Como uma zona rural abandonada se transformou num paraíso ecológico

Em Espanha, as zonas rurais têm vindo a perder população há décadas. Agora, há novas comunidades idealistas que se estão a instalar no campo.

Prada de la Sierra, na região noroeste de Espanha, ficou deserta na década de 1970 conforme as pessoas foram migrando para as cidades. Nos anos mais recentes, cerca de uma dúzia de recém-chegados mudaram-se para este local e restauraram alguns dos seus edifícios. No início de junho, estes habitantes venceram um caso em tribunal para a vila ser novamente reconhecida.

Fotografia por Sanne Derks, National Geographic
Por Myrthe Prins
Publicado 29/08/2022, 10:47

Onde uma pessoa vê vazio, outra pode ver potencial. Foi este o tema recorrente da antropóloga e fotojornalista neerlandesa Sanne Derks, enquanto documentava a vida de pessoas que se mudaram para casas e aldeias abandonadas na zona rural espanhola que está praticamente ao abandono.

“Eu estava a trabalhar num artigo sobre cidadãos europeus que estão a desenvolver iniciativas para resistir às alterações climáticas”, diz Sanne Derks, que ficou fascinada com as “ecovilas” – comunidades cooperativas sustentáveis – que inspiraram um projeto maior.

Marta Haro López, Sara Vallejo Sarden, Mauricio Noel Strübing e Yule Argüello Navarro tomam o pequeno-almoço numa casa que construíram na região isolada de Matavenero, no noroeste de Espanha. Hippies alemães repovoaram esta vila deserta na década de 1980; e agora é o lar de cerca de 50 habitantes permanentes de várias gerações.

Fotografia por Sanne Derks

Durante 2020 e 2021, Sanne Derks explorou sete aldeias espanholas que foram “repovoadas”, incluindo não apenas ecovilas, mas também outras construções. Sanne Derks descobriu que os habitantes partilhavam uma visão comum. “Quase todos estão a fazer isto com a convicção de que as coisas precisam de ser diferentes no mundo em que vivemos hoje”, diz Sanne Derks. “Eles acreditam que a cidade já não é um lugar bom para viver.”

Sanne batizou o seu projeto fotográfico com o nome Rutopia, uma mistura de “rural” e “utopia”, que explora duas questões: o que leva alguém a fazer as malas e a mudar-se para uma vila em ruínas e quais os desafios enfrentados?

Hannah Brüderer é uma das fundadoras da comunidade de Matavenero. O seu filho e netos ainda moram neste local. “A maioria das pessoas fica aqui cerca de 10 anos”, diz Hannah Brüderer. Um dos desafios é ganhar dinheiro num local remoto; as pessoas muitas vezes mudam-se quando os seus filhos atingem a idade escolar para obter rendimentos mais estáveis e acesso à educação. “Em Matavenero, trabalhamos muito, mas não o fazemos por dinheiro.”

O conceito de comunidade sustentável já existe há séculos, mas o termo ecovila é relativamente novo. Fundado há mais de 30 anos, um dos exemplos mais antigos deste conceito em Espanha fica em Matavenero, um posto avançado remoto nas montanhas da província de León. Esta vila deserta, acessível apenas a pé, foi repovoada por um grupo de hippies alemães no final da década de 1980 e hoje tem cerca de 50 habitantes permanentes. De acordo com a Global Ecovillage Network, uma organização voluntária, Espanha tem cerca de 90 ecovilas, muito mais do que a maioria dos países europeus.

Espanha também tem algo que outros países europeus não têm. “Espanha é muito mais espaçosa do que, digamos, os Países Baixos ou a Bélgica”, diz Sanne Derks. “Para além disso, houve uma grande migração para as cidades costeiras e para Madrid desde a década de 1970.” De acordo com o governo espanhol, 70% das terras do país estão ocupadas por apenas 10% da população, um fenómeno muitas vezes chamado España vacía, ou Espanha vazia. Este êxodo tem sido tão extremo que muitas aldeias rurais são agora verdadeiros fantasmas.

