Guerra e racismo: migrantes que fogem da Ucrânia são selecionados nas fronteiras europeias

Os casos de discriminação vêm juntar-se à violência da invasão russa em terras ucranianas. Grupos de cidadãos estão a organizar-se para ajudar os milhões de refugiados em fuga.

Por margot hinry
Publicado 17/03/2022, 14:46
Amoakohene Ababio Williams e a sua esposa, Sattennik Airapetryan

Amoakohene Ababio Williams, de 26 anos, originário do Gana, diz que foi separado da sua esposa ucraniana, Sattennik Airapetryan, de 27 anos, e do filho de um ano, Kyle Richard, juntamente com outros homens negros, pouco antes de chegar à fronteira polaca, depois de fugir de Odessa. “Eu fiquei a pensar que acabava ali. Talvez não a visse novamente.” Mas Amoakohene Williams conseguiu escapar.

Fotografia por ANASTASIA TAYLOR-LIND E DAVIDE MONTELEONE

Para os ucranianos, as últimas semanas têm sido traumáticas, tanto física como psicologicamente. Até agora, as Nações Unidas contabilizaram mais de 2.8 milhões de refugiados que tentam escapar dos bombardeamentos russos, deixando para trás uma vida inteira. Muitos destes refugiados vêm de países de todo o mundo. Muitos são estudantes que vieram de África, Índia ou Norte de África... mas desde os primeiros ataques em solo ucraniano, os testemunhos de discriminação nas fronteiras têm-se multiplicado.

“Foi um pesadelo”; “as autoridades estavam a selecionar-nos”; ou “mandam-nos embora porque somos negros” são os depoimentos de estudantes estrangeiros que repudiam um tratamento diferente e desrespeitoso enquanto tentam fugir da guerra.

“Eles deixam os ucranianos passar primeiro e depois o resto. Ouvimos falar de tratamentos diferentes, algumas pessoas até dizem que foram espancadas, mas não estamos no local para o confirmar”, explica Sarah Bourial, uma jovem marroquina que fundou o coletivo de cidadãos Collectif Maroc Ukraine para ajudar os marroquinos ainda retidos na Ucrânia.

Há vários vídeos publicados nas redes sociais que mostram centenas de estudantes negros, árabes e indianos a suportar o frio na Ucrânia durante várias horas, na esperança de deixar finalmente o país e entrar nos países limítrofes.

Sarah Bourial esclarece o contexto destas discriminações. “Existe uma nuance. Algumas pessoas dizem que não foram necessariamente os soldados ucranianos que não as deixaram sair do país. Quando chegam aos postos fronteiriços, há um posto fronteiriço para sair da Ucrânia e depois outro posto para entrar na Polónia. Alguns estudantes dizem que foram impedidos de entrar na Polónia.”

A National Geographic entrou em contacto com Céline Schmitt, oficial de relações externas do Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), um órgão intergovernamental das Nações Unidas que é responsável por fortalecer a promoção e proteção dos direitos humanos em todo o mundo e abordar situações de violações dos direitos humanos, incluindo recomendações sobre os mesmos, para perceber se as autoridades europeias estão a intervir para prevenir estes atos racistas. “Um só caso de discriminação, de racismo, é um caso a mais”, diz Céline Schmitt. “Temos levantado alertas em várias ocasiões, para garantir um acesso à segurança a todos os que tentam fugir da guerra na Ucrânia. Insistimos que não deve haver discriminação contra qualquer pessoa ou grupo.”

A representante do ACNUR referia-se às palavras proferidas pelo Alto Comissário das Nações Unidas, Filippo Grandi, no dia 8 de março. “Em relação aos relatos de discriminação inaceitável de pessoas que fogem da Ucrânia, levantei as minhas preocupações com as autoridades relevantes, pois qualquer ato de discriminação ou racismo deve ser condenado e todas as pessoas devem ser protegidas. Todas as autoridades concordaram plenamente e deram garantias, ao mais alto nível governamental, bem como ao nível local, que os estados não estão e não irão discriminar ou rejeitar pessoas que fogem da Ucrânia.”

“O ACNUR foi alertado para situações de pessoas com dificuldades na fronteira entre a Ucrânia e a Polónia e apelamos ao acesso à segurança para todos, independentemente do seu estatuto legal, nacionalidade ou origem”, afirma Céline Schmitt.

Sarah Bourial diz que não está surpreendida com os casos de discriminação e racismo que estão a surgir nas fronteiras, sobretudo devido ao caos. “Como deve saber, em circunstâncias normais, um marroquino não tem direito de aceder ao espaço Schengen sem um visto. E a Ucrânia não faz parte da Europa, nem do espaço Schengen. Portanto, se formos um residente ucraniano, não estamos autorizados a viajar para a União Europeia.”

