Após 11 anos de guerra civil, eis como é a vida quotidiana na Síria

Estas imagens oferecem uma visão rara da região nordeste da Síria, onde rebeldes divergentes, nações estrangeiras e o Estado Islâmico permanecem envolvidos num conflito complexo.

Mulheres cuidam do cabelo de uma rapariga em frente a um edifício danificado em Raqqa, na Síria, em 2021. Raqqa, capital do Estado Islâmico entre 2014 e 2017, foi o centro de intensos combates entre as forças curdas e jihadistas do Estado Islâmico. Segundo a ONU, 80% da infraestrutura da cidade foi destruída.

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Por Kristin Romey
Publicado 15/03/2022, 12:21

Enquanto o mundo testemunha a violência na Ucrânia, um aniversário amargo está a ser assinalado na Síria, onde o país está a entrar na sua segunda década de guerra civil. Este conflito – desencadeado pela prisão de supostos artistas de grafíti antigovernamentais no início de março de 2011 – levou à morte de cerca de 400.000 pessoas e dividiu o país numa frágil manta de retalhos, com territórios principalmente aliados ao governo de Bashar al-Assad a oeste, e forças governamentais independentes sírias, curdas e turcas a leste.

Um dos maiores focos de tensão permanece na região nordeste da Síria, diz o fotógrafo William Keo, que viajou para a região após a queda do Estado Islâmico em 2019. O objetivo de William Keo era documentar a reconstrução de uma sociedade que estava a emergir de cinco anos de um governo extremista. Contudo, em vez disso, William deu por si no meio de uma nova ofensiva, depois de as tropas turcas terem lançado operações transfronteiriças na Síria contra as forças alinhadas com os curdos.

“Eu percebi esta era outra guerra que estava a começar”, diz William Keo, “uma longa guerra que não seria como nos primeiros 10 anos”.

Esta nova década de guerra vai ser desgastante. E enquanto as forças curdas rastreiam células adormecidas do ISIS numa das regiões mais instáveis do país, na cidade de Deir-Ez-Zor, no leste da Síria, o grupo continua poderoso. Agora, surge ainda mais instabilidade quando a Rússia, principal defensora do regime de Bashar al-Assad, direciona as suas forças e atenção para a invasão da Ucrânia, enquanto novas sanções dificultam o seu apoio financeiro a este conflito no Médio Oriente.

William Keo, que regressou novamente ao nordeste da Síria em 2021, conversou com a National Geographic na semana passada a partir da cidade ucraniana de Lviv. A Síria deve servir como uma advertência para a forma como o conflito na Ucrânia pode acabar, diz William, que também receia que a atual crise de refugiados na Europa desvie a atenção do mundo dos deslocados da Síria – e que as imagens das vítimas de guerra na Ucrânia ofusquem as de Raqqa ou Qamishli. O objetivo de William é documentar a universalidade em momentos, em fragmentos de vida que acontecem independentemente do caos circundante.

“Ir ao mercado com os filhos pode ser uma coisa muito universal”, diz William. “Eu apenas tento contar uma história complexa com imagens simples.”

Mulheres sírias fazem compras no mercado central de Raqqa, em maio de 2021. Sob o domínio do Estado Islâmico, todas as mulheres foram impedidas de sair de casa sem um acompanhante masculino e deviam estar cobertas dos pés à cabeça.

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Shahad, ao centro, de 13 anos, procurou abrigo no campo de refugiados de Washokani depois de fugir da cidade de Ras Al-Ain, uma cidade síria na fronteira com a Turquia, com os seus dois irmãos – sem os pais – após uma ofensiva turca em 2019. O campo de Washokani, perto de Hasakah, no nordeste da Síria, abriga mais de 10.000 pessoas. Tal como Shahad, também outras pessoas nos campos de refugiados pediram para os seus nomes completos não serem publicados.

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Halim, de 35 anos, com a filha, também era residente no campo de Washokani em 2019. Originária de Ras-Al-Ain, Halim receava as repercussões que podia sofrer caso fosse reconhecida.

