REFUGIADOS UCRANIANOS PARTILHAM AS SUAS HISTÓRIAS ANGUSTIANTES

Por National Geographic
Publicado 23/03/2022, 17:42 , Atualizado 24/03/2022, 08:01

De um momento para o outro, perderam os lares e as suas famílias foram destroçadas. Procurando segurança na Polónia, milhares de refugiados enfrentam agora o que se segue.

FOTOGRAFIAS POR Anastasia Taylor-Lind | Davide Monteleone
VÍDEO POR Alice Aedy | Davide Monteleone | Manuel Montesano
TEXTO POR Eve Conant

REFUGIADOS UCRANIANOS PARTILHAM AS SUAS HISTÓRIAS ANGUSTIANTES

Acordar ao som de explosões. A pressa para encontrar um passaporte. Uma viagem angustiante de comboio na escuridão para fugir das forças russas. A esperança de encontrar um “cantinho quente” de abrigo. A história de cada refugiado está repleta de tristeza, uma angústia partilhada que se torna impossível de evitar quando, no espaço de poucos dias, mais de um milhão de pessoas são forçadas a fugir das suas casas e a enfrentar experiências complicadas nas fronteiras da Europa Oriental.

Irina Lopuga é uma das refugiadas que esteve dois dias presa no trânsito, num estado de pânico silencioso, enquanto avançava lentamente em direção à cidade fronteiriça polaca de Przemyśl. Irina Lopuga e o marido tiveram bastante tempo para conversar, mas não falaram sobre os sonhos que tinham em comprar casa ou visitar o Egito, falaram sobre sobrevivência. “Falámos sobre a forma como o mundo inteiro está a ficar do avesso.”

Assim que chegaram à fronteira, estava na hora de se separarem. Os homens ucranianos com idades entre os 18 e os 60 anos receberam ordens para ficar em casa e ajudar a resistência, acompanhados por mulheres que pegam em armas pela primeira vez e pequenos exércitos de civis que preparam biscoitos – e cocktails molotov. O marido ficou a ajudar a preparar a igreja local para acolher os refugiados vindos de Kiev. Pouco antes de o meu marido sair, diz Irina, “ele virou-se e começou a chorar”.

E depois Irina, as crianças e o cão – fugiram todos.

E agora fazem parte de uma das maiores vagas de refugiados em décadas que tentam encontrar o seu próprio cantinho quente numa Europa indignada e no limite das suas preocupações. Receando pela sua própria segurança, os europeus têm acolhido os indivíduos que compõem este vasto êxodo, alguns deles eram visitantes internacionais na Ucrânia, outros são sobreviventes de conflitos de vários anos com os separatistas apoiados pela Rússia no leste, e a maioria está separada das suas famílias, porém, até agora, mantém um espírito intacto.

 

A DECISÃO

Vozes da fronteira: Irina Lopuga, Ludmyla Tkachenko, Nelya Tkachenko, Blessing Oyeleke e Iryna Novikova
Esta é a segunda vez que Lidiya Ivanenko, com o filho Myron ao colo, foge da sua terra. A primeira vez foi em 2014, quando um conflito com separatistas apoiados pela Rússia eclodiu perto da sua cidade natal, Luhansk, no leste da Ucrânia. “Depois de nos mudamos para a região de Kiev, não pensei que esta guerra nos alcançasse.”
Anna Bianova, de 34 anos, posa com o filho Maksym e o sobrinho Myhaylo Bianov (ambos com 11 anos), enquanto a sogra Lyudmyla Shevchuk, de 71 anos, segura no seu cão Archie. Anna Bianova, de Vinnytsia, achava que a guerra era uma coisa inimaginável das gerações anteriores — não da sua geração. “É sequer possível termos uma guerra como esta no século XXI?”

“ É muito difícil deixar o nosso marido em casa. Temos de escolher. Salvar as crianças ou ficar com ele.” ”

NELYA TKACHENKO

Refugiados ucranianos tentam encontrar alguma normalidade na sua tenda, no ponto de receção para refugiados em Medyka, na Polónia, enquanto aguardam passagem para outros destinos na Europa.

Fotografia por Davide Monteleone

A FUGA

Vozes da fronteira: Anna Bianova e Irina Lopuga

“ Havia cerca de um milhão de pessoas, a estação estava tão apinhada que nem nos conseguíamos mexer. Foi um terror. As lágrimas pareciam granizo.” ”

ANNA BIANOVA
Esquerda: Superior:

Valentyna Turchyn posa para um retrato com a mãe (também chamada Valentyna Turchyn) e as suas três filhas: Maya, de cinco anos, com um casaco rosa, Tanya, de sete, e Galyna, de 16 anos. Elas estão todas juntas devido ao frio num abrigo na Polónia, depois de fugirem da sua cidade natal de Cherkasy, na Ucrânia.

