Como foi a Guerra Fria – e será que rumamos em direção a outra?

O impasse de 45 anos entre o Ocidente e a URSS terminou com a dissolução da União Soviética. Alguns especialistas alertam que podemos estar perante o começo de outra guerra fria, à medida que as tensões com a Rússia aumentam.

Por Erin Blakemore
Publicado 28/03/2022, 11:04 , Atualizado 28/03/2022, 15:46
Simulacro de ataque aéreo

Embora os EUA e a União Soviética estivessem tecnicamente em paz durante a Guerra Fria, este período foi marcado por tensões crescentes à medida que ambos os países tentavam apressadamente abastecer o seu arsenal nuclear. Para muitos americanos – incluindo estes alunos e professores refugiados debaixo das secretárias numa escola em Nova Jersey – os simulacros de ataques aéreos tornaram-se parte da vida quotidiana.

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À medida que a Segunda Guerra Mundial se arrastava até à sua conclusão em 1945, os líderes das “Três Grandes” potências aliadas – Estados Unidos, União Soviética e Grã-Bretanha – reuniram-se em Potsdam, na Alemanha, para discutir os termos e resolver o conflito mais sangrento que o mundo alguma vez tinha testemunhado. As grandes potências dividiram a Alemanha em zonas de ocupação, reconheceram um governo apoiado pelos soviéticos na Polónia e dividiram o Vietname, decisões monumentais que moldaram a ordem global do pós-guerra. Estas negociações tinham como objetivo forjar uma paz duradoura, mas passados 18 meses começou uma Guerra Fria que durou mais de quatro décadas.

Um dos momentos mais importantes em Potsdam não ficou registado em memorando ou foi comentado em conferência de imprensa. No final da conferência, o presidente dos EUA, Harry Truman, chamou o primeiro-ministro soviético Josef Estaline para partilhar algumas notícias explosivas: os EUA tinham acabado de testar eficazmente uma arma com uma “força destruidora invulgar”. Tratava-se de uma arma nuclear capaz de destruir cidades inteiras, o armamento mais perigoso e poderoso de sempre.

Em poucas semanas, os EUA iriam usar a bomba atómica para forçar a rendição do Japão. Com uma arma devastadora e comprovada no seu arsenal, os EUA estavam subitamente em vantagem entre as potências que foram aliadas durante a guerra. O que se seguiu foi uma disputa perigosa pela supremacia entre duas superpotências, os EUA e a URSS, que durou até ao colapso da União Soviética em 1991.

Esquerda: Superior:

No verso de uma fotografia tirada na Conferência de Potsdam de 1945, o presidente dos EUA, Harry Truman, relembra uma conversa com o primeiro-ministro soviético, Josef Estaline, que muitas vezes é considerada o começo da Guerra Fria. A nota diz: “Na qual digo a Estaline que esperamos lançar o explosivo mais poderoso alguma vez feito sobre os japoneses. Ele sorriu e disse que apreciava eu ter-lhe contado – mas não sabia do que é que eu estava a falar – da Bomba Atómica!”

Direita: Inferior:

Josef Estaline, Harry Truman e o primeiro-ministro britânico Clement Attlee participam na Conferência de Potsdam de 1945. Os líderes dos “Três Grandes” – as nações que levaram as forças aliadas à vitória na Segunda Guerra Mundial –  reuniram-se para determinar a forma geopolítica do pós-guerra.

Embora as duas nações estivessem tecnicamente em paz, este período foi caracterizado por uma corrida às armas muito agressiva e dispendiosa; incluindo guerras colaterais muito sangrentas travadas na América Latina, África e Ásia; e uma competição pelo domínio mundial entre os governos capitalistas liderados pelos EUA e o bloco comunista liderado pelos soviéticos.

A Guerra Fria durou quase meio século. Eis as razões pelas quais começou, como escalou de tom e o seu legado atual – e porque é que alguns analistas acreditam que outra Guerra Fria pode já estar está em andamento.

Porque é que se chama Guerra Fria?

O termo “guerra fria” já existia desde a década de 1930, quando guerre froide foi usado em França para descrever as relações cada vez mais tensas entre os países europeus. Em 1945, logo após os Estados Unidos lançarem a bomba atómica em Nagasaki e Hiroshima, o escritor britânico George Orwell usou o termo num ensaio que explorava o que a bomba atómica significava para as relações internacionais.

As bombas atómicas mataram mais de 100.000 cidadãos japoneses, revelando um poder destruidor tão aterrorizante que George Orwell previu que iria desencorajar a guerra aberta entre as grandes potências, criando em vez disso “um estado ao mesmo tempo invencível e em permanente estado de ‘guerra fria’ com os seus vizinhos”.

A previsão de George Orwell de uma “paz que não era paz” tornou-se realidade à medida que a desconfiança entre os antigos aliados ia sendo semeada.