Yasmine, uma cidadã belga fotografada em 2019, é uma das mais de 70.000 pessoas no campo de al-Hol, na Síria, onde as famílias dos combatentes do Estado Islâmico estão detidas. Muitos países estão relutantes em levar os cidadãos afiliados ao Estado Islâmico de regresso para os seus países de origem.

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Hussein, de 31 anos, e o filho Ali, de quatro meses, fugiram de Ras-Al-Ain após a ofensiva turca de 2019 no norte da Síria e encontraram abrigo a cerca de 40 quilómetros de distância em Hasaka, numa escola convertida em centro de refugiados para deslocados do país.

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Abdel Aziz, de 47 anos, um curdo que vivia perto da linha da frente durante a ofensiva de 2019 em Tall Tamr, no nordeste da Síria, foi baleado na virilha durante os combates. Abdel Aziz morreu num hospital em Hasakah um dia depois de esta fotografia ter sido tirada.

Membros dos serviços secretos curdos patrulham a cidade devastada de Raqqa em maio de 2021. A queda do Estado Islâmico na Síria em 2019 prometeu uma nova era de estabilidade, mas a realidade tem sido bastante diferente.

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Uma vala comum era preparada em Qamishli, a maior cidade curda na Síria, em 2019, para vítimas civis de um ataque com um carro-bomba reivindicado pelo Estado Islâmico. Pelo menos cinco pessoas morreram e mais de 20 ficaram feridas.

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Enlutados junto aos túmulos de civis mortos durante a ofensiva turca feita em 2019 em Qamishli, na Síria.

Membros das Forças Democráticas Sírias (SDF) dominadas pelos curdos preparam-se para combater as tropas turcas enquanto um caça turco se aproxima, a norte de Tel Tamr, na Síria, em 2019. Os bombardeamentos aumentaram recentemente na região após a fuga da prisão de guerrilheiros do Estado Islâmico, em janeiro de 2022.

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Membros das SDF, compostas principalmente por combatentes das Unidades de Proteção do Povo Curdo (YPG), prendem dois alegados membros do Estado Islâmico em Deir Ez-Zor, em maio de 2021. Deir Ez-Zor continua a ser uma das áreas mais perigosas da região, com a presença de forças ativas do Estado Islâmico.

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O comandante Hezat (ao centro), do YPG, fala com as suas tropas em Deir Ez-Zor em maio de 2021. Este combatente curdo também comanda unidades antiterroristas das SDF treinadas pelas Forças Especiais dos EUA e pela CIA.

Os habitantes de Qamishli reúnem-se para comer um gelado durante o Eid, em maio de 2021. Este feriado, um dos mais importantes do ano muçulmano, ofereceu uma breve pausa para o caos vivido diariamente no nordeste da Síria.

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Crianças brincam na Praça Naim de Raqqa, onde o Estado Islâmico já realizou execuções públicas. Os locais que outrora agiam como símbolos de uma brutalidade impensável podem encontrar um novo desígnio, mas o trabalho árduo de reconstrução pode acompanhar várias gerações.

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Em 2019, crianças jogavam futebol numa escola convertida em abrigo para civis deslocados pela guerra em Hasakah. Durante a ofensiva turca no norte da Síria no mesmo ano, mais de 160.000 civis fugiram dos confrontos, incluindo as 31 famílias alojadas na escola.

Um grupo de pessoas encontra algum alívio do calor à sombra de uma árvore em Raqqa, em 2021. O apoio financeiro russo ao regime sírio pode ser impactado pelas sanções impostas a Moscovo devido à sua nova invasão à Ucrânia, mergulhando o país do Médio Oriente numa nova ronda de conflitos e desastres humanitários.

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William Keo é um fotógrafo franco-cambojano e candidato ao Magnum Photo 2021 sediado em Paris, cujo trabalho se concentra no passado da sua família: refugiados, migração, exclusão social e intolerância intercomunitária. William documenta a crise dos refugiados sírios no Médio Oriente desde 2016, depois de ter coberto a situação na Síria após a queda do Estado Islâmico. Descubra mais sobre o seu trabalho aqui.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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