Para além do desejo de uma mudança no estilo de vida, Sanne Derks observou que as pessoas que se mudam para estes lugares escassamente povoados também foram estimuladas pelos rígidos confinamentos durante a pandemia de coronavírus e devido a uma série de crises económicas e habitacionais. “Estão a afastar-se do capitalismo, do consumismo – e a procurar algum tipo de mini-sociedade utópica.” Contudo, Sanne Derks também descobriu que este ideal tem alguns contratempos.

Esquerda: Superior:

Felix Franco Escobar e Guillem Mateu Prat fazem um churrasco nas ruínas onde vive Felix Escobar, em Aguinalíu. Este edifício, um antigo estábulo para animais, não tem janelas nem portas, mas Felix está satisfeito com a sua casa.

Direita: Inferior:

Barchel, uma vila isolada na província de Valência, esteve deserta durante 40 anos. Há sete anos, novos habitantes mudaram-se para a vila e organizaram-se num estilo comunitário, alternando tarefas diárias como preparar o jantar, trabalhar no jardim e pastorear as cabras. As pessoas que têm um emprego remunerado doam 30% do seu salário para a comunidade. Os fundos são usados para comprar os alimentos que não podem ser produzidos localmente, bem como outros mantimentos.

 

Jürgen Pluindrich, que vive em Matavenero, recebeu a sua casa em troca de três semanas de trabalho para outro habitante há mais de 20 anos. Alemão de nascença, Jürgen Pluindrich diz ter um sentimento de pertença que não conseguia encontrar na selva urbana.

Shangri-bla

As ligações telefónicas não são fiáveis. Durante o inverno neva bastante. E não é possível sobreviver apenas com a colheita das hortas. Antes de começar a sua reportagem, Sanne Derks esperava que os desafios de viver no campo fossem encontrados principalmente nas dificuldades de uma vida isolada e autossuficiente. “Estes fatores desempenham um papel, como é óbvio”, diz Sanne. “Mas depois de visitar alguns lugares, percebi que a maioria dos problemas nas comunidades rondava mais em torno dos conflitos internos.”

Uma mistura nociva entre coisas como “não no meu quintal” e mexericos podem arruinar o espírito comunitário. “Temos uma árvore fantástica, mas projeta sombra na casa de outra pessoa. Ou estamos muito felizes com o nosso arbusto de bagas, mas se não o podarmos a tempo, os filhos dos vizinhos podem arranhar-se no arbusto”, diz Sanne. “Suponhamos que uma relação romântica termina. De repente, isso pode tornar-se num grande problema numa comunidade tão pequena.”

No Parque Natural da Zona Vulcânica de La Garrotxa, na região da Catalunha, Dídac Costa comprou 70 hectares, incluindo quatro estruturas abandonadas num vilarejo. (O parque inclui municípios.) Dídac Costa investiu o seu dinheiro na recuperação desta casa, mas o seu sonho é criar um coletivo de habitantes ecologicamente conscientes que pensem de forma semelhante.

Matavenero, apesar de venerável, também não conseguiu alcançar uma harmonia perfeita. “Eu esperava que esta comunidade fosse uma história de sucesso porque já dura há várias gerações”, diz Sanne Derks. “Mas os problemas acabaram por ser pelo menos tão graves quanto os verificados noutros lugares. Num dos casos, uma pessoa incendiou a casa de outra.”

A comunicação parece ser um desafio constante, e uma pessoa pode até ser expulsa do grupo devido a conflitos.

Uma comunidade na província de Girona estava completamente livre de conflitos interpessoais – porque só tem um residente. No Parque Natural da Zona Vulcânica de La Garrotxa, uma paisagem idílica de vulcões extintos cobertos por árvores a norte de Barcelona, Sanne Derks visitou Dídac Costa. Com o dinheiro herdado do seu pai, Dídac comprou 70 hectares de terra no parque, incluindo várias ruínas no vilarejo de Ca l'Amat, para fundar uma comunidade.