Portanto, como é que começou a Guerra Fria?

A URSS sofreu o maior número de baixas militares e civis durante a guerra – cerca de 24 milhões de pessoas – enquanto libertava enormes áreas da Europa Oriental do controlo nazi. O líder soviético Josef Estaline estava insatisfeito com a divisão da Europa no pós-guerra, que segundo ele não refletia de forma justa o sacrifício feito pela sua nação.

Em 1946, nos EUA, o diplomata George Kennan descreveu a crescente desconfiança da União Soviética através do chamado “Telegrama Longo”, como acabou por ficar conhecido. George Kennan alertava que a URSS era ilógica, insegura e que não iria cooperar com o Ocidente a longo prazo. Em resposta, Washington começou a adotar uma política de “contenção” para impedir a disseminação da ideologia e influência soviética.

Um camião de fabrico americano é descarregado de um cargueiro em Piraeus, uma cidade portuária na Grécia. Em 1947, para tentar conter a influência soviética pelo mundo inteiro, os EUA comprometeram-se a apoiar o governo monarquista grego na sua guerra civil contra as forças pró-comunistas.

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Os EUA rapidamente conseguiram uma oportunidade para flexibilizar a sua nova política. Em 1947, a Grã-Bretanha anunciou que iria retirar a ajuda da Grécia e da Turquia, nações que lutavam contra revoltas comunistas. O presidente Harry Truman aproveitou a ocasião para pedir fundos ao Congresso para ajudar os dois países, estabelecendo o que ficou conhecido por Doutrina Truman – o princípio de que os EUA deviam apoiar os países ou pessoas ameaçados pelas forças soviéticas ou pela insurreição comunista. Estaline encarou esta jogada como o tiro de abertura para uma guerra nas sombras.

O termo “Guerra Fria” tornou-se numa abreviatura para descrever a luta ideológica entre o capitalismo no Ocidente e o comunismo no Oriente. O jornalista americano Walter Lippmann popularizou o termo numa série de artigos publicados em 1947, enquanto as nações mundiais escolhiam de que lado estavam neste impasse.

O que levou à criação da NATO?

Os EUA não eram a única nação preocupada com os esforços de Estaline para estender a influência soviética em direção a oeste e colocar outros estados sob o domínio comunista. Em 1948, a URSS apoiou um golpe comunista na Checoslováquia e lançou um bloqueio a Berlim Ocidental, que tinha sido dividida em zonas de ocupação controladas por comunistas na parte leste e capitalistas na zona oeste.

Para demonstrar uma frente unida, os EUA e os seus aliados formaram uma aliança transatlântica de defesa mútua conhecida por Organização do Tratado do Atlântico Norte, ou OTAN (mais conhecida pela sigla inglesa NATO). No dia 4 de abril de 1949, os EUA, Canadá, Bélgica, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Portugal e o Reino Unido assinaram um tratado onde concordavam que “um ataque armado contra um ou mais destes países… era um ataque contra todos.”

 

A delegação soviética chega à Polónia para participar no encontro de maio de 1955 que culminaria no Pacto de Varsóvia, um acordo de defesa mútua entre oito países comunistas do Leste Europeu destinado a servir de contrapeso à NATO no Ocidente.

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A resposta da URSS envolveu a criação de uma aliança defensiva própria. Assinado em 1955, o Pacto de Varsóvia incluía a União Soviética e sete estados satélite, incluindo a Polónia e a Alemanha Oriental, reforçando a barreira ideológica e militar entre a Europa Oriental e Ocidental que Winston Churchill apelidou de “Cortina de Ferro” num discurso feito em 1946.

Quão perto esteve o mundo da guerra nuclear?

Enquanto ambos os lados se enfrentavam na Cortina de Ferro, os EUA e a URSS envolveram-se numa corrida às armas, gastando biliões de dólares em arsenais nucleares.

Os EUA tinham uma vantagem no início à corrida às armas. Mas assim que a URSS desenvolveu o seu próprio arsenal nuclear, os dois lados ficaram num impasse sobre a “destruição mutuamente garantida” – a ideia de que, se um dos lados atacasse, o outro retaliaria, desencadeando consequências apocalípticas para ambas as partes.

(Veja os antigos bunkers soviéticos escondidos sob a capital da Geórgia.)

Ambas as nações tinham defesas antimísseis apontadas uma à outra e, em 1962, a Crise dos Mísseis de Cuba deixou o mundo mais perto do precipício do que qualquer outro evento da Guerra Fria. Os EUA detetaram bases de mísseis e armas soviéticas em Cuba, que era comunista, a pouco mais de 140 quilómetros a sul da Flórida. Exigindo a remoção do armamento, o presidente John F. Kennedy declarou que um ataque ao território dos EUA desencadearia um ataque nuclear imediato à URSS.

