“Aquela entrevista transformou as pessoas.” O que fez Tammy Faye – e porque foi importante.

Em 1985, a evangelista norte-americana Tammy Faye Bakker obteve um sucesso improvável ao entrevistar um pastor homossexual com SIDA ao vivo na televisão. Trinta e sete anos depois, o convidado daquele dia reflete sobre o impacto que a entrevista provocou.

Jessica Chastain representa a evangelista que se tornou num ícone LGBT+ em Os Olhos de Tammy Faye. (A Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic e da Searchlight Pictures.)

Fotografia por Searchlight Pictures
Por STEVE PIETERS
Publicado 11/03/2022, 12:38

Em outubro de 1985, a controversa evangelista Tammy Faye Bakker convidou Steve Pieters, um jovem pastor homossexual com SIDA que poucas semanas antes tinha estado às portas da morte, para uma entrevista ao vivo no seu programa Tammy's House Party.

Conhecida pelas suas visões tradicionalistas, e do seu então marido Jim Bakker, a evidente compaixão de Tammy Faye pela sexualidade, fé e doença de Steve Pieters perante uma audiência de milhões de pessoas foi encarada por alguns como estando radicalmente distante da dos seus companheiros cristãos conservadores – e a de uma população dominada pelo estigma e medo de uma doença ainda pouco compreendida. Para outros, incluindo a comunidade LGBTQ+ e pessoas com SIDA, a entrevista foi encarada como um marco na aceitação e representatividade.

Tammy Faye voltou novamente a casar e morreu de cancro em 2007. Para Steve Pieters, 2022 assinala 40 anos desde que foi diagnosticado com SIDA. Uma versão dramatizada da sua entrevista é um momento crucial no novo filme, Os Olhos de Tammy Faye, mas neste artigo Steve Pieters recorda o pano de fundo – e as consequências – da sua entrevista fraturante com Tammy Faye.

Steve Pieters falou com Simon Ingram via telefone a partir de Los Angeles. Esta entrevista foi editada por motivos de extensão e clareza.

Cresci a sentir-me profundamente envergonhado por ser homossexual. Quando era adolescente, usava réguas nas mangas para me tentar ensinar a não deixar os pulsos frouxos. Venho de uma família muito religiosa, não religiosa conservadora, mais liberal – mas que ainda assim não via qualquer imagem positiva da homossexualidade. Nas décadas de 1950 e 1960, quando estava a crescer, não havia sequer uma imagem da homossexualidade.

No primeiro ano após sair da faculdade, eu bebia até cair para o lado. Quando fiquei sóbrio, percebi – aos 23 anos – que tinha de ser honesto sobre a minha homossexualidade para parar realmente de beber. Depois, saí com um rugido do armário. Tornei-me ativista homossexual pouco depois, e também decidi ir para o seminário, para poder estudar para entrar na Igreja da Comunidade Metropolitana (MCC) – a principal designação cristã para LGBTQ+.

O seminário presbiteriano que frequentei em Chicago foi muito interessante para mim. Encontrei uma comunidade de pessoas LGBTQ+ no MCC da cidade e interessei-me imediatamente por estas pessoas, e elas por mim, e tornei-me parte do grupo. O corpo docente apoiou-me uniformemente enquanto homem homossexual que estudava para um ministério religioso na comunidade gay – mas havia muitos alunos que eram homofóbicos. Eles tentavam discutir comigo sobre o que chamávamos “passagens de espancamento” na Bíblia, ou simplesmente sobre a ética ou a moralidade de se ser homossexual. Foi uma forma maravilhosa para eu cerrar os dentes e aprender a lidar com estes argumentos.

Fui o primeiro pastor da MCC em Hartford, no Connecticut, onde havia alguns grupos anti-homossexuais. Dei por mim na televisão a discutir com padres ou ministros homofóbicos que mais tarde iria encontrar nos bares de homossexuais de Hartford na mesma época. Portanto, aprendi desde cedo a lidar com a imprensa no que diz respeito a ser homossexual.

