Eu conhecia os homens assassinados na Amazónia – e o alegado assassino

Os assassinatos de Dom Phillips e Bruno Pereira marcam uma nova escalada na batalha pela Amazónia, pelos seus recursos e pela defesa dos indígenas.

Por Scott Wallace
Publicado 1/07/2022, 11:55
batedor

Um batedor procura pistas sobre o paradeiro do jornalista Dom Phillips e do ativista dos direitos indígenas Bruno Pereira. Os líderes indígenas foram os primeiros a soar o alarme quando os dois homens desapareceram nas profundezas da Amazónia brasileira no dia 5 de junho.

Fotografia por Joao Laet, Getty Images

Os assassinatos brutais de um jornalista britânico e um ativista dos direitos indígenas no mês passado na Amazónia atingiram-me de forma pessoal. Eu conhecia ambos; conheço a comunidade e o trecho do rio onde ocorreram os assassinatos. O mais estranho de tudo, conheço o assassino confesso. O seu nome surgiu entre os suspeitos poucos dias após o desaparecimento dos dois homens no dia 5 de junho no Vale do Javari, uma vasta região selvagem de floresta tropical e rios serpenteantes ao longo das fronteiras do Brasil com o Peru e a Colômbia.

Dom Phillips, de 57 anos, tinha feito uma pausa nos seus trabalhos para o jornal The Guardian, para trabalhar num livro sobre a Amazónia, e comparámos notas em várias ocasiões sobre as nossas experiências na floresta tropical, partilhando informações e contactos. Bruno Pereira, de 41 anos, era um ativista dos direitos indígenas que dedicou a sua vida a defender as populações mais vulneráveis do Brasil. Bruno era um guerreiro relutante — generoso e atencioso, pai de três filhos, incluindo dois bebés.

Agentes do departamento de polícia da Atalaia do Norte, no rio Javari, investigam o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira, depois de os apelos feitos pelo mundo inteiro terem obrigado as autoridades brasileiras a intensificar os esforços de busca.

Fotografia por Victor Moriyama, The New York Times, Redux

Bruno Pereira foi uma fonte valiosa para muitos dos artigos que eu escrevi para a National Geographic. Por vezes, eu identificava-o pelo nome nos artigos. Mas na maioria das vezes não o fazia, para o proteger dos chefes hostis que assumiram o controlo da FUNAI, a agência de assuntos indígenas do Brasil, em 2019, no início da presidência do populista de direita Jair Bolsonaro. Bruno Pereira era um agente veterano de campo com experiência na proteção de tribos isoladas, mas ficou ainda mais cauteloso quando Bolsonaro chegou à presidência, que desde o início fez da exploração das terras indígenas e do meio ambiente uma peça central da sua agenda política.

Esquerda: Superior:

O jornalista Dom Phillips a trabalhar na Amazónia brasileira em 2019.

Fotografia por Joao Laet, Getty Images
Direita: Fundo:

Bruno Pereira (com o caderno), defensor dos direitos indígenas, faz investigação no Vale do Javari, que abriga a maior concentração de tribos isoladas do mundo.

Fotografia por Gary Calton, eyevine, Redux

O assassino confesso de Dom Phillips e Bruno Pereira é um pescador magricela de 41 anos chamado Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido por todos pelo apelido de Pelado. Assim que eu ouvi o seu nome nas notícias, tive a certeza de que era a mesma pessoa que conheci há 20 anos. Amarildo Oliveira era um homem habilidoso que conseguia atirar um machado com precisão para um tronco, a poucos centímetros dos seus pés descalços, sem sequer vacilar. Em 2002, Amarildo estava entre a dezena de homens fronteiriços não indígenas que foram recrutados – juntamente com vinte batedores indígenas de três tribos diferentes – para participar numa expedição do governo brasileiro ao coração da extensa Terra Indígena do Vale do Javari. A missão era rastrear, mas não estabelecer contacto com uma tribo misteriosa e raramente avistada, os chamados Flecheiros.

Esta expedição foi liderada pelo conhecido ativista dos direitos indígenas e explorador Sydney Possuelo, fundador e então diretor do Departamento de Índios Isolados da FUNAI. No final da década de 1980, Sydney Possuelo foi pioneiro na política extraordinária de não contacto do Brasil, para proteger as tribos isoladas e altamente vulneráveis dos contactos forçados com pessoas vindas de fora. Em 1996, Sydney foi fundamental na criação da reserva do Javari, com 85.445 quilómetros quadrados, um tesouro ecológico e cultural de floresta primitiva que abriga a maior concentração mundial de comunidades indígenas que vivem em isolamento extremo, as chamadas tribos “isoladas”. Sydney Possuelo convidou o fotógrafo Nicolas Reynard e eu para documentarmos a expedição para a National Geographic.

