Este médico aventura-se pelas montanhas a cavalo e a pé para fazer consultas ao domicílio

Médico de 80 anos é a única ajuda durante os invernos brutais nas montanhas do Cáucaso.

Irakli Khvedaguridze, de 80 anos, é o único médico licenciado numa área de quase 1.000 quilómetros quadrados de terras montanhosas na região de Tusheti, no nordeste da Geórgia. Nesta imagem, Irakli monta o seu cavalo branco, Bichola, através da aldeia de Omalo. Em pano de fundo está a clínica onde o médico obtém mantimentos médicos limitados.

Fotografia por TOMER IFRAH
Por Nadia Beard
Publicado 18/03/2022, 12:43

TUSHETI, GEÓRGIA – Durante o verão e o início do outono, antes de os mantos de neve cobrirem os picos das montanhas, Irakli Khvedaguridze desloca-se até aos seus pacientes montado no seu cavalo branco, Bichola. Mais tarde no ano, quando a neve fica demasiado elevada para o cavalo galopar, Irakli Khvedaguridze converte os seus sapatos em esquis recorrendo a um par de tábuas de bétula lixadas e pregadas com uma lona larga. Assim que a neve sobe acima da altura dos joelhos, Irakli só consegue viajar a pé.

Independentemente dos elementos naturais, Irakli nunca visita um paciente sem primeiro empacotar uma faca, uma caixa de fósforos, comida que dure pelo menos dois dias e uma espingarda de caça – juntamente com o estetoscópio e outros mantimentos médicos. Esta é a vida de um médico de 80 anos que vive nas montanhas.

Irakli Khvedaguridze conta com o seu cavalo, Bichola, para visitar pacientes e viajar pelas aldeias montanhosas de Tusheti, na Geórgia. Irakli é a única ajuda para a comunidade cada vez mais pequena de Tush, que permanece nesta área remota durante os oito meses de inverno.

Fotografia por TOMER IFRAH

“Sempre que saímos, independentemente da estação do ano e do tempo, sabemos que tudo pode acontecer”, diz Irakli, um homem musculado com olhos azuis claros e uma mecha de cabelo branco que se projeta de um boné de beisebol azul marinho que raramente tira. “Podemos cair de um penhasco, ferir alguma parte do corpo. Estamos na natureza selvagem.”

Uma vista de Bochorna, uma aldeia com uma dúzia de casas no alto do desfiladeiro de Gometsari, em Tusheti. No inverno, quase todos os Tush vão para as terras baixas.

Fotografia por TOMER IFRAH
Esquerda: Superior:

A neblina matinal paira sobre a aldeia de Omalo, em Tusheti, na Geórgia.

Direita: Inferior:

A neve cobre parte da terra na aldeia de Borchorna.

fotografias de TOMER IFRAH

Irakli Khvedaguridze, o único médico licenciado em quase 1.000 quilómetros quadrados de terras montanhosas de uma região histórica no nordeste da Geórgia, é a única assistência para a comunidade cada vez mais pequena de Tush, que permanece nesta área remota durante os oito meses de inverno.

Irakli Khvedaguridze cuida de um pastor, Rezo Partenishvili, que sofria de espasmos agonizantes nas costas, cólicas estomacais e outras dores. Irakli deu-lhe uma embalagem de comprimidos cor-de-rosa para tomar às refeições e uma injeção para aliviar as dores.

Fotografia por TOMER IFRAH

Há alguns anos atrás, um paciente embriagado na aldeia de Omalo teve de ser transportado de helicóptero para um hospital nas planícies de Kakheti, depois de ter baleado acidentalmente o próprio estômago com uma espingarda de caça. No início da década de 2000, Irakli Khvedaguridze também salvou a perna de um rapaz que pisou uma mina por detonar.

Esquerda: Superior:

Um paciente com intoxicação alcoólica é transportado de helicóptero para um hospital em Tbilisi, capital da Geórgia.

Direita: Inferior:

Irakli Khvedaguridze acompanha um paciente a bordo de um helicóptero a caminho do hospital.

fotografias de TOMER IFRAH

Mas geralmente o trabalho envolve doenças comuns: pastores com dores nas costas, idosos que sofrem de azia ou turistas que se envolvem em acidentes. Uma vez no verão, um visitante da República Checa foi atacado por cães pastores durante uma caminhada. Noutra vez, um americano adoeceu porque bebeu água de um riacho.

Irakli Khvedaguridze, no exterior da clínica em Omalo, prepara o seu cavalo para o caminho de regresso a casa, que fica a cerca de 10 quilómetros de distância, na aldeia de Bochorna.

Fotografia por TOMER IFRAH
Esquerda: Superior:

Uma vista do topo da montanha nos arredores da aldeia de Bochorna, em Tusheti, na Geórgia.