Natural de Barcelona, Dídac Costa tem quatro gatos, três cães, dois burros e 35 cabras. No entanto, para além dos animais, Dídac ainda não conseguiu encontrar habitantes com ideias semelhantes para a comunidade aspiracional à qual chama Ecovila Amat. “O que Dídac tem em mente é politicamente complicado”, diz a fotógrafa Sanne Derks.

“Dídac renovou completamente uma casa. E vive lá agora com três cães, quatro gatos, dois burros e 35 cabras”. No entanto, para além dos animais, Dídac ainda não conseguiu encontrar habitantes com ideias semelhantes para a comunidade aspiracional à qual chama Ecovila Amat.

“O que Dídac tem em mente é politicamente complicado”, explica Sanne Derks. “Para viver com ele, as pessoas têm de partilhar as suas convicções anarquistas. E os candidatos que são suficientemente eco-libertários/pacifistas/hippies, “muitas vezes não têm dinheiro para investir. Resumindo, Dídac vive lá sozinho há anos”.

Não importa o quão idílico é um cenário, não existe um grupo social livre de conflitos, diz Sanne Derks. “É o preço que temos de pagar se quisermos iniciar uma comunidade com diversas personalidades.”

Dídac Costa alimenta os animais em frente à sua casa no povoado de C'al Amat. Dídac não encara a sua tentativa de iniciar uma comunidade como um fracasso. “Mesmo que nunca chegue ao destino, tem um rumo na sua vida”, diz Sanne Derks.

Ainda assim, Sanne esteve em lugares que pareciam bastante utópicos. Em Barchel, uma vila isolada a oeste de Valência, Sanne Derks sentiu-se imediatamente em casa. Um grupo de jovens idealistas estava a transformar a casa vazia de uma quinta na sua nova habitação. Quando estes jovens chegarem aqui, há sete anos, o local estava deserto há quatro décadas.

“Há lá uma horta enorme e eles divertem-se muito juntos. E estão altamente motivados para desenvolver a vila com base nos seus valores.” Por um lado, Barchel não tem hierarquia. Os seus habitantes tomam quase todas as decisões através de reuniões. “Quem é que vai ordenhar as cabras? Trabalhar no jardim? Cuidar do almoço? Quem vai fazer sabão? É como uma viagem escolar para acampar eternamente.”

Sanne Derks percebeu que não foi feita para esta vida comunitária. “Esse talvez tenha sido o maior desafio deste projeto”, diz Sanne. “Eu abraço muitas das ideias que compõem a base deste tipo de vilas, como a sustentabilidade e o minimalismo.” Mas o lado individualista de Sanne fala mais alto.

“De certa forma, temos de abdicar de nós próprios para atingir o objetivo coletivo de construir juntos um futuro sustentável”, diz Sanne. “É fantástico que eles estejam a fazer isto, mas eu não o conseguia fazer. Convocar uma reunião para tomar todas as pequenas decisões? Não tenho paciência para isso.”

Andrea Martín Moreno, Duende del Parke, Lalo Arracil Coca e Miguel Martínez, que vivem em Fraguas, na região de Castilla-La Mancha, fazem uma pausa durante a tarde na sua casa comunitária e cozinha ao ar livre. Os barris são uma preparação para resistir: sob a ameaça de despejo devido a ocupação ilegal, estes habitantes planeiam acorrentar-se no local. No final da década de 1960, os moradores receberam dinheiro para sair daqui, para dar lugar a um projeto de extração de madeira. Mais tarde, a área foi usada como campo de treino para soldados, que demoliram algumas das estruturas. Na última década, um coletivo de habitantes ressuscitou a vila.

Reinvenção rural

Uma utopia nas montanhas espanholas pode não ser para todos, mas há muitas pessoas que prosperam. Jürgen Pluindrich, que veio da Alemanha, vive em Matavenero há 30 anos e criou um filho no local. “Ele disse-me que não conseguia orientar-se no asfalto e consumismo de uma cidade”, diz Sanne Derks.

