Este homem afogou-se há 5 mil anos. Como sabemos?

Ao modificar uma técnica forense moderna, os investigadores conseguiram determinar que os restos esqueléticos encontrados no Chile pertenciam a um pescador que se afogou no Pacífico há milhares de anos.

Os restos mortais antigos encontrados na costa norte do Chile foram analisados com uma técnica forense moderna que identifica vítimas de afogamento. Os investigadores encontraram evidências de que o homem, que muito provavelmente era pescador, pode ter-se afogado nas águas frias do Pacífico há 5.000 anos.

Fotografia por Alamy
Publicado 24/02/2022, 12:29

Há cerca de 5.000 anos, na costa do deserto de Atacama, no Chile, um pescador afogou-se nas águas frias do Pacífico. Esta é a história de vida ou morte de um indivíduo que viveu há milénios, e que os investigadores podem agora contar graças a uma reviravolta numa técnica forense moderna.

O “teste de diatomáceas”, usado atualmente para identificar vítimas de afogamento, depende do que acontece ao corpo humano durante o evento: a água inalada rompe os pulmões e é bombeada pelo corpo moribundo, inclusive ao longo de capilares minúsculos que atravessam os ossos e a medula.

Este adulto do sexo masculino era provavelmente um pescador devido aos sinais ósseos de que remava frequentemente e a uma dieta quase exclusivamente de peixe e marisco. Este homem foi enterrado de uma maneira invulgar, com os membros espalhados e conchas a substituir as vértebras que faltavam no pescoço.

Fotografia por PROFESSOR ALVARO ANDRADE

Os cientistas forenses examinam a medula dos mortos para procurar diatomáceas – algas microscópicas com conchas de sílica – que são caracteristicamente encontradas nas vítimas de afogamento. Agora, os investigadores que escrevem para o Journal of Archaeological Science confirmam que o teste de diatomáceas pode ser realizado em restos humanos que datam de há milhares de anos – um avanço que pode oferecer uma nova forma de investigar tsunamis pré-históricos e identificar as suas vítimas.

Esquerda: Superior:

Durante a análise foram encontradas partículas marinhas microscópicas semelhantes a microalgas.

Direita: Fundo:

Foram também observadas partículas marinhas microscópicas que se assemelham a um ovo de parasita.

fotografias de Equipa científica

Sabemos que os grandes tsunamis matam muitas pessoas, mas onde estão todas essas pessoas da pré-história?” pergunta James Goff, geólogo da Universidade de Southampton, no Reino Unido, e autor do novo estudo.

James Goff, especialista em tsunamis da antiguidade, encontrou um candidato adequado para usar esta técnica numa sepultura com 5.500 anos em Capoca 1, um sítio arqueológico na costa do deserto de Atacama, no norte do Chile.

O investigador James Goff estuda os restos mortais de um pescador da antiguidade. Os cientistas esperam que este avanço forense lhes permita identificar vítimas de tsunamis antigos.

Fotografia por Equipa científica

Este túmulo foi investigado em 2016 por outro autor do estudo, o antropólogo Pedro Andrade, da Universidade de Concepción, que identificou um esqueleto no local como podendo ser o de um pescador, devido ao desgaste ósseo consistente com o ato de remar frequentemente e às análises isotópicas que revelaram uma dieta quase exclusivamente de peixe e marisco.

O esqueleto estava praticamente intacto, mas faltavam as vértebras do pescoço, que tinham sido substituídas na sepultura por conchas enormes. O homem também parece ter sido enterrado com os braços a apontar em direções diferentes e com uma perna levantada.

James Goff diz que este esqueleto era a amostra ideal para uma prova de conceito do teste de diatomáceas em restos arqueológicos. “Sabíamos que este homem era pescador, por causa da sua estrutura óssea, e que teve um enterro bastante estranho – portanto, vamos ver se ele se afogou no mar”, diz James.

Morte por afogamento

Com o recurso à microscopia eletrónica, James Goff e os seus colegas captaram milhares de imagens da medula, no interior dos ossos maiores do esqueleto de Capoca 1, que tinham menos propensão para terem sido contaminados por elementos externos após a morte.

O teste forense moderno de diatomáceas remove a medula do osso e adiciona químicos para distinguir as diatomáceas; mas a modificação de James Goff preserva a medula no lugar e usa menos químicos, o que significa que outras partículas marinhas para além das diatomáceas também ficam preservadas. Curiosamente, os investigadores não encontraram diatomáceas fossilizadas no esqueleto de Copaca 1 – ainda não se sabe porquê, embora James espere encontrá-las na medula de outras vítimas de afogamento da antiguidade – mas encontraram outros tipos de algas marinhas fossilizadas, ovos de parasitas e sedimentos que o teste padrão de diatomáceas não teria detetado.

Embora a equipa de investigação já tenha estabelecido que este pescador morreu por afogamento, os investigadores não encontraram os mesmos sinais em dois outros conjuntos de restos humanos encontrados nas proximidades. Portanto, a equipa acredita que é provável que o homem tenha morrido num acidente de pesca, e não num tsunami antigo.

Ainda assim, a capacidade de determinar se as pessoas pré-históricas morreram afogadas será um grande avanço para as investigações arqueológicas de tsunamis. “Existem várias valas comuns pré-históricas que conhecemos nas zonas costeiras, e se descobrirmos que todas essas pessoas se afogaram, podemos dizer que provavelmente morreram num tsunami”, diz James Goff. “Depois, podemos olhar para outras evidências arqueológicas e compreender melhor como é que os povos pré-históricos viveram e morreram nas regiões costeiras do planeta.”

Os tsunamis devem ter tido um enorme impacto nas antigas comunidades costeiras, mas podem ser difíceis de identificar, diz Beverly Goodman-Tchernov, professora de geociências marinhas na Universidade de Haifa, em Israel, e Exploradora da National Geographic. Beverly e os seus colegas planeiam usar um teste de diatomáceas modificado nos ossos de um cão e de um homem que se afogaram em tsunamis após a erupção do Thera, há cerca de 3.600 anos.

Beverly também sublinha que nem todas as vítimas de um tsunami podem ter morrido por afogamento – por exemplo, podem ter morrido de trauma contundente durante o desastre. Mas o teste de diatomáceas modificado pode ser uma peça importante para decifrar este enigma. “Se houver uma vala comum, temos de usar um enorme conjunto de evidências para argumentar que pode ter sido devido a um tsunami”, diz Beverly. “Isso iria definitivamente contribuir para validar a ocorrência de um tsunami.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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