No final da década de 1990, quando a reserva foi criada, Sydney Possuelo supervisionou a expulsão de centenas de mineiros de ouro, madeireiros, caçadores e pescadores não indígenas que se serviam da abundância de madeira, peixe e vida selvagem da região. Alguns foram realojados numa série de comunidades de barracas de madeira construídas sobre palafitas e unidas por passadiços, logo a jusante do rio Itacuaí, nos limites da reserva. Entre os colonos de uma destas aldeias estava a família de Amarildo Oliveira. Muitas das famílias deslocadas sentiam ressentimento pela criação da reserva Javari, pelos indígenas e seus defensores.

A Polícia Federal prendeu inicialmente Amarildo da Costa de Oliveira devido a acusações de porte de arma. O pescador confessou mais tarde ter matado e desmembrado Bruno Pereira e Dom Phillips.

Fotografia por Marcelo Correia, Camera Press, Redux

Como é aquele homem afável de 21 anos que eu recordava de 2002, um pioneiro na exploração da selva, se transformou num criminoso que, de acordo com testemunhas, caçava ilegalmente grandes quantidades de peixe e outros animais, ou participava em ataques armados a postos avançados do governo? Será que Amarildo se tornou no homem do gatilho numa guerra cada vez maior pela Amazónia, pelos seus recursos e contra os defensores indígenas? (As autoridades brasileiras dizem que há outros dois suspeitos detidos com ligações aos assassinatos e procuram mais cinco possíveis cúmplices do crime.)

Regressando aos meus cadernos de anotações de há vinte anos, encontrei vestígios de um lado mais sombrio de Amarildo Oliveira. Na semana anterior ao início da referida expedição, numa noite à volta fogueira, Amarildo disse-me que ele e outros dois pescadores tinham sido agredidos por bandidos mascarados enquanto atravessavam um furo – um dos vários atalhos entre as curvas dos rios da região que se abrem na época das cheias. Os assaltantes roubaram os motores dos barcos, as caçadeiras de Amarildo e dos outros pescadores e 200 quilos de peixe. Amarildo Oliveira disse que ele e os seus amigos pagaram à polícia local para encontrar os culpados e “parti-los”. Perguntei o que ele queria dizer com aquela expressão. “Matá-los.” A presença de outros polícias no momento da detenção foi a única coisa que salvou a vida dos bandidos, disse Amarildo. Foi precisamente num destes atalhos estreitos no rio Itacuaí que Amarildo Oliveira e pelo menos outro cúmplice emboscaram e assassinaram Bruno Pereira e Dom Phillips.

Os impactos da proteção vacilante do governo

Os especialistas dizem que nos últimos anos o Javari tem vindo a tornar-se num lugar ainda mais perigoso, sobretudo para os indígenas e defensores do ambiente. A maior razão, segundo os peritos, é a retórica e as políticas anti-indígenas e anti-ambientais de Bolsonaro. Tudo isto tem incentivado um aumento na desflorestação e na invasão de territórios indígenas por parte de agricultores, madeireiros, mineiros e aventureiros de todos os tipos, ao mesmo tempo que abrem espaço para os sindicatos do crime organizado operarem impunes em amplas áreas da Amazónia.

Os restos mortais recuperados de Dom Phillips e Bruno Pereira chegam a um hangar da polícia em Brasília, capital do Brasil, no dia 16 de junho.

Fotografia por Andressa Anholete, Getty Images

Membros do povo indígena Xukuru cantam uma oração em homenagem a Bruno Pereira durante o seu funeral em Paulista, no Brasil, no dia 24 de junho.

Fotografia por Brenda Alcantara, AFP, Getty Images

“Hoje, os invasores das terras indígenas têm a proteção do governo, uma proteção que se estende até Bolsonaro”, diz Sydney Possuelo, que atualmente está reformado e vive em Brasília. “Eles atuam de forma mais ousada e comportam-se de forma mais agressiva porque sentem-se protegidos pelo governo.”