A década de 1970 foi uma época maravilhosa para se ser homossexual na América. Harvey Milk estava no seu auge, e havia muitas pessoas a afirmarem a sua sexualidade e a colocar um rosto humano no que era ser LGBTQ+.

Depois veio a década de 1980. Li os relatórios iniciais sobre um novo “cancro homossexual” e “pneumonia homossexual”, como era chamada na época. Esta doença rapidamente ficou conhecida por Imunodeficiência Relacionada com Homossexuais (GRID). Quando comecei a desenvolver sintomas, fiquei horrorizado – e apavorado com o facto de poder ser diagnosticado.

“No início de 1984, havia tanto receio em torno da SIDA que eu nem sequer tinha permissão para entrar nos estúdios de televisão onde realizavam os painéis de debate.”

por STEVE PIETERS

E, como seria de esperar, fui diagnosticado. Adoeci bastante entre 1982 e 1983, tive hepatite, CMV, mononucleose, faringite estreptocócica, herpes, infeções fúngicas e problemas cutâneos. Foi uma época horrível, porque havia muito medo que qualquer homem homossexual pudesse ter SIDA, nome pelo qual esta doença acabaria por ficar conhecida.

Eventualmente fui diagnosticado com dois tipos de cancro terminal em abril de 1984, quando se descobriu que eu tinha linfoma de estágio quatro e sarcoma de Kaposi. Uma profissional de saúde leu a minha ficha e disse que eu tinha oito meses de vida. Ela disse que eu não chegaria a ver 1985.

Como estava tão doente, tudo era desmoralizador. Fiquei confinado em casa. Havia um estigma enorme sobre ter SIDA. As pessoas tinham medo de estar na mesma sala que eu, respirar o mesmo ar. E claro, ninguém me iria querer tocar. Desta forma, rapidamente me tornei muito solitário.

Aprendi desde muito cedo que colocar um rosto humano na equação ajudava a diminuir o estigma. Assim, comecei a fazer entrevistas sobre o que era ter SIDA. No início de 1984, havia tanto receio em torno da SIDA que eu nem sequer tinha permissão para entrar nos estúdios de televisão onde realizavam os painéis de debate, e eles não vinham ao AIDS Project em Los Angeles. Mas como eles queriam que eu participasse, tive de me sentar num beco para ser gravado para os programas de televisão. Quando as entrevistas terminavam, eu tirava o auscultador ou o microfone de lapela e entregava à pessoa do som, e ele ou ela diziam invariavelmente que não era preciso devolver o material, que eu o podia guardar ou deitar fora, porque eles já não o queriam.

Foi-me pedido para dirigir o sermão de Páscoa em abril de 1984, duas semanas depois de ter sido diagnosticado com cancro. E, devido à minha fé, mesmo enfrentando uma morte horrível e estigmatizada, percebi que ainda podia desfrutar da companhia dos meus amigos, ainda podia rir, podia estar completamente vivo – e ainda podia dançar! E fiz um pequeno sapateado ali mesmo no púlpito para lhes mostrar.

Eu não tinha motivos para acreditar que ia sobreviver. Ninguém sobrevivia à SIDA naquela época. Mas tive a sorte de ter um médico, que ainda é o meu médico até hoje, que disse: “Se uma pessoa num milhão vai sobreviver à SIDA, porque não acreditar que você é essa pessoa num milhão e agir de acordo com a situação?”

Assim, propus-me a criar as condições para me curar – e para criar um programa de bem-estar para aumentar as probabilidades de sobreviver para além do meu prognóstico, e para que um tratamento pudesse funcionar quando eventualmente estivesse disponível. Mas eu tinha sempre receio de morrer em breve.