Direita: Inferior:

Em Tusheti, durante os dias mais frios de inverno, as temperaturas podem cair muito abaixo de zero.

fotografias de TOMER IFRAH

Irakli Khvedaguridze viaja pela região de Tusheti no seu cavalo, Bichola.

Fotografia por TOMER IFRAH

Em dezembro, enquanto visitava um amigo num vilarejo que fica num desfiladeiro pontilhado por algumas casas de madeira e um curral de ovelhas, Irakli recebeu uma chamada do 112 da Geórgia sobre um homem noutra aldeia que sofria de batimentos cardíacos acelerados e dores no peito. Irakli fez uma caminhada de 12 quilómetros para chegar ao paciente.

No dia seguinte, quando o helicóptero pousou nas pastagens cobertas de neve de Kvavlo, o paciente estava deitado no chão de barriga para cima. O homem alto e magro de 40 e poucos anos estava tão embriagado que as suas pernas até se dobraram quando foi carregado para o helicóptero para ser transportado para o hospital. Irakli Khvedaguridze também foi no helicóptero para monitorizar e escoltar o paciente até ao hospital. O paciente teve alta alguns dias depois e regressou para a sua aldeia. Mas em janeiro já estava de regresso ao hospital com outra intoxicação alcoólica.

A jornada do médico

Esquerda: Superior:

Durante uma consulta médica feita em agosto, Irakli Khvedaguridze atravessou a montanha para chegar à casa de um pastor doente.

Direita: Inferior:

Irakli Khvedaguridze observa as montanhas de Tusheti com binóculos. “O meu pai, o meu avô, todos os meus antepassados nasceram aqui”, diz Irakli. “Esta área pertencia-nos.”

fotografias de TOMER IFRAH

Em 1941, ano em que Irakli Khvedaguridze nasceu, a criação de ovelhas era a força vital de Tusheti. A transumância semestral — pastores que migram com o rebanho a pé para as pastagens das terras baixas no inverno e de regresso às terras altas para pastar na primavera — era apenas mais um evento no calendário da comunidade Tush.

Esquerda: Superior:

Irakli Khvedaguridze posa para um retrato. Este é o único médico licenciado em quase 1.000 quilómetros quadrados de terras montanhosas nesta região histórica no nordeste da Geórgia.

Direita: Inferior:

Irakli Khvedaguridze tem mantimentos médicos limitados – um estetoscópio, analgésicos, um kit de sutura e injeções para aliviar espasmos musculares – num estojo de primeiros socorros militar alemão com uma cruz vermelha que descreve a sua profissão como uma “mediação entre Deus e os doentes”.

fotografias de TOMER IFRAH

Atualmente, este evento assinala a partida de quase todo o povo Tush para as terras baixas para passar inverno, e eventual regresso quando o Desfiladeiro de Abano – composto por estradas estreitas e sinuosas à beira de um precipício – reabre na primavera.

Irakli Khvedaguridze vive em Bochorna, uma aldeia com uma dúzia de casas bem acima do desfiladeiro de Gometsari, em Tusheti. A sua casa de dois andares é feita de ardósia e madeira castanho-acinzentada, e tem vista para um vale aberto e verdejante. Na encosta íngreme mais abaixo, algumas casas com telhados enferrujados de metal pontilham os campos verdes juntamente com os vestígios de torres de pedra há muito destruídas.

Com o seu cavalo Bichola, Irakli Khvedaguridze desce um trajeto íngreme a caminho da casa de um paciente que fica a vários quilómetros de distância. Para poupar tempo, o médico opta por cavalgar através de caminhos sinuosos nas montanhas.

Fotografia por TOMER IFRAH

“O meu pai, o meu avô, todos os meus antepassados nasceram aqui”, diz Irakli. “Esta área pertencia-nos.”

Depois de se formar em 1970 no Instituto Médico da Geórgia (agora Universidade Médica do Estado de Tbilisi), Irakli Khvedaguridze conseguiu o seu primeiro emprego num hospital na região central da Geórgia. Em 1979, quando o médico anterior deixou as montanhas de Tusheti, Irakli fazia rotações de um mês na região algumas vezes por ano. Em 2009, Irakli deixou o seu emprego de neuropatologista num hospital em Alvani e, no ano seguinte, em vez de se reformar, assumiu o cargo permanente em Tusheti.

Irakli Khvedaguridze tem mantimentos médicos limitados – um estetoscópio, analgésicos, um kit de sutura e injeções para aliviar espasmos musculares – num estojo de primeiros socorros militar alemão com uma cruz vermelha que descreve a sua profissão como uma “mediação entre Deus e os doentes”.

“Para mim, não há noite ou dia. Se me chamarem para ajudar alguém, não importa as circunstâncias, se há chuva ou neve, se é dia ou noite, eu tenho de ir. Mesmo que eu tenha 90 anos, se houver pessoas que precisem de mim, eu irei ajudá-las. É o meu dever.”