Com Bolsonaro aos comandos do Brasil, os orçamentos da FUNAI e do órgão de proteção ambiental IBAMA encolheram. Os trabalhadores de campo mais experientes foram transferidos ou demitidos e substituídos por partidários políticos. Assim que Marcelo Augusto Xavier da Silva, indicado por Bolsonaro, assumiu o cargo da presidência da FUNAI em 2019, demitiu imediatamente 15 coordenadores de campo sem qualquer aviso prévio. Talvez ainda mais sinistro, Marcelo da Silva tirou Bruno Pereira do comando do Departamento de Índios Isolados, onde este tinha trabalhado nos 14 meses anteriores. Nos dias antes de ser demitido, Bruno Pereira supervisionou um ataque helitransportado juntamente com o IBAMA, a polícia federal e unidades do exército que destruiu dezenas de dragas de mineração de ouro que operavam ilegalmente ao longo do flanco leste do rio Javari. Esta operação fez com que Bruno Pereira criasse inimizades com algumas pessoas poderosas e perigosas. E foi o último grande ataque aos criminosos que pilham recursos na reserva do Javari.

As perguntas enviadas à direção da FUNAI sobre os assassinatos ocorridos recentemente – bem como sobre os esforços vacilantes da agência na proteção da reserva do Javari e de outros territórios indígenas – ficaram sem resposta.

Após ser afastado do seu cargo sensível, Bruno Pereira tirou uma licença sem vencimento da FUNAI e regressou à reserva do Javari. Na década de 2010, Bruno passou vários anos na região, onde adquiriu um profundo conhecimento sobre as tribos isoladas e a melhor forma de as proteger. Como a capacidade e a vontade da FUNAI nos seus esforços de proteção pareciam estar a desvanecer, Bruno Pereira voluntariou-se para organizar e treinar uma força de vigilância territorial completamente indígena, para impedir as incursões dos invasores. Bruno mostrou aos membros das patrulhas como deviam organizar a logística e ensinou-os a usar fotografias e vídeos georreferenciados, a comunicar por rádio e a pilotar drones. Bruno Pereira convidou Dom Phillips para visitar a reserva do Javari para documentar o seu trabalho e conhecer os membros da patrulha indígena de vigilância. Enquanto estavam na selva com a equipa, no dia 3 de junho, tiveram um confronto com Amarildo Oliveira e outros dois pescadores.

Membros da marinha patrulham o remoto rio Itacuaí, no Vale do Javari, durante a operação de busca por Dom Phillips e Bruno Pereira.

Fotografia por Edmar Barros, AP

Segundo testemunhas da equipa indígena de vigilância, os pescadores gritaram e apontaram as espingardas de forma ameaçadora a Bruno Pereira e Dom Phillips, que registaram o confronto em vídeo. Estas imagens fazem parte de uma série de provas recolhidas pelas patrulhas indígenas, provas de crimes ambientais cometidos dentro da reserva que Bruno Pereira planeava entregar à Polícia Federal no dia em que desapareceu.

“Claro, é perigoso. As nossas equipas estão no terreno a enfrentar os invasores”, disse Paulo Marubo, coordenador-geral da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, ou UNIVAJA, quando falei com ele ao telefone na semana passada. Paulo Marubo estava no seu escritório em Atalaia do Norte, no rio Javari. “É um risco, mas se não fizermos nada, se não enfrentarmos isto, quem é que o vai fazer por nós?”

Há três anos, Maxciel Pereira dos Santos, colaborador da FUNAI, foi assassinado em plena luz do dia por motociclistas na cidade vizinha de Tabatinga, localizada no ramo principal do rio Amazonas. Maxciel Santos era conhecido por ter vários desentendimentos com pescadores e caçadores de animais selvagens na reserva do Javari. Pouco antes de ser assassinado, Maxciel fez parte de uma equipa que apanhou caçadores em flagrante no interior da reserva com 300 tartarugas e 40.000 ovos de tartaruga. O assassinato de Maxciel Santos nunca foi resolvido.

Com os assassinatos mais recentes, os líderes indígenas tiveram a noção de uma tendência preocupante na luta pela preservação das suas terras e recursos. “O nível de violência contra Maxciel e a forma como mataram Bruno e Dom Phillips mostra que existe um ódio real direcionado aos defensores do ambiente e aos indígenas”, disse Paulo Marubo, representante nacional da UNIVAJA, que saiu da Atalaia na semana passada rumo a Brasília devido às repetidas ameaças de morte. “Acreditamos que há uma forte ligação entre o que aconteceu a Maxciel, o que aconteceu a Bruno e as invasões da Terra Indígena do Vale do Javari.”