Tammy Faye Bakker (Jessica Chastain) entrevista Steve Pieters (Randy Havens) numa cena de Os Olhos de Tammy Faye. Durante a entrevista, que durou 25 minutos, Tammy Faye discutiu a vida sexual de Steve Pieters, a sua doença e lamentou ao dizer “é tão triste que nós, enquanto cristãos... que supostamente devemos amar todas as pessoas, tenhamos tanto medo de um paciente com SIDA que nem sequer somos capazes de lhes dar um abraço e dizer que nos importamos”.

Fotografia por Searchlight Pictures

Já sabia quem era a Tammy Faye. Quando estava confinado em casa, via muita televisão. A minha vizinha e principal cuidadora era uma colega do clero, Lucia Chappelle; ela via o programa do Jim e Tammy comigo. Riamos às gargalhadas das suas travessuras e ficávamos de queixo caído com as suas teologias conservadoras. Estávamos fascinados. Era como assistir a um acidente de viação ou algo assim. Mesmo na década de 1980, Tammy gostava de fazer caricaturas, e muitas pessoas encaravam-na como uma senhora um tanto louca, cheia de maquilhagem.

Portanto, quando fui convidado para ir ao programa dela, pensei que estava tudo bem, eu estava preparado para fazer aquilo. Pensei que podia alcançar um público que de outra forma não conseguiria. Foi uma oportunidade maravilhosa.

Fiz questão que fosse gravado ao vivo, porque não queria que editassem as coisas para servir outros propósitos. Também tinha algumas reservas, pensei que ela me podia atacar por ser homossexual e tentar convencer-me de que eu devia converter-me ao seu tipo de cristianismo, para ser “salvo” e tornar-me heterossexual. Mas Tammy não o fez. Não era isso que a motivava.

Enviaram-me duas passagens de avião de primeira classe para voar até Charlotte – uma para mim, outra para a minha companheira, a Reverendo Nancy Radcliffe, que era o meu capelão. Quando estávamos a caminho do aeroporto, o produtor do programa telefonou e disse: “Não venha – a Tammy está doente. Vamos cancelar a entrevista.” Nós ficámos muito desapontados. Depois, no dia seguinte, o produtor ligou novamente e disse: “Decidimos fazer a entrevista à distância de qualquer maneira porque a Tammy já se sente melhor, e decidimos fazer a primeira ligação via satélite na história da rede PTL.”

Tammy chegou a dizer em direto que eu estava a fazer quimioterapia e que estava a ser entrevistado a partir de Los Angeles porque a viagem ia ser “muito difícil para mim”. Mas depois soube que eles estavam com medo de que eu não fosse bem tratado, ou de que a equipa de filmagem não funcionasse bem se eu estivesse no estúdio.

“Ela foi muito querida, muito sincera e compassiva naqueles três minutos antes da entrevista começar, todas as minhas preocupações desapareceram.”

por STEVE PIETERS

Conversei com a Tammy durante cerca de três minutos antes da entrevista começar. Não a conseguia ver, não havia um monitor, mas ela conseguia ver-me – e era uma vozinha no meu ouvido. E quando dissemos olá, ela esforçou-se para me agradecer por ter tido a coragem de ir ao programa dela. E garantiu-me que este não seria um programa onde iam falar sobre Jesus. Mas depois começou a falar sobre Jesus, e eu entrei logo na conversa.

Ela foi muito querida, muito sincera, e compassiva naqueles três minutos antes da entrevista começar. Todas as minhas preocupações desapareceram, e eu fiquei assegurado de que ia correr tudo bem. E correu tudo bem.

Sabia que esta entrevista ia chegar aos milhões de espectadores que viam os programas da Tammy na rede PTL (Praise the Lord). Mas não sabia o impacto que iria ter no público em geral, nem fazia ideia de como iria afetar a população LGBTQ+.

Lembro-me de sair da entrevista a pensar que tinha feito um trabalho horrível e disse à minha vizinha Lucia: “Estou descansado porque ninguém que eu conheço vai ver isto.”

Steve Pieters atualmente. “Quando se pensava que ninguém ia sobreviver, eu consegui melhorar. E isso foi um milagre notável. Ou, como se diz no mundo da medicina, uma anomalia.”