Em 1962, o presidente dos EUA, John F. Kennedy, aqui na televisão de uma loja de eletrodomésticos, anuncia o bloqueio a Cuba durante a Crise dos Mísseis de Cuba, um momento decisivo na Guerra Fria – e o mais perto que o mundo esteve de uma guerra nuclear.

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A ameaça de uma guerra nuclear arrastou-se ao longo de duas semanas de negociações tensas. Eventualmente, a URSS concordou em desmantelar as suas instalações de armamento se os EUA prometessem não invadir Cuba. Nos bastidores, os EUA concordaram em remover as suas armas nucleares da Turquia; este acordo só foi tornado público em 1987.

Contudo, os arsenais nucleares em ambos os lados continuaram a aumentar exponencialmente. Estima-se que no final da década de 1980 os Estados Unidos tivessem cerca de 23.000 armas nucleares, ao passo que a União Soviética já tinha 39.000.

A Guerra Fria foi travada de outras formas?

Ao longo de mais de quatro décadas de Guerra Fria, os EUA e a União Soviética travaram várias guerras em todo o mundo. Na Guerra da Coreia, no Vietname e em outros conflitos armados, ambas as superpotências financiaram lados opostos ou lutaram diretamente contra milícias comunistas ou capitalistas. Ambos os lados financiaram revoluções, insurgências e assassinatos políticos na América Latina, África, Ásia e Médio Oriente.

Os EUA e a União Soviética também disputaram o domínio tecnológico numa corrida espacial que durou 20 anos. A União Soviética ficou em primeiro lugar com o lançamento do Sputnik-1 em 1957, o primeiro satélite artificial, enquanto os EUA foram os primeiros a enviar um homem à Lua em 1969. Só em meados da década de 1970 é que as duas nações começaram a cooperar em missões conjuntas.

Esquerda: Superior:

Após a década de 1950, os EUA e a URSS mergulharam profundamente numa corrida espacial, adicionando outra vertente à competição da Guerra Fria para estar militarmente em vantagem. Nesta imagem vemos o primeiro satélite Sputnik da União Soviética.

Fotografia por Mark Thiessen, Nat Geo Image Collection
Direita: Inferior:

Um astronauta norte-americano prepara uma experiência na lua.

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Como terminou a Guerra Fria?

Em meados da década de 1980, a vida atrás da Cortina de Ferro tinha mudado. As revoltas democráticas estavam a infiltrar-se nas nações do bloco soviético e a própria URSS lutava com o caos político e económico. Os EUA e a URSS forjaram uma relação mais aberta, chegando a intermediar um tratado nuclear em 1987 que eliminou uma classe de mísseis particularmente perigosos que eram lançados a partir do solo.

Em 1991, a União Soviética já tinha perdido a maior parte do seu bloco devido às revoluções democráticas, e o Pacto de Varsóvia foi formalmente dissolvido. Mikhail Gorbachev, o último líder da URSS, abriu o país ao Ocidente e instituiu reformas económicas que minaram as instituições que dependiam dos bens nacionalizados. Em dezembro de 1991, a URSS foi dissolvida em nações separadas.

O que significa tudo isto agora?

A URSS já desapareceu e os arsenais nucleares diminuíram drasticamente graças aos tratados de não proliferação entre Washington e Moscovo nas décadas de 1980 e 1990. Nas últimas décadas, os EUA e a Rússia cooperaram em várias questões globais, incluindo no Afeganistão e na guerra contra o terrorismo.

A Guerra Fria, porém, continua a afetar a geopolítica da atualidade. Ambas as nações mantêm interesses geopolíticos divergentes, enormes orçamentos para os departamentos de defesa e respetivas bases militares internacionais. A NATO continua a exercer poder político e já conta com 30 estados membros. Esta aliança estende-se agora até às fronteiras da Rússia e inclui antigos estados soviéticos e membros do Pacto de Varsóvia, como a Polónia e os Estados Bálticos. Desde a década de 1990 que a Rússia tem encarado a expansão da NATO para Leste como uma ameaça direta à sua segurança.

As tensões entre a Rússia e o Ocidente atingiram um novo ponto de ebulição após a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022. A Ucrânia tentou dar os primeiros passos para a aderir à NATO em 2008, mas o presidente eleito dois anos depois arquivou o processo. Alguns comentadores têm comparado a crise atual ao início de uma nova Guerra Fria.

Será que a Guerra Fria do século XXI já começou? Ainda não sabemos ao certo. Apesar de os historiadores afirmarem que as decisões tomadas em Potsdam prepararam o terreno para uma longa rivalidade após a Segunda Guerra Mundial, talvez só consigamos discernir o início de uma nova Guerra Fria quando esta já estiver claramente visível no espelho retrovisor da história.

Nota editorial: Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com no dia 22 de março de 2019 e foi agora atualizado.

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