Ligações suspeitas ao crime organizado

Os intrusos são cada vez mais descarados na sua ousadia, já não se trata de pessoas com uma rede ou espingarda a tentar colocar uma refeição na mesa de família. Os membros das patrulhas indígenas dizem que, cada vez mais, as equipas de caça furtiva parecem ser empreendimentos altamente capitalizados e organizados, financiados por uma rede sombria de investidores externos com suspeitas de ligações ao narcotráfico. Os seus barcos de pesca têm motores de alta cilindrada e capacidade para levar enormes quantidades de combustível, redes dispendiosas de emalhar, gelo e centenas de quilos de sal para preservar a carne de caça e de pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, que está em perigo critico de extinção. Em março, numa das raras ações policiais, os agentes intercetaram pescadores que estavam a sair da reserva com duas dúzias de tartarugas marinhas em perigo de extinção, incluindo perto de 300 quilos de carne de caça salgada e mais de 400 quilos de pirarucu salgado.

A circulação evidente de dinheiro faz com que pescadores como Amarildo Oliveira se aprofundem ainda mais no território Javari, permaneçam lá durante mais tempo e que regressem com cargas pesadas para saldar as suas dívidas. Relatórios por confirmar indicam que Amarildo Oliveira pode ter contraído uma dívida superior a 15.000 dólares a um financiador peruano com o apelido “Colômbia”, porque uma das suas cargas de contrabando foi intercetada pelas patrulhas indígenas.

À medida que os intrusos vão penetrando cada vez mais nas profundezas do Javari, os líderes indígenas e respetivos aliados receiam a probabilidade crescente de um conflito com as tribos nómadas isoladas que vagueiam pela floresta. “Eles estão definitivamente a colocar os isolados em risco”, diz Orlando Possuelo, filho de Sydney Possuelo, que vive na Atalaia do Norte e nos últimos dois anos trabalhou com Bruno Pereira no aconselhamento das patrulhas indígenas. Os caçadores estão a saquear os animais dos quais os grupos isolados dependem para sobreviver. E os grupos isolados permanecem altamente vulneráveis às doenças contagiosas, para as quais têm poucas ou nenhumas defesas imunitárias. Por fim, e talvez mais iminente, existe o perigo real da violência. “Estes pescadores não hesitam em disparar”, diz Orlando Possuelo. “Se eles estão dispostos a matar fora da reserva, não há dúvida de que as vidas dos isolados estão em perigo.”

Um grupo indígena isolado não tem forma de comunicar pacificamente com os intrusos que entram no seu território. A resposta mais provável é as tribos atacarem, mas isso pode provocar um banho de sangue, sobretudo quando os intrusos responderem às lanças ou flechas com balas, que são muito mais letais, diz Paulo Marubo. “Qualquer pessoa sabe o resultado de um confronto entre quem tem armas de fogo e quem não têm.”

Foi precisamente a esperança de evitar esta alarmante possibilidade que levou Bruno Pereira a arriscar a sua vida. “A maior preocupação que tenho é o avanço dos forasteiros – quer seja para construir projetos autorizados pelo governo ou outros atores ilegais como os madeireiros e garimpeiros – nos territórios dos isolados”, disse Bruno Pereira num telefonema feito em 2019 depois de ter sido expulso do departamento de tribos isoladas. “Ao mesmo tempo, temos a paralisação da FUNAI e do departamento de proteção de tribos isoladas. É uma mistura muito perigosa.”

O jovem Xikxuvo Vakwë observa a chegada de um barco no rio Itui, no Vale do Javari. Os confrontos com as pessoas de fora têm sido catastróficos para os povos isolados da Amazónia – um destino que Dom Phillips e Bruno Pereira estavam a tentar evitar.

Fotografia por Gary Calton, eyevine, Redux

Os líderes indígenas do Javari dizem que não vão ser intimidados pelos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips, e que as patrulhas de vigilância vão continuar.

“A sua memória fortalece o nosso espírito para lutarmos, para defendermos o território”, diz Paulo Marubo. “Se dantes era o Bruno que lutava por nós, agora somos nós que vamos lutar por ele.”

Agora, apesar das declarações feitas anteriormente de que o crime parecia resultar de uma disputa pessoal, as autoridades estão a investigar uma possível ligação entre os assassinatos e uma rede maior de crime organizado.

Scott Wallace é professor-adjunto de jornalismo na Universidade do Connecticut e autor de The Unconquered: In Search of the Amazon’s Last Uncontacted Tribes.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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