Segundo Sarah Bourial, a discriminação racial nas fronteiras está intimamente relacionada com questões legais. “Um ucraniano recebeu recentemente o direito de passar 90 dias em turismo na Europa e sem visto. Isto não acontece com um marroquino, um indiano ou um africano. Precisamos de um visto. [...] porém, continuamos em tempo de guerra e um bombardeamento é um bombardeamento. Não devia haver diferença.”

“As embaixadas marroquinas nos países fronteiriços têm atuado sobre as questões de discriminação, e enviaram autocarros para as fronteiras. Na Eslováquia, o próprio embaixador marroquino deslocou-se às fronteiras para garantir o bom acolhimento dos marroquinos”, acrescenta Sarah Bourial.

Embaixadas e cidadãos de mãos dadas

“Estamos muito longe, como é que os podemos ajudar?”, é a questão para a qual este coletivo de cidadãos marroquinos tenta encontrar respostas. “Organizámo-nos nos países fronteiriços. Tentámos reunir pequenas comunidades de marroquinos na Hungria, Polónia, Eslováquia e Roménia. Ao início, queríamos abrigá-los, mas dei por mim em contacto com as embaixadas. Tornámo-nos num elo de ligação para as embaixadas, para facilitar as chegadas. As embaixadas ficaram encarregadas de reservar os hotéis para os refugiados, enquanto estes aguardam por um voo de regresso a Marrocos”, explica Sarah Bourial.

“Cumpri o meu dever enquanto cidadã”, diz a jovem marroquina, que vive em Paris. No dia seguinte ao primeiro ataque russo, estes voluntários uniram forças para criar uma plataforma online, a referida Collectif Maroc Ukraine. E têm fornecido medicamentos, alimentos, água, apoio psicológico e por vezes até apoio financeiro. “Estas pessoas estavam numa grande aflição. Tiveram de abandonar tudo de um dia para o outro. Até contactámos psicólogos voluntários que foram lá para os ouvir. Alguns estudantes explicaram-nos que as suas universidades tinham sido bombardeadas e que faltavam apenas três meses para se tornarem médicos”, diz Sarah Bourial.

“Isto começou com a ideia de que, enquanto eles estivessem na Ucrânia, não conseguíamos fazer nada. [...] Acabámos por ser um meio para chamar um táxi, explicar os horários dos comboios, dar notícias vindas das embaixadas. Intervimos para eles fazerem a travessia e ajudámo-los depois de atravessarem a fronteira: eles precisam de alojamento e de comer. Alguns deles nem tinham passaporte! E também agimos como um elo de ligação com as embaixadas para as passagens.”

Os voluntários de países vizinhos ofereceram transportes das estações de comboio para os hotéis. “Também tínhamos questões médicas. Tivemos um caso de uma pessoa que precisava de insulina, e outro de uma pessoa com hemofilia que se tinha magoado e precisava de assistência. Neste último caso, entrámos em contacto com as ONG locais. Muitas das pessoas também estavam em sofrimento por terem caminhado muito.”

Sarah Bourial diz que no WhatsApp, Telegram e Instagram existem muitos grupos de ligação aos refugiados, grupos que estabelecem ligação com famílias, ONG e embaixadas. No seu site, as pessoas têm dois formulários à disposição, “um para os voluntários e outro para quem precisa de ajuda”. Graças às ações de influenciadores e algumas pessoas conhecidas nas fronteiras, “conseguimos um contacto, e com esse contacto vieram 15 pessoas. [Ao início], ainda os estávamos a contar, mas depois vieram tantos que perdemos a conta”.

“As coisas estabilizaram um pouco nos últimos dias, mas na semana passada, durante três dias seguidos, não desliguei o telefone nem dormi. Os voluntários fizeram um trabalho fabuloso: durante a noite, iam procurar as pessoas e levavam-nas para os hotéis...”

Embora a maioria dos refugiados marroquinos que deseja sair da Ucrânia já o tenha feito, ainda há muitas migrações. Alguns ucranianos e pessoas de outras nacionalidades ainda continuam retidos em cidades sitiadas pelos russos, como a cidade de Mariupol, que está isolada do resto do mundo.

De acordo com as Nações Unidas, “as agências humanitárias sublinham a necessidade urgente de fornecer comida, água, abrigo e necessidades básicas, sobretudo para as pessoas retidas em cidades sob hostilidades ativas”. Se quiser ajudar, existem várias organizações que recebem doações financeiras ou materiais, ou que acolhem refugiados. Verifique localmente como pode ajudar.
 

Este artigo foi publicado originalmente em francês no site nationalgeographic.fr

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