Pessoa. O mesmo trabalhava na agência Hora quando contribuiu para a campanha publicitária desta bebida que apenas viria a entrar em Portugal após o 25 de Abril, no verão de 1977.

Vivia longe dos holofotes

Entre as curiosidades de Fernando Pessoa sabe-se que, mesmo já tendo recebido o Prémio Antero de Quental, pela obra “Mensagem”, continuava a ser empregado de um escritório. Apenas cinco anos após a sua morte as suas obras despertaram interesse do público.

Devido ao seu percurso, só dez pessoas acompanharam a sua cerimónia fúnebre em Campo de Ourique, que juntou alguns intelectuais como António Botto, o primeiro português a assumir publicamente a sua homossexualidade, e alguns seus conhecidos do bairro, como foi o caso do seu barbeiro.

Faleceu com 47 anos de idade e, apesar de no seu atestado de óbito constar que a morte se relacionou com uma obstrução intestinal, o diagnóstico de internamento indicava uma cólica hepática associada a cirrose, possivelmente associada ao consumo excessivo e prolongado de álcool. Há ainda quem defenda que a causa da sua morte se tenha devido a uma inflamação aguda no pâncreas, cujos biógrafos relatam que recusou o internamento e que passou as últimas horas praticamente sozinho, sendo apenas visitado por uma enfermeira, o médico e o capelão. Consta ainda que as suas últimas palavras foram “Dá-me os óculos”.

O Bureau Internacional das Capitais da Cultura escolheu, no ano de 2008, Fernando Pessoa como uma das 50 personalidades mais influentes da cultura europeia, ao lado de nomes como Leonardo Da Vinci, o compositor clássico Mozart e, também, o físico Albert Einstein.

Um único amor na vida, além da paixão pela astrologia

A única namorada assumidamente conhecida foi Ofélia Maria Queiroz Soares, ainda que faça parte das curiosidades de Fernando Pessoa que, num dos números da “Pessoa Plural” - uma revista académica internacional dedicada a estudos sobre o poeta - uma série de escritos poéticos, do seu último ano de vida, permitiam concluir que o seu último amor foi uma loira inglesa.

A astrologia fez parte da vida de Pessoa. Como um verdadeiro apaixonado, fez os mapas astrais dos seus amigos e parentes, de conhecidos e de personalidades históricas. Há também quem afirme que Pessoa foi o responsável pela introdução do planeta Plutão em mapas astrológicos. Ao todo terá desenhado cerca de 300 cartas astrológicas, espólio que inclui algumas utilizadas para traduzir a personalidade dos seus heterónimos, outras ajudaram-no a prever eventos, entre outros. Chegou, inclusive, a cancelar um encontro com a poetisa brasileira Cecília Meireles, uma vez que os planetas não estavam alinhados a favor de ambos.

A propósito do encontro com a poetisa Cecília Meireles, que tinha como desejo na sua visita a Portugal, conhecer Fernando Pessoa, este deixou-a à espera no café “A Brasileira”, durante cerca de duas horas. Quando a mesma voltou para o hotel, encontrou um livro e uma carta de Pessoa com um pedido de desculpas por ter faltado ao encontro, justificando com a mensagem dos astros que aquele não era um bom dia para se encontrarem.

Já num outro curioso encontro, desta vez com o escritor José Régio, Fernando Pessoa chegou atrasado, tendo-se apresentado como Álvaro de Campos e pedindo perdão por Pessoa não poder comparecer.

Foi no estabelecimento Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, que travou conhecimento com o ocultismo e o misticismo, interesses esses que chegaram a organizações como a da fraternidade Rosa-Cruz e da Maçonaria. Acrescenta-se às curiosidades de Fernando Pessoa que este era, além disso, um grande admirador de Aleister Crowley, o mago britânico.

Esquerda: Superior:

Uma das fotografias mais célebres de Fernando Pessoa, na Rua Garrett, em Lisboa.

Direita: Inferior:

Fernando Pessoa junto ao Mosteiro dos Jerónimos, acompanhado pelos meios-irmãos Teca, Luís Miguel e a sua esposa Eve, na Primavera de 1935.

fotografias de ARQUIVO MANUELA NOGUEIRA – CASA FERNANDO PESSOA

O poeta que tinha em si “todos os sonhos do mundo”

Fernando Pessoa não foi somente um brilhante poeta, jornalista, tradutor, crítico literário, editor, publicitário e inventor, foi também um ativista político. No último ano da sua vida, mais concretamente entre fevereiro e outubro de 1935, produziu uma série de escritos, muitos deles contra Salazar e o Estado Novo, entre outros. Nessa época assinou também diversos textos e poemas anticatólicos, além de tantos outros, em defesa da liberdade e da dignidade humanas.

Entre várias curiosidades de Fernando Pessoa, podemos referir pequenas peculiaridades, tais como: o facto de não conseguir ver um lápis sem ponta, sendo que antes de começar a escrever, era costume afiá-los; assim como que o mesmo tinha o hábito de escrever de pé.

Das suas amizades destacavam-se outros dois grandes nomes da poesia portuguesa: Almada Negreiros, por um lado e, Mário de Sá-Carneiro, por outro, com quem inclusive se correspondia intensamente, até ao suicídio do seu amigo.

Mais recentemente o seu nome esteve envolto em polémica quando se descobriu que ao seu poema “Ode Triunfal”, de Álvaro de Campos, tinham sido retirados três versos do manual escolar do 12º ano, por conter linguagem considerada obscena. A editora veio a admitir a omissão dos versos, embora tenha recusado admitir qualquer censura, alegando que a versão completa está disponível para os professores, de forma que estes possam decidir se os introduzem em contexto de sala de aula.

Fernando Pessoa publicou quatro obras em vida, sendo apenas uma dela em português: 35 Sonnets, Antinous, Inscriptions e Mensagem. O inglês era mesmo a sua segunda língua. Já no que respeita às suas obras póstumas podemos referir várias:
1942 – Poesias de Fernando Pessoa;
1944 – Poesias de Álvaro de Campos;
1944 – A Nova Poesia Portuguesa;
1946 – Poesias de Alberto Caeiro;
1946 – Odes de Ricardo Reis;
1952 – Poemas Dramáticos;
1955 e 1956 – Poesias Inéditas I e II;
1968 – Textos Filosóficos, 2 v;
1973 – Novas Poesias Inéditas;
1974 – Poemas Ingleses Publicados por Fernando Pessoa;
1978 – Cartas de Amor de Fernando Pessoa;
1979 – Sobre Portugal;
1980 – Textos de Crítica e de Intervenção;
1982 – Carta de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões;
1985 – Cartas de Fernando Pessoa a Armando Cortes Rodrigues;
1986 – Obra Poética de Fernando Pessoa;
1986 – O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro;
1986 – Primeiro Fausto.

Depois de partir, para trás deixou mais de 25 mil folhas com texto que são espólio à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal, onde a sua singularidade é visível naquilo que escreveu, mas sobretudo na criação de figuras literárias.

As suas “personagens sem drama”, criadas desde o momento em que tinha apenas sete anos e escreveu o seu primeiro poema, invadiram as suas poesias, alargando-se cedo a outros géneros como notícias, charadas e anedotas que integraram o jornal O Palrador. Pessoa despediu-se, sem nunca ir verdadeiramente.

Fecha o leque de curiosidades de Fernando Pessoa, a partilha de que o ícone da literatura do século XX se despediu com as suas últimas palavras, escritas a lápis e em inglês, na véspera da sua morte: “I know not what tomorrow will bring”, isto é, “Eu não sei o que o amanhã trará”.

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