Direita: Inferior:

Ludmyla Kuchebko, de 72 anos, natural de Zhytomyr, fugiu das sirenes dos ataques aéreos, mas preocupa-se com o filho que está em Kiev. “Estou à procura de Deus para salvar não apenas o meu filho, mas a Ucrânia”, diz Ludmyla, que ora por cada passageiro em cada comboio. “Hoje oramos não apenas pela Ucrânia – oramos pela Rússia, pelos nossos irmãos e irmãs que estão ali.”

fotografias de Anastasia Taylor-Lind

Uma cama improvisada ao ar livre num centro de receção de refugiados, perto da travessia de Medyka, entre a fronteira polaco-ucraniana, nos arredores de Przemyśl, na Polónia.

Fotografia por Davide Monteleone

A GUERRA

Vozes da fronteira: Lidiya Ivanenko, Ludmyla Tkachenko, Nelya Tkachenko e Anna Bianova
Blessing Oyeleke, de 25 anos, estudante de medicina e uma de milhares de estudantes africanos no país, fugiu da cidade de Ternopil. Blessing Oyeleke sentiu na pele o caos e o racismo durante a tentativa de escapar, mas nos cinco anos que passou no país, Blessing diz: “Vir para a Ucrânia foi como um sonho para mim.”
As irmãs Ludmyla e Nelya Tkachenko, de 35 e 41 anos, de Kiev, estão preocupadas com os filhos com quem atravessaram a fronteira para a Polónia, mas também tentam conter as lágrimas quando pensam nos seus maridos e familiares que ainda estão na Ucrânia. Nelya Tkachenko diz que “não estou aqui nem lá. Deixei metade do meu coração para trás, mas trouxe metade comigo”.

“ Foi muito assustador quando rebentaram as primeiras bombas.” ”

LUDMYLA TKACHENKO

Uma pilha de calçado recolhido por voluntários está pronta para ser distribuída aos refugiados vindos da Ucrânia que entram na Polónia perto de Przemyśl.

Fotografia por Davide Monteleone

A PERDA

Vozes da fronteira: Ludmyla Kuchebko, Iryna Novikova, Ludmyla Tkachenko e Nelya Tkachenko

“ Nascemos na Ucrânia e amamos a nossa pátria. É um país lindo. Deus deu-lhe tudo: florestas, campos... os meus preciosos campos.” ”

LUDMYLA KUCHEBKO
Esquerda: Superior:

 

Iryna Butenko, de 33 anos, e a filha Kateryna Falchenko, de oito, fugiram de Kharkiv em pânico. Quando finalmente apareceu um comboio, diz Iryna, “corremos enquanto eles disparavam nas nossas costas”. Iryna Butenko já não quer regressar, nunca mais. A filha sente-se segura agora: “Ninguém está a disparar ou a ameaçar-nos. A minha mãe está sempre perto de mim.”

Direita: Inferior:

Iryna Kuzmenko, de 41 anos, e a filha Arianda Shchepina, de 11, naturais da cidade de Zaporizhzhia, partilham um momento de silêncio no exterior da Escola Secundária Juliusza Slowackiego, em Przemyśl, na Polónia, onde os refugiados têm procurado abrigo e apoio.

fotografias de Anastasia Taylor-Lind

Um refugiado exausto procura um momento de descanso em Medyka, na Polónia, perto da fronteira com a Ucrânia, onde já atravessaram cerca de 100.000 refugiados.

Fotografia por Davide Monteleone

O FUTURO

Vozes da fronteira: Iryna Butenko, Ludmyla Tkachenko, Nelya Tkachenko, Blessing Oyeleke, Lidiya Ivanenko e Irina Lopuga

“ Não precisamos de muito. Basta um cantinho quente.” ”

LIDIYA IVANENKO
Esquerda: Superior:

Iryna Novikova, de 42 anos, saiu de Kiev com a filha num piscar de olhos – sem trocar de roupa, escovar os dentes ou tomar banho. “Em momentos como estes, não precisamos de nada disso. Não sei como é que consegui correr; as minhas pernas simplesmente carregaram-me.” A filha de Iryna tinha-lhe dito que o ataque estava a chegar, “mas eu simplesmente não conseguia acreditar”.

Direita: Inferior:

Amoakohene Ababio Williams, de 26 anos, natural do Gana, diz que depois de fugir de Odessa foi separado da sua esposa ucraniana, Sattennik Airapetryan, de 27 anos, e do seu filho de um ano, Kyle Richard, juntamente com outros homens negros, pouco antes de chegar à fronteira polaca. “Fiquei a pensar que acabava ali. Talvez já não a visse novamente.” Mas Amoakohene Williams conseguiu escapar.

fotografias de Anastasia Taylor-Lind

Anastasia Taylor-Lind é fotógrafa da National Geographic, bolseira TED e bolseira Harvard Nieman 2016. Anastasia cobre questões relacionadas com mulheres, população e guerra.

Alice Aedy é fotógrafa documental e cineasta cujo trabalho visa questões de justiça social, incluindo migração forçada, justiça climática e histórias sobre mulheres.

Davide Monteleone é fotógrafo, artista visual e explorador da National Geographic com um interesse particular em países pós-soviéticos. A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho de Davide Monteleone. Descubra mais no seu site.

Petro Halaburda, estudante ucraniano de produção cinematográfica sediado em Varsóvia, na Polónia, ajudou no trabalho de campo e tradução.

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