Sanne também conheceu pessoas que cresceram numa ecovila. “Quando as crianças vão para a escola, os pais muitas vezes mudam-se para uma vila nas proximidades que tem instalações escolares. Mas quando os jovens crescem e querem começar uma família, muitos deles regressam à comunidade. Isto dá-lhes uma sensação de conforto.”

O próprio Dídac Costa, que continua à procura de habitantes para a sua Ecovila Amat, não vê a sua comunidade como um fracasso. Sanne Derks expressa a mentalidade de Dídac Costa: “Mesmo que nunca chegue ao destino, tem um rumo na sua vida”.

Uma vista matinal sobre Fraguas. Cerca de 15 recém-chegados que esperavam iniciar uma comunidade autossustentável reconstruíram as estruturas abandonadas deste local. Desde então, o governo local ordenou que o grupo desmantelasse as construções ou pagasse a sua demolição. A terra pode depois ser usada para a extração de madeira.

Dores de pioneiro

Sanne Derks consegue perceber o valor em reduzir as posses. “Quando trabalhei como guia de turismo na América do Sul, vi pessoas nos meus grupos com bastões de caminhada, 17 pares de sapatos e calças conversíveis. Todas as pessoas pensam que precisam destas coisas. Mas quando aprendemos a afastar-nos deste conceito, de uma certa forma ficamos mais livres.”

Felix Franco Escobar, um paraguaio que Sanne Derks conheceu em Aguinalíu, encarnava este espírito. “Sempre de bom humor e completamente satisfeito, apesar de não ter praticamente nada. Um mestre do minimalismo.” Felix Escobar pode ser geralmente encontrado a tomar um chá mate. Felix vive num antigo curral de ovelhas, feito de pedra e sem portas ou janelas, onde dorme numa cama sem colchão.

“Felix trabalha na construção, mas não tem qualquer tipo de pressa em reformar aquela casa”, diz Sanne Derks. Em relação à falta de um colchão, Felix afirma que é bom para as costas. “Não estou a dizer que todos deviam viver desta maneira”, diz Sanne Derks. “Mas podemos refletir sobre as coisas que precisamos realmente para viver.”

De certa forma, a pequena comunidade de Fraguas, nas colinas arborizadas de Guadalajara, a nordeste de Madrid, leva ao extremo a redução de posses – segundo o governo local, estas pessoas não têm o direito de viver no local. Sanne Derks recorda as árvores de fruto e os arbustos de bagas em flor que viu durante a sua visita. “Muito idílico, mas há boas probabilidade de as pessoas serem despejadas.”

Os habitantes consideram que o repovoamento é um direito seu, mas o governo espanhol tem uma visão diferente. Os colonos, rotulados como “ocupas” – Espanha tem uma história complexa de ocupação, que originou na era pós-Franco – estão envolvidos numa disputa legal com as autoridades há sete anos, em parte devido à violação de direitos de propriedade.

Recentemente, um tribunal ordenou seis membros da comunidade de Fraguas a pagar 110.000 euros para demolir a aldeia que reconstruíram – a alternativa é uma pena de prisão superior a dois anos. Os habitantes anunciaram que vão recorrer da decisão. “Mas não podem pagar, porque na realidade não têm nada. Agora, alguns têm uma sentença de prisão a pairar sobre as suas cabeças. É um preço elevado para uma utopia.”

Sanne Derks acredita que estas comunidades enfrentam muitos conflitos porque são pioneiras. “Estão a experimentar modelos anticapitalistas, algo que parece completamente impossível num mundo capitalista.”

O compromisso ideológico é um denominador comum nos lugares que Sanne Derks visitou – quer sejam moradores que desejam reduzir a sua pegada ecológica, viver com menos posses ou experimentar novos sistemas políticos e económicos. “É exatamente aí que reside a utopia, creio eu”, diz Sanne. “Comecei a admirar o facto de eles ousarem fazer uma escolha tão consciente. Porque não importa quão pequeno seja, estão a fazer alguma coisa.”

Este artigo foi adaptado da edição neerlandesa da National Geographic. Sanne Derks, fotógrafa e exploradora da National Geographic, trabalha extensivamente na América Latina.

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