Tratamentos de médico das montanhas

Elza Ivachidze, a vizinha de 59 anos de Irakli Khvedaguridze, está entre os seus pacientes. Quando Elza se queixou de falta de ar e dores no braço no verão passado, Irakli tratou os sintomas com analgésicos e uma injeção.

“Ele costuma administrar tratamentos antigos e tradicionais, incluindo chás de ervas e peras. Nem sempre são comprimidos e antibióticos”, diz Elza Ivachidze, acrescentando que se preocupa com o que vai acontecer quando Irakli Khvedaguridze partir. “Ele é a pessoa mais velha e sábia que temos. Quem é que o vai substituir?”

Durante outra excursão médica feita em agosto, Irakli Khvedaguridze selou o cavalo Bichola para atravessar as montanhas e chegar até à casa de um pastor, Rezo Partenishvili, que estava a sofrer espasmos agonizantes nas costas pelo terceiro dia consecutivo e não conseguia ficar de pé, muito menos passear as suas ovelhas pela montanha para pastar.

Uma hora depois, já a descer, Irakli desmontou do cavalo, mas o rosnar de três cães pastores do Cáucaso rapidamente o alertaram de que estava perto do seu destino. Com a velocidade de uma pessoa com um quarto da sua idade, Irakli atirou-se para o chão para apanhar algumas pedras para afugentar os cães, mas não precisou de as atirar.

No curral das ovelhas, Rezo Partenishvili, de 39 anos, estava deitado em cima de cobertores de lã dobrados, conhecidos por nabadi. Rezo é um de cinco pastores que pastam o rebanho do outro lado da montanha. Mas nenhum dos outros pastores parecia muito preocupado. As dores nas costas, segundo dizem, é a doença mais comum entre os pastores. Nesta época do ano, os pastores passam os dias curvados a tosquiar ovelhas.

Para além dos espasmos nas costas, Rezo Partenishvili também sofria de cólicas estomacais, diarreia e ciática crónica. Irakli Khvedaguridze receitou-lhe uma embalagem de comprimidos cor-de-rosa para tomar às refeições, e depois retirou uma injeção com um líquido vermelho da sua bolsa, indometacina, para aliviar as dores. Rezo Partenishvili murmurou que não queria.

“A sério? Estás a dizer que tens medo de uma coisa tão pequena?” ironizou Irakli, enquanto recordava a Rezo Partenishvili que a outra opção era ficar um mês de cama sem poder trabalhar. Rezo virou-se, baixou as calças e levou a injeção.

Enquanto o médico se preparava para regressar a casa, um pastor que estava sentado tranquilamente ali perto a fumar um cigarro começou a queixar-se de falta de ar. “Então tire esse cigarro da boca!” respondeu Irakli. O pastor riu, mas obedeceu, e atirou o que restava do cigarro para a fogueira que tinha à sua frente.

Futuro incerto

No final do ano passado, com a estrada encerrada há dois meses, o local de nascimento deste médico das montanhas estava quase sem pessoas e animais. A transumância de outubro deixou a região sem a maioria das suas ovelhas e pastores. Via-se apenas um pequeno rebanho a pastar numa colina distante e um antigo jipe a deitar fumo antes de desaparecer ao longe.

A chegada da neve revela rapidamente a precariedade das infraestruturas de Tusheti. Qualquer movimento exige uma força física sustentada. Ir buscar água a uma torneira ou à fonte mais próxima pode demorar metade da uma manhã. Sem acesso a combustível, as viagens de carro são racionadas. Os helicópteros militares são usados para entregar comida e outras necessidades. Os familiares nas terras baixas preparam cabazes para os soldados entregarem aos seus familiares nas montanhas.

O isolamento pode dar origem à solidão. “Às vezes ouço um lobo ao longe”, diz Irakli. “É assim que eu sei que há vida algures.”

Era possível ter uma vida mais fácil noutro lugar, mas deixar Tusheti cortaria a ligação que Irakli Khvedaguridze tem com a terra dos seus antepassados – e com os seus pacientes.

Apesar de toda a sua devoção, eventualmente chegará o dia em que Irakli não irá conseguir lidar com as exigências do local. “Vou-me embora”, diz Irakli. “Mas não sei se o médico seguinte vai arriscar a vida por isto.”

Nadia Beard é uma jornalista e pianista sediada em Tbilisi. Siga-a em @nadiawbeard.
Tomer Ifrah, nascido em Israel, é fotógrafo documental. Na última década, Tomer Ifrah tem trabalhado em países pós-soviéticos, bem como no Brasil e Israel em projetos documentais independentes e trabalhos para várias publicações internacionais. Descubra mais sobre o trabalho de Tomer Ifrah no seu site.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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