Fotografia por JAMES FRANKLIN

Alguns colegas avisaram-me para eu não ir ao programa da Tammy, porque isso ia destruir a minha reputação enquanto pastor ativista homossexual. Mas não foi isso que aconteceu – eu acabei por ficar no mapa. E creio que também ajudou a Tammy, em termos de ficar conhecida como alguém que não deixou o estigma ou o tabu afetar a sua compaixão natural. A Tammy teve muitos problemas devido à entrevista que fez comigo.

Nunca nos encontrámos. É algo que lamento até hoje. Trocámos cumprimentos ocasionalmente através de um amigo em comum, mas não passaram de olá e pouco mais.

Creio que a minha entrevista foi muito bem usada no filme. Talvez tivesse escolhido passagens diferentes, mas acho que escolheram as partes certas. E citaram-me diretamente no filme, eu disse: ‘Jesus ama-me como eu sou, Jesus ama a forma como eu amo.’

Olhando agora para trás, consigo perceber como isto foi um grande passo para as pessoas que lidam com a SIDA, e para mudar as atitudes das pessoas em relação à doença. Ouvi testemunhos de inúmeras pessoas ao longo dos anos, pessoas que foram transformadas por aquela entrevista. As atitudes destas pessoas mudaram, as suas crenças e teologia também mudaram por causa disso. Eu soube de cristãos LGBTQ+ que se assumiram depois da entrevista. Foi algo que abalou realmente o mundo cristão conservador. E não fazia ideia naquela época de que tinha ido tão longe.

Acho que dar coragem às pessoas foi aquilo para o qual eu treinei para fazer. Simplesmente não fazia ideia de que isso iria acontecer através da Tammy Faye. Mesmo depois da entrevista, eu não estava minimamente convencido de que isto teria algum tipo de impacto onde quer que fosse. Mas ainda tem impacto, e isso continua a surpreender-me.

Em 1987, contra todas as probabilidades, recuperei da SIDA. Quando se pensava que ninguém ia sobreviver, consegui melhorar. E isso foi um milagre notável. Ou, como se diz no mundo da medicina, uma anomalia. É incrível que tenha acontecido comigo e com a comunidade que lutava contra a SIDA, e com a comunidade de pessoas diagnosticadas com doenças mortais. Se eu consegui sobreviver à SIDA, numa época em que não havia tratamentos, então porque é que as pessoas não podem acreditar que conseguem sobreviver ao que quer que seja que lhes tenha sido diagnosticado?

Quando a conversa gira em torno da COVID-19, gosto de dizer que esta não é a minha primeira pandemia. Creio que a pandemia de SIDA tem muito para nos ensinar sobre a pandemia atual – principalmente na forma como lidar com o medo que a acompanha. Uma vez, ouvi um grande pregador americano, William Sloane Coffin, a dizer: “O medo é uma resposta natural. “Mas temos uma escolha em relação ao que fazer com esse medo. Podemos ter medo da morte ou podemos ter medo da vida.” Para mim, isto significa que devemos fazer tudo o que for possível para criarmos as condições para curar os nossos corpos e sermos uma comunidade uns para os outros – mesmo perante uma coisa tão horrível como a COVID.

Há cerca de cinco ou seis meses, fui entrevistado por um homossexual para a revista Poz, uma revista direcionada a pessoas que convivem com HIV. E lembro-me de lhe dizer que estava preocupado porque o meu obituário provavelmente iria dizer: ‘Pastor homossexual com SIDA entrevistado por Tammy Faye acabou finalmente por morrer.’ E o entrevistador disse: ‘Essa é a atitude absolutamente errada – você devia ter orgulho porque vai ser lembrado por isso.” E, desde então, tenho pensado no assunto. Afinal de contas, este não é um legado assim tão mau.

O filme "Os Olhos de Tammy Faye" estreia no Disney+ a 23 de março.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

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